A cena cultural do Sul do País ganha um novo e robusto capítulo. Neste sábado, dia 13, das 11h às 16h, a Bolsa de Arte, galeria histórica com 46 anos de atuação no mercado brasileiro, reabre as portas de sua sede em Porto Alegre (Rua Visconde do Rio Branco, 365). O retorno sinaliza dois grandes marcos: a inauguração da exposição coletiva “Stromboli”, que reúne mais de 50 artistas nacionais e internacionais, e o anúncio de uma sociedade com a renomada Almeida & Dale.
Esse movimento estratégico redesenha a atuação da galeria, que optou por encerrar suas atividades físicas em São Paulo (mantidas entre 2014 e 2024) para focar totalmente na Capital gaúcha. A meta é transformar o Sul em um polo de irradiação artística conectado com o mundo.
O caminho inverso: Descentralizando o mercado de arte
Historicamente concentrado no eixo paulista, o mercado de arte brasileiro tem passado por profundas transformações estruturais. De acordo com o relatório setorial da Act Arte, o mercado interno no Brasil movimentou R$ 3,12 bilhões em 2025, sendo o único componente a apresentar crescimento ininterrupto na série de 2021 a 2025 (com média de 10,5% de alta ao ano).
É de olho nesse potencial reprimido fora de São Paulo que a fusão entre a Bolsa de Arte e a Almeida & Dale se consolidou. Antônio Almeida, sócio-diretor, explica a motivação da parceria, "o mercado de arte é basicamente concentrado em São Paulo e nós achamos que isso é uma coisa muito injusta, porque o País inteiro tem um potencial absurdo de consumo. O País inteiro tem grandes artistas que precisam ser olhados, revistos e reposicionados (...) Nós queremos fazer o caminho inverso."
Fundada em 1980 e capitaneada por Marga Pasquali desde 1986, a Bolsa de Arte é apontada como o pilar ideal para essa expansão. "Pensando no Sul, não tinha como pensar em outra pessoa que não fosse a Marga. Nós pegamos a nossa experiência de País com o conhecimento da Marga do Sul e fizemos essa fusão", complementa Antônio.
Para Marga Pasquali, o foco absoluto no Sul permitirá um atendimento próximo e personalizado aos colecionadores, sem as divisões operacionais que duas sedes exigiam. Aos 74 anos, seu entusiasmo permanece inabalável:
"Quem dança, quem canta, quem toca instrumento e quem trabalha com arte, cada dia é melhor. Eu tô com 74 anos e eu cada dia gosto mais."
“Stromboli”: O vulcão como metáfora do corpo em mutação
Para celebrar a nova fase, a galeria convidou o renomado curador gaúcho Bernardo José de Souza. A mostra inaugural, que segue em cartaz até o dia 16 de agosto, toma emprestado o nome da ilha vulcânica de Stromboli, localizada no Mar Mediterrâneo, célebre pelo filme neorrealista de Roberto Rossellini.
Mais do que a referência cinematográfica, o curador utiliza o vulcão, em erupção há mais de mil anos, como uma poderosa metáfora para as transformações e tensões que atravessam o corpo humano e social. “O que me interessava era pensar o vulcão como metáfora para o corpo, o vulcão como um organismo em permanente transformação, e o corpo também como um organismo em constante mutação, sucessivos abalos físicos, emocionais, explosões de ira, desejo, paixão, violência", explica Bernardo.
A exposição assume um tom político e antropológico ao debater, por meio da arte, a história e os limites plásticos e de sobrevivência de diferentes corpos: o corpo negro e a resistência à escravidão; o corpo feminino contra a opressão; o corpo gay e as lutas decorrentes da epidemia de HIV nos anos 80; e o corpo trans desafiando as noções biológicas da identidade humana.
Diálogos geracionais e acervo de peso
Com mais de 50 artistas, “Stromboli” opera como uma exposição de nível institucional. O projeto expõe lado a lado obras do mercado primário (artistas representados) e do valioso mercado secundário (revenda de acervos históricos).
O grande trunfo da montagem está na justaposição de períodos e linguagens plásticas. Mestres do modernismo brasileiro e internacional – como Tarsila do Amaral, Cândido Portinari, Di Cavalcanti, Iberê Camargo e Lúcio Fontana – dividem espaço com grandes nomes contemporâneos globais, como a britânica Sarah Lucas e o ganês Amoako Boafo.
Além disso, a mostra cumpre o papel histórico da galeria de projetar novos talentos. Um dos principais destaques apontados pelo curador é o diálogo entre estéticas de diferentes tempos: "Acho que o mais surpreendente tenha sido a possibilidade de justapor ou de colocar em contato artistas tão jovens como, por exemplo, a Camila Elis daqui do Rio Grande do Sul, ao lado de artistas históricos da arte brasileira como Artur Barrio e Iberê Camargo. E justamente contrapor essas estéticas e essas perspectivas plásticas e de mundo", diz Bernardo.