"Galileu Galilei", de Bertolt Brecht, na interpretação de Denise Fraga, confirma uma vivência do ator e diretor Emílio di Biasi, artista fundamental do teatro brasileiro. Entrevistado pela reportagem, disse qual espetáculo teatral mais o fez pensar: "Arturo Ui, de Brecht, no Berliner Ensemble, nos anos 60. Compreendi a eficácia do teatro com relações às ideias através da diversão".
É difícil esta travessia mencionada por Emílio que Denise faz, sob a direção de Cibele Forjaz, depois do sucesso em "A Alma Boa de Setsuan", do mesmo Brecht. O desafio oferecido pelo dramaturgo é o de se captar com graça a seriedade de seus subtextos e metáforas. Brecht (1898- 1956) manejava o alemão culto e o popular, a citação erudita e a fala dialetal dos cabarés e ruas da Alemanha entre duas guerras mundiais.
Em "Galileu", apropria-se da história real do cientista italiano que alargou o conhecimento da astronomia para discutir, com astúcia e ceticismo, a liberdade do pensamento, ou melhor, todas as liberdades, diante dos poderes excessivos, do Estado controlador e demais forças que conduzem ao autoritarismo.
Galileu tornou-se uma celebridade científica dada a particularidade do seu caso. Foi o pesquisador que comprovou a teoria do polonês Copérnico segundo a qual a Terra gira em torno do Sol, e não o contrário. Na atualidade, nada mais espanta quando, seguidamente, se encontra algo novo, ou incomensuravelmente velho, na imensidão do cosmos.
O mais recente é o planeta descoberto por uma equipe da USP, em parceria com colegas dos EUA, da Austrália e Alemanha. É semelhante a Júpiter e está na órbita de uma estrela parecida com o Sol. Dias atrás, Plutão foi retratado em detalhes por uma sonda espacial. Mas Galileu (1564-1642) proclamou sua tese quando a Igreja Católica tinha poderes de fazer reis e guerras, decretar a morte de quem discordasse dos seus dogmas, um deles ser a Terra o centro do universo por vontade do Criador. A inquisição é bastante conhecida. Durou séculos e paralisou de medo o Ocidente.
Brasileiros sofreram em suas malhas descritas, dentre muitos levantamentos, em "História das Inquisições", do historiador português Francisco Bethencourt. Brecht valeu-se de Galileu para ressaltar que "a verdade é filha do tempo, e não da autoridade". Assertiva de amplas implicações intelectuais, políticas ou cotidianas quanto ao que se deve - ou não - ceder, e qual o significado moral de um recuo. O cientista era autossuficiente nos relacionamentos com o poder e se arriscou a pensar diferente em um período sombrio. Foi preso e teve medo da dor física nas torturas ou na fogueira da Inquisição.
O astrônomo matemático não se pretendia herói, apenas estudar e viver bem ao lado da filha. Tinha um lado esperto e incoerente que o torna mais humano, próximo de nós, simpático. É nessa faixa entre o perigo e o riso grotesco que Brecht se insere. Ele mesmo tinha seu lado Galileu. O escritor atento à exploração do homem pelo homem, não quis ver ou denunciar abertamente o stalinismo que o cercava na Alemanha Oriental pós-guerra. Fica a obra e a dúvida se o grande autor teatral seria mais corajoso, ou conivente, do que Galileu.
Seu humor tem nuances e manhas verbais. É mesmo desafiador conciliar seriedade e diversão. A diretora Cibele Forjaz acerta na figura de Galileu com Denise Fraga, atriz excepcional que não se apoia só no carisma e na facilidade para a comédia. Na Capital, a encenação poderá ser conferida dentro da programação do Porto Alegre em Cena, que tem Galileu Galilei como um de seus destaques. O Em Cena ocorre de 3 a 21 de setembro.
Com seriedade e diversão, "Galileu Galilei" discute liberdade do pensamento
Peça protagonizada por Denise Fraga chega a Porto Alegre em setembro