O sobrenome não o distancia de um dos maiores artistas brasileiros: Carlinhos Brown. E o nome, apesar de ser mais usual, também tem uma origem triunfante: Chico Buarque de Hollanda. É com essa ancestralidade que Chico Brown chega a Porto Alegre, nesta quinta-feira, 29, às 21h, no Grezz (rua Almirante Barroso, 328), trazendo uma fusão contemporânea da música brasileira, do pop à eletrônica. A apresentação integra o Porto Verão Alegre e os ingressos estão disponíveis no site do evento. Em conversa, o artista detalha o repertório para a capital gaúcha e como lida com as influências.
Confira o bate-papo na íntegra:
Tu te consideras da “nova MPB”?
Não é do meu feitio renegar à MPB ou qualquer outro gênero musical… Embora seja contemporâneo e me sinta próximo da dita “nova MPB” enquanto movimento, talvez almeje artisticamente a abrangência e linguagem estética e poética da música brasileira tradicional, seja no âmbito da música pop em todas as suas roupagens ou da música popular, do povo, do Rio e do nordeste como um todo.
Como multi-instrumentista, tens um instrumento preferido ou que sejas mais próximo?
Levo minha guitarra ou violão como companhia pela estrada afora. Me introduzi ao estudo e hábito da música pelas cordas, mas o princípio da minha autodescoberta na música, ainda criança, e meu bálsamo para muitas composições, é o piano, que considero meu professor. No show de Porto Alegre terei a alegria excepcional de explorar ambos os universos.
Qual a diferença entre tocar as músicas autorais e as releituras?
Sinto que a missão de interpretar as personas e eu-líricos de cada canção me desprende um pouco da perspectiva do compositor, na maioria dos casos. Tento incorporar o momento e abstrair ao máximo essa diferença, por mais que algumas letras soem mais pessoais ou ecoem mais em alguns contextos em particular. A ideia é que a noção de autoria seja diluída e compartilhada com o público, é nossa parceria enquanto durar a canção!
Os arranjos são sempre criados por ti? E as letras?
Na grande maioria dos casos sim. Sou acumulador de composições, acabadas ou não, e bem meticuloso com os arranjos e detalhes quando me cabe a missão de cantá-las e vesti-las. Mas tenho parceiros e mestres em algumas das letras que me aliviam desse fardo e que procuro os deixar à vontade para seus arranjos fluírem, como Marisa Monte, Chico Buarque etc… No show me permito a ousadia de dar a minha cara, sem abrir mão da essência de cada música.
Quantos aos shows, o “setlist” costuma ser fixo ou varia de acordo com o local?
Enquanto ainda não lancei o disco, me dou o luxo de especificar o repertório perante o contexto, coisa que depois vai ficando mais difícil conforme dividimos canções inéditas com o público e automatizamos o show na estrada… Mas estrear em Porto Alegre me permite aproveitar para realizar o sonho de explorar esse elo entre a psicodelia do cancioneiro gaúcho e minhas referências do resto do Brasil e do mundo, por exemplo. É especial como tem que ser!
Já tem data de estreia para o disco autoral?
Ainda não. Corro para terminar ainda no primeiro semestre deste ano.
Como tem sido o processo de criação?
A criação é infinita e cotidiana. É sempre um desafio conciliá-la aos trabalhos e ‘gigs’ do dia a dia. Sinto que o verdadeiro desafio está em materializar composições que vim amadurecendo ao longo de toda uma vida, abrir caminho para novos horizontes e equilibrar todas as fases da vida de modo homogêneo e atemporal. E sempre com alguma nova melodia para lapidar ou alguma letra antiga procurando novos versos e palavras pelo caminho, com as dores e as delícias de não deixar nada pra trás.”
É quase impossível não falar sobre referências da música que estão na família ou próximas (como Marisa Monte). É possível ‘isolar’ influências para criar uma música do zero?
Com certeza! Cresci aprendendo com eles todos, mas minha iniciação passou muito por experimentalismos e gêneros músicas quase antagônicos a aquilo que temos como lugar comum. Bebi muito da fonte do rock n’ roll, do jazz, clássico… o grande barato é misturar e contemplar tudo isso com autenticidade o suficiente pra soar universal e familiar”
E como lidar com as comparações, principalmente com o pai (Carlinhos Brown)?
É natural, mas sinto que ao longo da caminhada a distinção fica mais evidente, com tantas direções e possibilidades ao longo do florescer da obra. Sempre haverá um elemento saudavelmente indissociável do meu parentesco, que sabe de onde veio e onde quer chegar.
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*Supervisão Luiz G. Lopes