Um diagnóstico fatal. Correr para viver o tempo que resta com o pai. Apressar convivências, acelerar frases de afeto, viver o que há para viver. Foi desta forma que Bruna Miglioranza organizou sua vida prática e amorosa na relação com o pai quando o diagnóstico veio, trágico. Seriam, na melhor das hipóteses, seis meses de vida a partir daquele ponto, em 2017. Escrever um diário ajudou a atriz, apresentadora e dubladora a organizar os sentimentos, impressões e fatos. Ao compartilhar esses escritos com o diretor Amarildo Félix, surgiu a ideia de uma peça, construída com dor, mas leve, com humor, porque seu pai tinha, antes de tudo, esse espírito vibrante. Daí nasceu “Buca - Sobre a Urgência da Vida”, em curta temporada até o dia 30 de abril, em sessões diárias às 20h, no canal do YouTube da Caboclas Produções.
A peça conta a história real de uma filha que ouviu dos médicos que seu pai teria, no máximo, seis meses de vida. A partir desse encontro com a finitude, dá-se início a uma maratona, daquelas bem difíceis de completar. Sua vida muda da noite para o dia e a sua segunda casa torna-se os corredores do hospital, onde conhece outras pessoas na mesma situação que seu pai. A filha-atriz decide compartilhar essa vivência trazendo à cena os relatos de momentos felizes e divertidos ao lado de Buca. Com isso, ela compartilha com o público diversas histórias da convivência, nem sempre amigável, (mas quase sempre divertida) com seu pai e os momentos de dor dessa despedida anunciada, que contrariando os prognósticos, durou um ano e meio.
Buca é o apelido pelo qual o pai da protagonista era conhecido e são três características dele que servem de fio condutor do monólogo: loucura, humor e galanteio. “Meu pai sempre foi muito fã de Raul Seixas e do Mazzaropi. E esses artistas ditavam o modo como ele lidava com o mundo, além de terem marcado minha infância. E eu trouxe isso pra peça, transformando toda aquela convivência em uma dramaturgia cheia de sentimentos pessoais e particulares, mas que ao mesmo tempo eu acho que qualquer espectador vai poder identificar na sua relação com a figura paterna”, conta Bruna.
A atriz inicia o monólogo com uma corrida contra o tempo: do momento da descoberta da doença, transita pelo desespero e vai até a aceitação dos fatos, quando ela conversa com a plateia e explica que essa peça é uma maneira que ela encontrou para manter o seu pai por perto. Bruna registrou tudo: as partes do corpo do seu pai, memórias, amizades feitas no hospital e o seu contato de perto com a morte. Para transpor isso para a peça, Buca usa imagens, vídeos e conversas de áudio com o seu pai, pelo WhatsApp, que são compartilhadas com o espectador.