Carnaval

Vila Isabel abre segunda noite de carnaval no Rio

Desfile da escola foi sobre Miguel Arraes, político que foi três vezes governador de Pernambuco

Desfile da escola foi sobre Miguel Arraes, político que foi três vezes governador de Pernambuco
Desfile da escola foi sobre Miguel Arraes, político que foi três vezes governador de Pernambuco Foto : Tomaz Silva / Agência Brasil / CP
O segundo dia do Grupo Especial das escolas de samba do Rio de Janeiro foi aberto nesta segunda-feira e, como ocorreu no domingo, com o Hino Nacional tocado pela Banda Sinfônica da Guarda Municipal do Rio. Os casais de mestre-sala e porta-bandeira de todas as escolas do grupo foram os primeiros a atravessarem a avenida. Eles desfilaram em uma alegoria com a tocha olímpica e as bandeiras do município e do estado do Rio , além da bandeira olímpica. O desfile foi ao som de "Cidade Maravilhosa".

A Vila Isabel abriu a segunda noite de desfiles na Sapucaí contando a vida de Miguel Arraes, político cearense três vezes governador de Pernambuco. A escola retomou uma tradição de enredos políticos, com forte cunho social.

Logo no começo da apresentação, a comissão de frente de Jaime Arôxa trouxe um cortejo fúnebre nordestino, com corpos carregados em redes, e a morte pairando sobre a avenida - um belo efeito da patinadora Telma Delelis, que não parecia patinar, mas deslizar. "Não é a morte física. É a morte pela falta da cultura, da educação. E combina com o carnaval, porque a vida retoma com a chegada da cultura", explicou Arôxa.

Para homenagear o centenário de Arraes, as mazelas sociais que ele enfrentou foram lembradas na avenida: a seca, as moradias sobre palafitas, as dificuldades dos cortadores de cana, o analfabetismo. Esses temas vieram ao lado de ícones culturais de Pernambuco, como o frevo e o bloco carnavalesco Galo da Madrugada, que mereceu um enorme carro ao fim do desfile.

"É obrigação da escola de samba trazer uma mensagem, apresentar uma proposta, fazer a crítica social", afirmou Martinho da Vila, autor do enredo e um dos compositores do samba, ao lado da filha Mart'nália, de Arlindo Cruz , André Diniz e Leonel. Martinho encarnava um cangaceiro. O sambista se emocionou do começo ao fim da passagem da escola, da qual é presidente de honra e símbolo maior.

Os filhos do ex-governador, a ministra do Tribunal de Contas da União Ana Arraes e o cineasta Guel Arraes, e o neto Antonio Campos, filho de Ana, desfilaram à frente da Vila. "Esse é o enredo sobre um político que teve compromisso com o povo, que não desistiu nunca, jamais. É preciso lutar por um Brasil democrático. Toda a família está muito satisfeita", afirmou Ana.

Se o começo do desfile teve tons pálidos, aludindo à seca, à caatinga e ao mangue, a escola foi ganhando cores ao longo da apresentação, quando entraram os programas de educação criados por Arraes e as expressões culturais nordestinas, como o cordel, o xaxado e os repentistas. O carro que representou o Galo da Madrugada, todo colorido, soltava bombas de serpentina e ganhou muitos aplausos do público. Arraes só foi representado ao fim, num boneco de Olinda, ladeado por integrantes vestidos como foliões do Galo da Madrugada.

A bateria veio vestida de Leão do Norte, figura presente na bandeira pernambucana, um tributo à força do povo. Sabrina Sato era a guerreira que defendia esses leões. "Eu represento a coragem e a ousadia da mulher pernambucana. Essa mulher forte. É um enredo lindo, que faz essa união do frevo com o samba. "A Vila é uma escola tradicional que sabe fazer essas misturas muito bem", contou a apresentadora, que desfilou com grandes curativos nos ombros. Ela ficou machucada no desfile da Gaviões da Fiel, em São Paulo.

O tom político já havia sido sentido na avenida no domingo, durante o desfile da Mocidade. A escola falou de Dom Quixote de La Mancha e ousou ao comparar os moinhos enfrentados pelo personagem de Miguel de Cervantes aos percalços da vida do brasileiro; entre eles, a corrupção. A comissão de frente fazia alusão ao escândalo na Petrobrás.

A São Clemente, a terceira a desfilar, também deve trazer crítica política. A escola vai replicar, ao fim de seu desfile, os panelaços que tomaram o País no ano passado contra o PT e a presidente Dilma Rousseff, com o carro O Manifesto do Palhaço. Seu enredo é "Mais de mil palhaços no salão." A autora é a carnavalesca Rosa Magalhães.

Além do protesto - a última ala deve se unir à bateria, batendo em panelas -, a São Clemente vai lembrar os caras-pintadas, marcantes no processo de impeachment do então presidente Fernando Collor de Mello, em 1992. Caras-pintadas e palhaços estarão juntos num protesto encenado na avenida.



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