Arte & Agenda

Clube de leitura porto-alegrense combate a desigualdade de gênero nas estantes

Há dez anos, o Leia Mulheres Porto Alegre busca reconfigurar hábitos de leitura permeados pelo machismo ao ler e debater obras escritas por mulheres

No dia 2 de agosto, o Leia Mulheres Porto Alegre celebra dez anos com Sarau Comemorativo na Livraria Baleia, às 15h
No dia 2 de agosto, o Leia Mulheres Porto Alegre celebra dez anos com Sarau Comemorativo na Livraria Baleia, às 15h Foto : Clarissa Xavier / Divulgação / CP

Em meados da década de 2010, os movimentos feministas fervilhavam nas redes sociais e, por meio delas, colocavam em evidência a desigualdade de gênero silenciosamente enraizada na sociedade. É nesse contexto em que surge o #readwomen2014, projeto impulsionado pela escritora inglesa Joanna Walsh que instigava o consumo de obras literárias de mulheres. No Brasil, a iniciativa assumiu o formato de clube de leitura em 2015, quando, em São Paulo, surgiu o Leia Mulheres. Naquele mesmo ano, no momento em que Clarissa Xavier deparou-se com a iniciativa, seu primeiro instinto foi olhar para a própria estante: nas lombadas da maioria de seus livros, estavam nomes de homens. Assim, ela entrou em contato com as idealizadoras do grupo para trazê-lo ao solo gaúcho, e, em 5 de agosto de 2015, na Casa de Cultura Mario Quintana, o Leia Mulheres Porto Alegre teve seu primeiro encontro.

Desde então, o coletivo se reúne no primeiro sábado de cada mês exclusivamente para debater obras escritas por mulheres, em combate a um mercado editorial que ainda é perpassado por questões sexistas. “O mercado editorial é um mercado que espelha a nossa sociedade, e, infelizmente, ainda vivemos em uma sociedade em que há muitos pontos de machismo”, afirma Clarissa, de 47 anos, fundadora e principal mediadora do grupo. Com obras que passeiam entre gêneros literários, nacionalidades e etnias, o Leia Mulheres se propõe a mostrar à capital a potência das vozes femininas, que escrevem com maestria narrativas que extrapolam o estereótipo de “água com açúcar”.

Os encontros do grupo são abertos ao público e já tiveram como casa diferentes espaços de Porto Alegre, mas, há cerca de um ano, estão concentrados na Livraria Baleia (r. dos Andradas, 351 - Centro Histórico). A escolha dos livros acontece durante as reuniões, de forma coletiva e com dois meses de antecedência. A participação não tem restrições, mas é relativamente baixa em número de homens, que, quando vão, com frequência são levados por mulheres. Clarissa nota uma falta de vontade do público masculino em participar desse tipo de encontro, o que indica que ler mulheres é, ainda, um interesse majoritariamente das próprias mulheres.

A pluralidade no discurso

Segundo pesquisa realizada pela doutora em Teoria Literária Regina Dalcastagnè, as mulheres representavam 29,4% da autoria de obras brasileiras publicadas entre 2005 e 2014. No decorrer dos dez anos de existência do Leia Mulheres, elas vêm ganhando espaço na publicação e em cargos de liderança no mercado editorial, mas em um processo segue como resultado da luta de movimentos que prezam pela igualdade de gênero. O percurso trilhado por mulheres na literatura é acompanhado não apenas pela invisibilização histórica, mas por uma busca por reconhecimento que segue atual. “Eu sinto que no pensamento comum das pessoas, quando elas pensam em um escritor, elas pensam em um homem”, menciona Clarissa.

É nesse sentido que o Leia Mulheres atua: em abrir os olhos dos leitores para a desigualdade de gênero escondida na estante e ampliar uma visão da literatura que tende a ser transpassada por estereótipos. Ao incentivar a leitura de narrativas escritas por mulheres, o grupo parte de um discurso que, por si só, traz outro ângulo ao debate. Maurem Kayna Lima Alves, 53, acompanha o grupo desde o primeiro encontro e comenta sobre o afastamento do público em relação a essas obras: “A gente está pensando em perspectivas diferentes de homens e mulheres ao escrever qualquer obra literária. Se eu passo a minha vida inteira lendo, literalmente, só a perspectiva de uma parte da sociedade, seguramente algo falta”.

Reconfiguração de hábitos

Ler mais mulheres é apenas uma das tantas mudanças que participar do Leia Mulheres desperta em seus membros. A diversidade das obras lidas para os encontros apresenta novas autoras - que, muitas vezes, despontam entre as preferidas dos participantes - , rompe com preconceitos a gêneros literários considerados “inferiores” e reafirma a importância tanto de clássicos quanto contemporâneos.

Adriana Maria Vargas Heineck, de 50 anos, participa do grupo desde sua segunda reunião e o têm como compromisso fixo na agenda. A partir do Leia Mulheres, seus hábitos foram modificados para além da literatura - Adriana agora lê mais mulheres e participa de outros clubes de leitura, mas também tem uma visão de mundo diferente. Natural de uma cidade do interior, a agente penitenciária aposentada pôde, por meio do grupo, dar curso a uma desconstrução que iniciou com sua vinda a Porto Alegre.

“Dentro das leituras de mulheres, eu comecei a participar de mais atividades envolvendo o pensamento ao redor do que é ser mulher hoje. Não sou muito engajada, não participo ativamente de nenhum movimento, mas a transformação é em mim, na maneira como eu olho ao redor.”

Uma década lendo mulheres

Há dez anos, membros do Leia Mulheres Porto Alegre se atentam à capa dos livros não para julgá-los, mas para perceber sob qual perspectiva foram escritos. Ler mulheres tem transformado a forma de ver a literatura de pessoas como Clarissa, Maurem e Adriana e pode transformar muitas mais, apresentando-as a autoras e narrativas que conquistem o coração e façam refletir.

“Meu sonho é que um dia o Leia Mulheres se transforme em Leia, que a questão da representatividade das escritoras mulheres no mercado não seja mais um problema e, então, haja um equilíbrio entre as obras publicadas por homens e mulheres”, encerra a fundadora do grupo.

No primeiro sábado de agosto, dia 2, às 15h, o Leia Mulheres se reúne na Livraria Baleia para um Sarau Comemorativo de sua primeira década e convida o público a trazer consigo palavras de uma mulher - poema ou trecho - para compartilhar. Mais informações no Instagram do grupo.

  • Sob supervisão de Luiz G. Lopes

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