Uma banda como a Cachorro Grande não pode terminar, precisar estar na ativa e com mais shows pelo país. Foi com esta certeza que mais de 2,5 mil pessoas saíram do Araújo Vianna na noite de sexta-feira, após duas horas do rock mais gaúcho, inglês, sessentista e setentista que o público poderia ouvir. O show em Porto Alegre com 22 canções faz parte das reuniões da banda que começaram para show anual desde 2022, pouco mais de três anos após a parada em 2019. Nesta apresentação, a banda resgatou 26 anos de história, a partir dos 25 de lançamento do disco homônimo “Cachorro Grande”, executado na íntegra, com 13 faixas, algumas que não eram tocadas há mais de uma década, como “Pedro Balão” e “(Os Doces Exóticos De) Charlotte Grapewine”.
A primeira parte do show foi uma catarse com os três membros da formação original parecendo estar no melhor da sua forma musical: Beto Bruno (vocais), Marcelo Gross (guitarra e vocais) e Gabriel Boizinho (bateria e um vocal), com a pegada virtuosa de Mari Kerber (teclados) e a cozinha refinada de Eduardo Barretto (no baixo).
O início do show
A coisa toda começou com “Lunático” e “Sexperienced”. Antes de introduzir cada música, Beto perguntava se os fãs sabiam da sequência e eles sabiam. Se seguiram “Debaixo do Chapéu”, “Lili” e “Pedro Balão”. Uma hora, Beto lembrou daquelas “oito” pessoas que estavam no primeiro show da banda. “Estou vendo três gurias conhecidas ali na frente e tem a Dica, que era menor na época”, dizia apontando e reconhecendo fãs o carismático vocalista. Na sequência veio “Fantasmas” e na sétima, “Cleptomaníaca de Corações”, o convidado da noite, Duda Calvin (Tequila Baby) fez as honras do vocal para o canário Beto descansar. Duda chamou Daniel Azambuja, filho de Boizinho, para auxílio nos vocais. O timbre rasgado de Duda preencheu mais a música da “femme fatale”, que “deixava os garotinhos com um vazio no peito”.
Gross no vocal e virtuosismo
Após “Sintonizado”, foi a vez de Gross assumir vocais em “Um Dia Perfeito”, outro clássico, no qual Mari Kerber assumiu sua veia blueseira e quebrou tudo nos duelos com Gross. Nas quatro músicas finais, destaco duas pelo primor da sonoridade e o virtuosismo dos músicos. Em “Vai T. Q. Dá”, Gross utiliza efeitos e pedaleira para dar um tom meio Hendrix ao solo. Em “(Os Doces Exóticos De) Charlotte Grapewine”, canção que Gross confessou em entrevista que estava louco para voltar a tocar, foi um espaço para Gross dar aquela “sujada” nas distorções da guitarra, enquanto a cozinha segura a la Stones, com um final apoteótico.
O retorno definitivo
A segunda parte do show foi para mostrar sete músicas “confirmadas”, tipo “Hey Amigo”, “Que Loucura”, “A Alegria Voltou” (cantada por Boizinho), “Velha Amiga”, “Sinceramente” e “Você Não Sabe o que Perdeu”, entremeadas por duas canções inéditas, “Harmonia Natural” e “Kerouac"s Blues”. Com estas duas canções, Beto disse que a banda volta definitivamente aos palcos, a melhor notícia da noite, prevendo disco novo com 10 faixas até o fim do ano. Das novas canções, “Harmonia Natural” cativou por ser um rock embalado que podia ter sido feitos nos anos 1970 nos EUA ou na Inglaterra, e “Kerouac"s Blues” passa a mensagem do cara que já “cansou de rolar por aí” e que quer mais da vida, com direito à pegada blues de Mari e Gross. A Cachorro voltou em definitivo. Somos gratos.