“Nós acabamos criando uma amizade com o pessoal do cinema. É uma profunda tristeza o cinema fechar agora. Há mais de dez anos que viemos aqui e pesa muito para nós e para a vida de diversas pessoas em que o cinema participou”, lamentou o vendedor Leone Jairo Alves Flores, 23 anos. O amigo de Flores, Gilberto Soares, de 27 anos, também se entristeceu com o fechamento de um espaço que já era considerado uma casa para o grupo. “Existem outros cinemas em Porto Alegre, mas nós viemos direto aqui. Não é só pelo ambiente, mas pelo convívio, o tratamento que a gente tem como se fôssemos da família. Cinema tem vários, mas como este, só tem aqui. Para nós, vai ser bem difícil. Acabar com estas coisas antigas, é bem triste.”
Outro frequentador, Vinicius Soares, de 32 anos, relembrou das idas ao cinema na adolescência, uma herança passada pela mãe que era frequentadora do local. “A gente se sente em casa e temos um carinho pelas pessoas. É um misto de revolta e tristeza a maneira e os motivos pelos quais vai fechar. O cinema de shopping é frio e não é a mesma coisa. Cinema que nem este daqui, não vai existir outro.”
Homenagem
O sócio-administrativo do Cine Victória, Luiz Carlos Maurente, não segurava as lágrimas toda vez que recordava da sua trajetória naquele ponto da avenida Borges de Medeiros, onde estava prestes a fechar as grades pela última vez. “A ficha vai cair só a partir de amanhã quando chegar o horário das sessões e as salas vazias. Ficamos tristes pelos dias que seguirão sem fazer a atividade que fazemos há 12 anos. Fico emocionado com o carinho das pessoas e a referência que o Cine Victória tem pela cidade”, disse. Conforme Maurente, que contou com a esposa para gerir o cinema, o amor pelo trabalho era tanto que o filho de um ano e dez meses foi batizado de Victor. Uma homenagem direta a quem também fazia parte da família.
A despedida começou a tomar forma do Cine Victória em agosto passado, quando o cinema foi notificado de que o proprietário do imóvel, o grupo Edifícios Reunidos, não tinha interesse na continuidade da locação nas mesmas bases contratuais. Houve uma proposta com novos valores, inviáveis para os locatários. Por isso não se chegou a um acordo. Desta forma, o grupo L. C. Maurente, que assumiu o local em 2015, se despediu. “Nesta quarta começamos o desmonte dos equipamentos de som, que são financiados pelo BNDES e que, infelizmente, serão retomados pelo banco, pois eu não tenho como ficar com eles embaixo do braço e pagando uma prestação alta. Se um dia voltar a trabalhar com cinema, vou ter que começar do zero”, ressaltou Maurente, que já atuava na administração de duas salas de cinema na cidade de Nova Petrópolis e assumiu o Cine Victória em 2015 a pedido do proprietário do imóvel, Edifício Reunidos, quando o espaço estava fechado há dez meses na época. “Para eles, era fundamental ter o cinema. Hoje, o cinema está totalmente descartado por eles”, acrescentou.
Público se afasta
Maurente acreditava que, com a possibilidade de fechamento do Cine Victória, o cinema ganharia um aumento do público, que poderia estar interessado em prestigiar os últimos suspiros do local. O movimento, no entanto, foi no sentido contrário. Ele relatou que a média de público diminuiu para mais de 50% do habitual. “No momento em que nós mais precisamos, o público se afastou. Os que tinham um carinho especial, apareciam, mas as pessoas foram para outros lugares”, disse. “Nós estávamos trabalhando no vermelho há três meses. Só que chegou o momento que não deu mais. Não foi possível suportar um aumento tão significativo do aluguel das salas que foi solicitado por eles (Edifício Reunidos). A gente lutou e fez o possível,” acrescentou.
Com programação de filmes já definida antes mesmo da confirmação do fechamento do Cine Victória, o terror “Halloween”, de David Gordon Green, combinou com a mistura de sentimentos da noite onde habitavam a nostalgia e suspense. “Não foi nada planejado colocar "Halloween" para o mantermos o momento de terror. A gente não pensou nisso. Foi pura coincidência”, garantiu.
Sem planos para o futuro
Para o futuro, Maurente planeja tirar o resto do ano para descansar após tanta pressão e luta em defesa do Cine Victória. “A família já tem uma vasta experiência na área. Talvez uma grande rede possa nos chamar ou podemos abrir um outro cinema por conta própria, mas no momento não tenho nenhuma proposta. Em Porto Alegre e na Grande Porto Alegre, nós não conseguimos espaço. Eu gosto de trabalhar no cinema, estou nisso há mais de 12 anos e vai ser difícil arrancar isso aqui de dentro”, explicou.
No filme “Halloween”, três gerações de mulheres de uma mesma família lutavam contra o famoso e temível assassino Mike Myers, que havia escapado da prisão. Se na ficção, a família de Laurie Strode (Jamie Lee Curtis) se uniu para sobreviver, na realidade, mãe e filhos se reuniram para acompanhar o fim de uma marco cultural porto-alegrense.
Segundo a assessora jurídica, Joana Nyland, de 45 anos, o Cine Victória faz parte tanto da história de Porto Alegre quanto da sua família, onde costumava ir acompanhada da mãe. “Vai ficar complicado até para as pessoas que tinham acesso ao Centro, que era mais prático. Ele podia não ter muitos recursos, mas era algo que nos remetia ao passado. Não podia perder este momento, então trouxe os meus filhos, mesmo que no último dia, para assistir o filme”, declarou.
Joana também lamenta o fato de ter demorado para levar os filhos Christopher, de 21 anos, e Giovanna, de 14, para conhecer o lugar que frequentava desde da sua juventude. “O que vai ser do gaúcho aqui no Centro? E os funcionários? É lamentável eles reformarem tudo para nada, no final das contas. Meu avô também vinha aqui, então é lamentável e triste. Tem muita história e eu vou guardar o último ingresso e a última sessão no coração”, disse. Após o final de “Halloween”, Joana não se intimidou em puxar palmas para parabenizar o último dia do Cine Victória.
O público não lotou a sala da última sessão, mas casais, amigos e famílias estiveram presentes e fizeram questão de registrar a despedida com fotos e selfies. Algumas pessoas participaram da sessão com lágrimas querendo escapar, a exemplo de Maurente. Ele não resistiu e sentou-se em uma das poltronas para uma conversa com os frequentadores que permaneceram na sala após o término do filme. O sentimento que fica é de que, apesar da perda física, o Cine Victória viverá por muito tempo no coração dos seus fiéis cinéfilos.