Uma chuva intensa, que durou pelo menos três horas, alagou a Marquês de Sapucaí durante os primeiros desfiles das escolas de samba do Grupo Especial do Rio de Janeiro. A escola que enfrentou a parte mais intensa do temporal, primeira a entrar na avenida, foi a Unidos do Viradouro, que exaltou as contribuições dos negros à história brasileira, destacando personalidades ilustres como o escritor Machado de Assis. Logo no início, houve grande alvoroço com a presença dos tenistas Gustavo Kuerten e Rafael Nadal, e o desfile foi aberto com um grande baobá, árvore-símbolo da África, em uma comissão de frente que contou também com a atriz Juliana Paes.
O samba-enredo da escola foi inspirado em duas músicas do compositor Luiz Carlos da Vila, um dos grandes homenageados do desfile, que pediu igualdade de oportunidades para negros e brancos em uma carta lida pelo ator Lázaro Ramos: "Esse é o sonho de um Brasil mais justo", dizia um trecho do manifesto, que lembrava homens e mulheres negros de diversas gerações, como Clara Nunes, Nelson Mandela e Joaquim Barbosa.
Sob chuva mais fraca, a segunda escola que entrou na avenida foi a Estação Primeira de Mangueira, que exaltou no enredo as mulheres da comunidade e de todo o Brasil. A escola fez um desfile luxuoso, destacando suas cores verde e rosa e homenageando mulheres como a pintora Tarsila do Amaral, cujo quadro Abaporu ganhou uma versão em escultura no alto de uma das alegorias.
Dona Zica, uma das principais integrantes da velha guarda da escola, foi lembrada em uma das alegorias do desfile, assim como Dona Neuma, representada por uma das filhas. Ao comentar a irmã fantasiada de Neuma, Eli Chininha se emocionou: "É uma coisa que deixa a gente balançada. Nunca imaginei que fossem fazer um enredo de peso como esse, em que exaltassem a minha mãe. É gratificante, por tudo aquilo que ela fez pela escola", disse a mangueirense.
Após o desfile da Mangueira, a chuva diminuiu e a Mocidade Independente de Padre Miguel cruzou a Marquês de Sapucaí com um irreverente enredo sobre as profecias do fim do mundo. "O que você faria se só lhe restasse um dia?", perguntava em um telão o abre-alas da escola. Antes dele, a comissão de frente literalmente pegava fogo para simbolizar a chegada de um meteoro à Terra.
Outro destaque da escola da zona oeste do Rio foi o carro alegórico que trouxe casais - e trios - em camas de motel, representando relações hetero e homossexuais.
Isaac Karabtchevsky, maestro paulistano de 80 anos, foi o homenageado no desfile da Vila Isabel. Com a musa Sabrina Sato sendo a mais comentada do desfile, a escola levou para a avenida a música erudita e 3,7 mil componentes. Karabtchevsky apareceu no dourado carro abre-alas e, logo em seguida, vários setores lembraram os instrumentos que compõem uma orquestra sinfônica.
Com o enredo, "O maestro brasileiro na terra de Noel... Tem partitura azul e branca da nossa Vila Isabel", a comissão de frente representava notas musicais, que ficavam pulando em uma cama elástica. Todos os carros da escola representavam compositores da música erudita. Carlos Gomes, Heitor Villa-Lobos, Antonio Vivaldi, Giachino Rossini, Tchaikovsky, Ígor Stravinski e Giuseppe Verdi tiveram suas obras representadas nos sete carros alegóricos da escola.
A Salgueiro iniciou o desfile por volta das 4h da manhã desta segunda-feira e levou a avenida o enredo “Do fundo do quintal, saberes e sabores da Sapucaí”. Os carnavalescos Márcia e Renato Lage contaram a história da culinária mineira na Sapucaí. Depois de perder o campeonato em 2014 por um décimo, a escola entrou motivada e nem mesmo a chuva, que começou a cair na metade do desfile, acabou com a motivação dos 3.900 componentes, dividido em 34 alas e seis alegorias.
A “Furiosa”, como é conhecida a bateria da Salgueiro, aproveitou a expressão “cozinha” da escola e batucou em panelas. Viviane Araújo, que desfila há oito anos como rainha da bateria, incendiou a Sapucaí vestida de "Chama Acesa". O estilo high-tech, consagrado na Mocidade por Renato Lage nos anos 90, foi resgatado. A comissão de frente usou um cobertor com centenas de luzes de LED que fazia projeções. Outras alegorias tinham luzes estroboscópicas, efeitos holográficos, neons e espelhos.
Como é tradição da escola, diversos famosos participaram do desfile. Além de Viviane Araújo, pelo menos, cinco atores da nova Império desfilaram na Salgueiro. A escola levou um carro com um bule gigante que soltava aroma de café pela avenida. A cachaça, o torresmo e os temperos da culinária mineira também foram representados pelos carnavalescos.
Para conquistar o título inédito do principal grupo do Carnaval do Rio de Janeiro, a Grande Rio apostou todas as fichas nas cartas do baralho. Com o enredo "A Grande Rio é do baralho!", do carnavalesco Fábio Ricardo, misturou a história do baralho com as cartas do tarô de Marselha e do baralho cigano de Madame Lenormand, cartomante que previu a ascensão e queda de Napoleão Bonaparte.
Com o tema “Alice no País das Maravilhas”, a comissão de frente deu um espetáculo trocando de roupas e momentos de ilusionismo, quando os personagens tinham os troncos cortados e as pernas seguiam caminhando, empurrando mesas. A temática seguiu no carro abre-alas. Para fechar o desfile, a escola exibiu um carro com um Coringa de 20 metros de comprimento com a velha guarda.
A Grande Rio entrou na Sapucaí com 3,1 mil componentes em 29 alas, carros e um tripé. Suzana Vieira, de 72 anos, foi a rainha de bateria da escola de samba, que teve ainda David Brazil como “rei”.
Desfile das primeiras escolas do grupo especial na Sapucaí teve chuva e fogo na avenida
Mocidade Independente de Padre Miguel cruzou a avenida com um enredo sobre as profecias do fim do mundo