No coração da Riviera Francesa, sob o sol de maio e o burburinho do cinema global, o Festival de Cannes 2025 começou na última terça-feira com uma promessa no ar: o cinema ainda pode ser uma arma — e o Brasil está de volta ao front. Quem carrega essa bandeira é ninguém menos que Kléber Mendonça Filho, diretor pernambucano que transformou inquietações nacionais em eventos cinematográficos globais. Ele retorna à competição principal com seu novo filme, “O Agente Secreto”, estrelado por Wagner Moura, e já é um dos nomes mais comentados da Croisette.
Desta vez, Mendonça mergulha no universo da espionagem — mas à sua maneira, claro. Nada de James Bond tropical ou explosões hollywoodianas. “O Agente Secreto” é um thriller cerebral, com camadas políticas e existenciais, que atravessa fronteiras geográficas e simbólicas. Moura interpreta um diplomata brasileiro que vive em trânsito constante entre Brasília, Genebra e Berlim. Por trás de sua aparência contida, esconde-se um passado nebuloso e uma teia de relações que envolve governos, memórias e traições pessoais.
A trama se desenrola como um jogo de xadrez narrativo, onde cada cena parece esconder outra. Kléber, como já fez em “Aquarius” (2016) e “Bacurau” (2019), mais uma vez desafia o público a decifrar os códigos de um país em ruínas — desta vez, usando a linguagem elegante e ambígua do cinema de espionagem. A crítica à vigilância, à diplomacia tóxica e ao passado mal resolvido do Brasil se transforma em uma narrativa tensa, pulsante, silenciosamente explosiva. É cinema de gênero com alma política. É denúncia disfarçada de suspense.
A seleção do filme para a Palma de Ouro marca o retorno triunfal do Brasil à competição oficial, depois de anos de presença constante, porém alternada, entre as mostras paralelas e sessões especiais. Desde a Palma dividida de “Bacurau”, que incendiou o festival com sua mistura de faroeste, ficção científica e resistência popular, o nome de Mendonça é sinônimo de inquietação estética. Em Cannes, ele é tratado como autor — e também como provocador.
Mas sua presença é parte de um processo maior. O cinema brasileiro tem, nas últimas décadas, deixado uma marca profunda em Cannes. Karim Aïnouz encantou a crítica com “A Vida Invisível” (vencedor da mostra Um Certain Regard em 2019) e voltou com o híbrido “O Marinheiro das Montanhas”. Petra Costa, com seu “Democracia em Vertigem”, mesmo fora da seleção oficial, reverberou nos debates e corredores. Aly Muritiba, João Salaviza, Gabriel Martins e tantos outros vêm construindo uma presença plural, desafiadora, muitas vezes incômoda — mas sempre necessária.
Em 2025, “O Agente Secreto” reforça esse percurso com potência simbólica. Em um mundo onde a verdade se tornou volátil e a arte, muitas vezes domesticada, Mendonça e Moura oferecem um cinema de risco — que pensa, provoca, questiona. Um filme onde a escuridão não é estética, é política.
No fim das contas, Cannes segue sendo vitrine, mas também campo de batalha simbólico. E o Brasil, com todos os seus abismos e brilhos, volta a ocupar seu espaço com orgulho, urgência e complexidade.
Não é só um filme. É uma presença. E está longe de ser silenciosa.
E vale lembrar que 2025 é o ano em que o cinema brasileiro recebeu seu primeiro Oscar da história. O trabalho de Walter Salles e sua equipe no potente “Ainda Estou Aqui”, garantiu o Oscar de Melhor Filme Internacional. E sem esquecer que a atuação da talentosíssima Fernanda Torres no mesmo filme lhe conferiu o trono de Melhor Atriz no Festival de Veneza. Somando-se a isso as ótimas repercussões cinematográficas de obras como a de Gabriel Massaro no Festival de Berlim, estamos diante de um ano mais do que promissor.