Carnaval

Portela, Salgueiro e Beija-Flor empolgam os foliões na Sapucaí

Com desfiles de grande impacto, as três escolas despontam como favoritas no carnaval, ao lado da Mangueira

União da Ilha do Governador
União da Ilha do Governador Foto : Mauro Pimentel / AFP / CP
* Portela, Salgueiro, União da ilha, Beija-Flor - fotos Mauro Pimentel / AFP
* Unidos da Tijuca e Imperatriz Leopoldinense - fotos Carl de Souza / AFP

 



Cada uma a sua maneira, Portela, Salgueiro e Beija-Flor confirmaram que segunda-feira é o dia mais forte na Marquês de Sapucaí. As três escolas fizeram desfiles de grande impacto discursivo e visual, assim como a Mangueira apresentara no domingo. As quatro escolas, que juntas colecionam 63 títulos, devem estar presentes no sábado das campeãs, quando voltam as seis mais bem pontuadas pelos jurados.

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Portela

O encontro entre a Portela - a mais longeva escola do Grupo Especial (fundada em 1923) e atual campeã (junto com a Mocidade) - e Rosa Magalhães, a mais premiada (tem sete troféus) e mais experiente carnavalesca em atividade, resultou em um desfile impecável, finalizado aos gritos de "bicampeã" vindos das arquibancadas.



Com apuro estético, o perfeccionismo e o cuidado com os detalhes da "professora", que tem mais de 40 carnavais no currículo, aliaram-se à garra e tradição da comunidade portelense, que exortou o público a bradar seu refrão: "Lá vem Portela/ é melhor se segurar". O desfile apresentou a história dos judeus residentes na Recife do século 17 que viajaram à América do Norte e ajudaram a fundar a futura Nova Iorque, e rendeu momentos memoráveis. Foi encerrado com uma mensagem de tolerância entre os povos e aceitação de refugiados.

Rosa, ela própria vestida como tal, criou carros alegóricos imponentes e de fácil leitura pela plateia. A começar pelo rico abre-alas, em branco, azul e prata, em que destaques abriam e fechavam os braços num gesto simbolizando a liberdade, com a águia portelense, "a majestade dos céus", pairando acima de todos, única. Os baluartes Monarco e Tia Surica eram as principais figuras do carro.

Salgueiro

Sempre uma potência, o Salgueiro tingiu a avenida de vermelho em um desfile emocionante e coeso, fortemente marcado por sua ligação com a herança africana na cultura brasileira. A escola saudou as "senhoras do ventre do mundo", divindades que, segundo as crenças apresentadas, são matriarcas negras que deram origem a toda a humanidade. Passou embalada por um samba que pegou como poucos na Sapucaí e definiu: Salgueiro é sinônimo de negritude.



O carnavalesco Alex de Souza fez bom uso do vermelho e branco salgueirenses, um exemplo disso, o abre-alas, um Éden africano inteiramente rubro e povoado por gestantes negras. O carro estava avariado: as esculturas mais altas, de girafas, quase foram decapitadas pelo viaduto que fica na área de concentração, na Avenida Presidente Vargas, e entraram remendadas. O desfile teve ainda muito dourado e esculturas africanas. Deusas (Ísis, Neith, Hator, Osíris) vieram representadas em alas empolgadas e cheias de brio.

Beija-Flor

Completando 70 anos neste 2018, a Beija-Flor, que a cada ano se supera nos quesitos luxo e imponência, fez um desfile atípico. Crítica das mazelas brasileiras, a apresentação em alguns momentos remeteu o público que acompanha carnaval ao histórico "Ratos e urubus, larguem minha fantasia" (1989), do carnavalesco Joãosinho Trinta (1933-2011) - este tratava de luxo, lixo, pobreza e festa e até hoje é um dos mais lembrados da história do sambódromo.



A escola fez um paralelo entre o Frankenstein, de Mary Shelley, personagem que está completando 200 anos, e os "monstros nacionais": a corrupção, as agressões à natureza, o uso indevido de impostos, as disparidades sociais. A teatralização excessiva cansou. O carro da favela tinha traficantes "armados", briga de casal e até uma mãe velando um filho policial morto. A chamada "farra dos guardanapos", episódio do esquema criminoso do ex-governador do Rio Sérgio Cabral (MDB), foi encenada.

Mesmo trocando seu tradicional luxo por fantasias que em muitos casos representavam o lixo, a escola é candidata ao título. Em outro desfile no qual usou essa fórmula, em 1989, ainda sob a liderança do carnavalesco Joãosinho Trinta, a escola foi aclamada pelo público e conquistou o vice-campeonato. Desta vez, pelo menos a aclamação já está garantida: ao final do desfile, a escola foi tão ou mais aplaudida que Portela e Salgueiro, as duas outras melhores agremiações da segunda noite de desfiles.

No geral, a plateia comprou o discurso de indignação da escola de Nilópolis, na Baixada Fluminense, que encerrou sua passagem com a simulação de uma passeata popular, seguida pelo público saído de frisas e camarotes.

Imperatriz

A Imperatriz cantou os 200 anos do Museu Nacional, cujo prédio, na Quinta da Boa Vista, serviu de moradia à família imperial portuguesa no século 19. Os diferentes setores da instituição, que se dedica à antropologia, à zoologia e à arqueologia foram simbolizados por fantasias e carros alegóricos bem acabados. A Quinta, área de lazer dos cariocas, foi lembrada por seus piqueniques.



União da Ilha

Antes, a União da Ilha mergulhou no caldeirão da culinária brasileira, com suas influências europeias, indígenas e africanas. A mistura rendeu um desfile cheio de alegorias de compreensão imediata, como as alas simbolizando o milho, o abacaxi, o caju, peixes, o pão de queijo, o açaí, a feijoada. Foi uma apresentação com o DNA da escola, alegre e colorida.

Unidos da Tijuca

A noite fora aberta pelo tributo da Unidos da Tijuca a Miguel Falabella, em seus talentos múltiplos, no teatro, cinema e televisão, como ator, diretor e autor. A agremiação deixou para trás "as lágrimas de outrora" cantadas em seu animado samba - uma alusão ao carnaval do ano passado, quando um carro da escola desabou na avenida, ferindo doze pessoas -, com um desfile animado e calcado em referências às peças, novelas, humorísticos e filmes em que Falabella se envolveu em mais de 30 anos de trajetória artística.

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