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Bruno Belarmino revela desafios em nova temporada de "Cangaço Novo"

Ator pernambucano fala sobre seu papel como Gastão Maleiro, sobre projetos sociais e a paixão pela arte

De volta à segunda temporada de “Cangaço Novo”, que estreou dia 24 no Prime Video, Bruno Belarmino surge mais central na trama como Gastão Maleiro
De volta à segunda temporada de “Cangaço Novo”, que estreou dia 24 no Prime Video, Bruno Belarmino surge mais central na trama como Gastão Maleiro Foto : Philipp Lavra / Divulgação / CP

De volta à 2ª temporada de “Cangaço Novo”, que estreou no dia 24 de abril no Prime Video, Bruno Belarmino surge mais central na trama. O ator dá vida a Gastão Maleiro, que agora se envolve diretamente nas articulações de poder da fictícia Cratará. Fora de cena, Belarmino segue ligado a projetos sociais, de onde veio seu primeiro contato com a atuação, ainda na periferia de Pernambuco.

Como consegues ser discreto na vida e ousado em teus projetos artísticos?

Eu sou tímido fora das telas. Um tipo de timidez, vai lá, nível 2. Só que com os personagens eu sou muito livre. Ali eu posso dar vida a exemplos divinos, trágicos, cômicos e alguns de caráter duvidoso até. Deixo essa fama para eles. Acredito que alguns dos meus personagens adorariam ser famosos e ter a vida toda exposta nas redes sociais e páginas de fofoca.

Na tela da Record, interpretaste Ekur, na superprodução bíblica “Gênesis”. Como foi interpretar o personagem?

Eu tenho um baita carinho por essa novela. E mais ainda pelo Ekur. Filmar Gênesis foi especial. Digo isso porque estávamos na pandemia, todo mundo muito fragilizado com os acontecimentos diários. E o Ekur me serviu como um grande aliado, um amigo mesmo, sabe? E essas características de força, amizade e companheirismo, tão presentes em oficiais, já me mantinham num fluxo de pesquisa para desenvolver a personalidade desse general. Formamos uma unidade de apoio mútuo.

Como trabalhas na minuciosa construção de cada personagem?

Bom, eu procuro primeiro não me intrometer com julgamentos prévios. Gosto de deixá-los à vontade para que eles surjam com suas próprias impressões sobre o que dirão no filme. E tudo fica mais interessante com os ensaios e a preparação de elenco. A dinâmica de elaborar uma personalidade fictícia que ficará exposta para sempre exige bastante responsabilidade. Por isso, aproveito ao máximo os ensaios para que ali surjam ideias que sejam fundamentais para o processo criativo.

Quando começou tua paixão pela arte?

Cara, eu posso dizer que desde criança eu fui envolvido pela arte. Primeiro, por ser uma criança arteira, que sobe em árvore, joga bola na rua e interage com o espaço. E segundo, eu amava os filmes e desenhos animados. Eu queria estar ali dentro da TV. Fui criado tendo a TV e o videocassete como parte integrante da família. Então, figuras como o Pica-Pau e o Exterminador do Futuro eram presentes na minha criação. Mas foi com a música que tive minha primeira manifestação real sobre arte e indivíduo. Eu toquei numa banda de punk/hardcore aos 15 anos. E, através dela, conheci o teatro logo em seguida.

É verdade que, aos 15 anos, quando começaste a tocar numa banda de punk rock em Jardim Brasil, Olinda, às margens da Cidade Alta, chegaste a ser ameaçado de morte? Como driblaste a situação?

Meu bairro tinha um problema gravíssimo de homicídios. Então, tudo que fosse posto à margem da sociedade estaria sujeito a ser eliminado por esses grupos que na época existiam. Produzir shows e promover bem-estar social nesses lugares poderia ser taxado como marginal ou algo parecido. O medo era real. Mas, graças a Deus, estamos aqui intactos, sem jamais retroceder, ainda mais pelo julgo da violência. A arte salva mesmo.

Tua grande chance na arte veio com a chegada de uma ONG alemã que escolheu 20 jovens em situação de risco para montar um grupo de teatro. O que essa chance representou na tua vida e no teu futuro profissional?

