A ideia de uma candidatura coletiva ao Nobel da Paz, com mulheres de 150 países, partiu de um grupo de ativistas da Suíça. No Brasil, foram indicadas, em um primeiro momento, 232 nomes. Uma comissão analisou as biografias e chegou às 52 que integraram o projeto – o número foi calculado proporcionalmente à população brasileira. Entre elas há uma gaúcha, a desembargadora aposentada Maria Berenice Dias. “Só podiam ser pessoas que tinham uma luta efetiva, desde uma lavadeira até uma intelectual”, explica a presidente da Associação Mulheres pela Paz e ex-companheira do guerrilheiro Carlos Marighella, Clara Charf, de 85 anos.
Apesar de o Nobel da Paz de 2005 ter sido o egípcio Mohammed ElBaradei, ex-presidente da Agência Internacional de Energia Atômica, o projeto que ganhou o nome de 1000 Mulheres pela Paz gerou frutos positivos. “O movimento se desenvolveu muito mais. Deu maior consciência para valorizar o cotidiano da vida da mulher”, avalia Clara. Uma das iniciativas surgidas a partir da candidatura foi o debate entre homens e mulheres sobre a violência doméstica, que agora chega à Capital gaúcha. O evento será direcionado a lideranças convidadas. Clara considera fundamental a participação de ambos os sexos na discussão sobre o tema. “Não adianta você falar apenas sobre homem. Você tem que falar sobre homem com o homem também”, ressalta.
Militante desde 1945, Clara diz ter presenciado avanços importantes. “Na época em que eu comecei a militar, a mulher apanhava em casa e ninguém dizia nada. Não havia um órgão em que você pudesse comunicar que estava sendo espancada”, observa. Entre as conquistas recentes mais significativas ela cita a eleição de uma mulher para a Presidência da República, a criação da Secretaria Nacional de Políticas para as Mulheres e a implementação da Lei Maria da Penha. Mas, segundo ela, mudanças ainda se fazem necessárias – principalmente com relação ao último item. “A aplicação dessa lei é difícil. Se a mulher apanha, ela tem de denunciar em algum lugar. Esse lugar tem de providenciar a prisão desse homem”, considera a militante.