“Uma ideia na cabeça e uma câmera na mão”. A frase de Gláuber Rocha, que virou lema do Cinema Novo nos anos 1960 no Brasil, quem diria, virou realidade também para uma comédia norte-americana que teve lançamento mundial em Porto Alegre no final de semana, dentro da programação do Fantaspoa. Com uma pequena diferença: em vez da câmera, o que o diretor, ator, produtor e tudo mais que fosse preciso Will Sterling tinha em mãos era um celular. E foi com ele que fez “Um Filme de Celular”, produção que tem sua última exibição no festival nesta terça-feira, na Cinemateca Capitólio.
A produção reproduz na tela o que em grande parte foi o cotidiano do próprio Sterling. Na trama, um ator com tão pouco dinheiro a ponto de morar dentro de um carro no estacionamento de uma academia não consegue emplacar nenhum dos seus projetos. Inspirado pela palestra de um astro já consagrado, resolve então ele mesmo escrever e fazer um filme todo no celular.
O mote da história é o suficiente para que “Um Filme de Celular” mergulhe em um sem fim de camadas de metalinguagem. Afinal de contas, é um ator fazendo um filme num celular sobre um ator que faz um filme no celular. Mas afinal, o quanto há de Sterling no protagonista? “O suficiente para que possa parecer verdadeiro. Mas espero que as parte não tão legais não sejam como eu”, brinca ele, que prossegue: “Queria criar uma pessoa que o público possa, ao mesmo tempo, se sentir incomodado, mas com espaço para ele crescer e mudar essa percepção”.
Em termos técnicos, o diretor revela que utilizou um iPhone 15 e que os recursos, como a história de seu personagem evidencia ao longo de quase 1h20min de filme, eram os mais escassos possíveis. Mas não a ponto de ter que morar dentro de um carro num estacionamento de academia. Ainda assim, entre os seus próximos projetos está outro filme totalmente produzido num celular. “Mas neste próximo, que deve ser uma comédia de humor ácido, vou estar apenas atrás das câmeras”, revela.
A sessão de sábado passado na Cinemateca Capitólio foi também a estreia mundial de “Um Filme de Celular”, que só havia sido exibido até então para as pessoas envolvidas no projeto. Por se tratar de uma comédia, Sterling não nega a tensão dos primeiros minutos, sem saber se o público acharia graça da história. “É um público totalmente novo, em outro país. Mas eu queria saber se as pessoas iam rir, quando iam rir. É curioso ver como o humor se traduz entre países. Estava nervoso no começo achando que odiariam tudo. Mas no final, deu tudo certo”.
"Um Filme de Celular” tem nova e última exibição na programação do Fantaspoa nesta terça-feira, na Cinemateca Capitólio, às 14h45min.