Além dessa entidade, existiram outras estrangeiras e nacionais. Mas foi pelas mãos das professoras e professores do Centro Luiz Freire, em Olinda, que me enxerguei como voz ativa na sociedade. O teatro me fez enxergar uma vida repleta de lugares fascinantes que eu poderia conhecer sem renegar meu bairro e toda dificuldade que lá existia. O teatro me fez querer ajudar meu bairro e as pessoas que nele residiam. O Centro foi meu ponto de apoio para a formação da minha personalidade, além do ator.

Além de artista, foste vendedor em uma multinacional. Como conseguiste conciliar a arte e as vendas?

Eu precisava trabalhar, né? Nessa época, as atividades cênicas em Pernambuco não estavam tão bem. Nós, artistas, somos excelentes em adaptação.

Quando decidiste mudar os rumos da carreira e partir para São Paulo, sozinho?

Quando eu rodei, em Pernambuco, o “Paraísos Artificiais”, em 2009. Não sei o que houve em mim na hora, mas tive uma forte intuição para seguir para São Paulo. Me preparei antes, claro. Porém, fui fiel à minha intuição e, até aqui, estou feliz com a decisão tomada lá atrás.

Dos tempos de jovem que incomodava um certo povoado de Olinda com seu hard punk, ficou o adulto que não consegue não se envolver com política. Como consegues esse feito?

Olha, eu fui criado por pais que sempre debateram política em casa. Fui um jovem livre dentro de casa para falar sobre tudo. Então, acredito que somos instrumentos políticos na sociedade, só que sem a alcunha de ser político. Faço jus aos ensinamentos que tive com meus pais e professores.

Com estreia marcada para 24 de abril no Prime Vídeo, a segunda temporada de “Cangaço Novo” te colocou em uma posição ainda mais central na trama. Fale um pouco sobre o personagem Gastão Maleiro.

Sim, dessa vez o Gastão Maleiro vira mais ambicioso. Ele acredita mesmo que seja dono de Cratará e fará de tudo para alcançar seus objetivos. A série tá insana e esperem muitas cenas de ação para essa segunda temporada.

Existe alguma semelhança entre você e Gastão Maleiro?

Só a vontade de viver mesmo, viu. Porque, de resto, ele não é nada parecido comigo. Foi um desafio e tanto dar vida para ele. Eu convivi com um inferno que não era meu, mas estava ali comigo. E cada dia eu ficava mais curioso para saber mais dele. Essa contradição comigo fez com que eu fosse atrás dele mais do que ele de mim. E, sendo bem honesto, sou intrigado com personagens assim.

Durante anos, te destacaste em papéis marcados por tensão, violência e conflito moral, em produções como “Supermax” e “Rotas do Ódio”, mas a nova temporada de “Cangaço Novo” exigiu um nível de entrega diferente, tanto física quanto emocional. Fala um pouco sobre esse desafio.

Verdade. Com o Gastão Maleiro, tudo é mais real, sabe? Outra coisa: ele era rico e poderoso, foi criado com tudo que a pessoa pudesse ter. E eu jamais tive isso na vida, digo, privilégios de pessoas ricas. Eu pensava todo dia como seria o Gastão Maleiro na infância pedindo algo e recebendo ali na mão. Só que o Gastão Maleiro, na intimidade, ele é perverso e só quem saberia disso seriam o público e eu.

Voltar ao personagem depois do sucesso inicial foi um processo automático?

Nem tanto, porque eu queria expandir mais ainda o complexo enredo que ele teria nessa segunda temporada. Estava curioso para saber mais e, por isso, não queria me sentir confortável com ele.

Como foi lidar com a carga dramática das cenas?

Foram muito tensas, porém tranquilas de filmar. O elenco e a direção são afinados. Nessa última temporada eu fiquei girando 24 vezes sobre um mesmo eixo. Será uma cena importante na narrativa. Aguardem.

Quais os próximos desafios profissionais? Alguma novela a caminho?

Eu agora estou com dois projetos teatrais para este ano e tendo no radar algumas produções que estaremos logo em breve confirmando participação. Mas espero ter muitos mais projetos legais ao longo dos anos.

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