Arte & Agenda

Brasil está em Cannes 2025

Brasil volta ao centro da cena com “O Agente Secreto”, novo filme de Kléber Mendonça Filho com Wagner Moura como protagonista

Festival de Cinema de Cannes vai até o dia 24 de maio, e o júri oficial que escolhe os vencedores tem a presidência da atriz Juliette Binoche
Festival de Cinema de Cannes vai até o dia 24 de maio, e o júri oficial que escolhe os vencedores tem a presidência da atriz Juliette Binoche Foto : Sameer AL-DOUMY / AFP

No coração da Riviera Francesa, sob o sol de maio e o burburinho do cinema global, o Festival de Cannes 2025 começou na última terça-feira com uma promessa no ar: o cinema ainda pode ser uma arma — e o Brasil está de volta ao front. Quem carrega essa bandeira é ninguém menos que Kléber Mendonça Filho, diretor pernambucano que transformou inquietações nacionais em eventos cinematográficos globais. Ele retorna à competição principal com seu novo filme, “O Agente Secreto”, estrelado por Wagner Moura, e já é um dos nomes mais comentados da Croisette.

Desta vez, Mendonça mergulha no universo da espionagem — mas à sua maneira, claro. Nada de James Bond tropical ou explosões hollywoodianas. “O Agente Secreto” é um thriller cerebral, com camadas políticas e existenciais, que atravessa fronteiras geográficas e simbólicas. Moura interpreta um diplomata brasileiro que vive em trânsito constante entre Brasília, Genebra e Berlim. Por trás de sua aparência contida, esconde-se um passado nebuloso e uma teia de relações que envolve governos, memórias e traições pessoais.

A trama se desenrola como um jogo de xadrez narrativo, onde cada cena parece esconder outra. Kléber, como já fez em “Aquarius” (2016) e “Bacurau” (2019), mais uma vez desafia o público a decifrar os códigos de um país em ruínas — desta vez, usando a linguagem elegante e ambígua do cinema de espionagem. A crítica à vigilância, à diplomacia tóxica e ao passado mal resolvido do Brasil se transforma em uma narrativa tensa, pulsante, silenciosamente explosiva. É cinema de gênero com alma política. É denúncia disfarçada de suspense.

A seleção do filme para a Palma de Ouro marca o retorno triunfal do Brasil à competição oficial, depois de anos de presença constante, porém alternada, entre as mostras paralelas e sessões especiais. Desde a Palma dividida de “Bacurau”, que incendiou o festival com sua mistura de faroeste, ficção científica e resistência popular, o nome de Mendonça é sinônimo de inquietação estética. Em Cannes, ele é tratado como autor — e também como provocador.

Mas sua presença é parte de um processo maior. O cinema brasileiro tem, nas últimas décadas, deixado uma marca profunda em Cannes. Karim Aïnouz encantou a crítica com “A Vida Invisível” (vencedor da mostra Um Certain Regard em 2019) e voltou com o híbrido “O Marinheiro das Montanhas”. Petra Costa, com seu “Democracia em Vertigem”, mesmo fora da seleção oficial, reverberou nos debates e corredores. Aly Muritiba, João Salaviza, Gabriel Martins e tantos outros vêm construindo uma presença plural, desafiadora, muitas vezes incômoda — mas sempre necessária.

Em 2025, “O Agente Secreto” reforça esse percurso com potência simbólica. Em um mundo onde a verdade se tornou volátil e a arte, muitas vezes domesticada, Mendonça e Moura oferecem um cinema de risco — que pensa, provoca, questiona. Um filme onde a escuridão não é estética, é política.

No fim das contas, Cannes segue sendo vitrine, mas também campo de batalha simbólico. E o Brasil, com todos os seus abismos e brilhos, volta a ocupar seu espaço com orgulho, urgência e complexidade.

Não é só um filme. É uma presença. E está longe de ser silenciosa.

E vale lembrar que 2025 é o ano em que o cinema brasileiro recebeu seu primeiro Oscar da história. O trabalho de Walter Salles e sua equipe no potente “Ainda Estou Aqui”, garantiu o Oscar de Melhor Filme Internacional. E sem esquecer que a atuação da talentosíssima Fernanda Torres no mesmo filme lhe conferiu o trono de Melhor Atriz no Festival de Veneza. Somando-se a isso as ótimas repercussões cinematográficas de obras como a de Gabriel Massaro no Festival de Berlim, estamos diante de um ano mais do que promissor.

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