Foi há seis anos que, ao entrar na menopausa e perceber o desarranjo hormonal pelo qual seu corpo precisou se adaptar, Cristiana Oliveira passou a refletir com mais profundidade sobre a vida e a trajetória artística que construiu desde que explodiu para o Brasil como a personagem Juma, na primeira versão da novela "Pantanal", de 1990, exibida pela extinta TV Manchete.
Ex-modelo alçada ao posto do primeiro time da teledramaturgia nacional, Oliveira se viu amadurecendo aos olhos do público com uma lente ainda mais potente: as redes sociais. "Eu fiquei alterada, hormonalmente falando, e percebi que essa importância que se dá às redes é tóxica. Havia uma cobrança pela perfeição, juventude, magreza e beleza; essa coisa meio utópica que a gente sabe que não é real. As pessoas me cobravam simplesmente por eu estar envelhecendo", relembra.
Sem saber muito bem como reagir às cobranças e ao assédio digital, a atriz passou então a escrever. No papel, suas impressões sobre a vida, as memórias de sua juventude e adolescência - quando chegou a pesar 105 quilos -, a disciplina como modelo, a superexposição da TV e, como consequência, a eterna cobrança do público.
QUESTIONAMENTOS
"Parei e pensei: como eu, pessoa física, encaro esse tipo de coisa? Me incomoda? E minha relação com o espelho?", comenta. Ela continua: "Como isso me atinge psicologicamente, sabendo que fui uma pessoa extremamente insegura no passado, mesmo quando correspondia às expectativas sendo magra, jovem e bonita, e, ainda assim, não lidando bem com meu corpo?".
"Com 52 anos, tendo engordado 15 kg por causa da menopausa, me percebendo mais velha, notei que encarava tudo isso muito melhor. Lidava melhor com as questões do tempo e suas consequências e vivia muito mais leve do que há 20 anos correspondendo à expectativa dos outros", continua.
LIVRO
Todas estas reflexões desaguaram no texto de "Versões de Uma Vida", que tem como subtítulo "Como o Resgate da Autoestima" e o "Fim da Busca por Aceitação me Tornaram Mais Forte e Feliz aos Quase 60 Anos", obra recém-lançada pela editora Letramento.
No livro, Cristiana reflete sobre as cobranças que recebeu ao longo de sua carreira e a forma que se libertou delas, além de costurar histórias e memórias sobre uma trajetória de mais de 30 anos divididos entre o teatro, o cinema, a TV e, recentemente, o mundo corporativo, que tomam sua agenda quase que totalmente.
"Foram seis anos de espera porque, no meio desse processo, fui fazer cinema, novela, teatro, comecei a empreender, e o tempo foi ficando cada vez mais curto para pensar em um livro. Surgiu uma editora que se interessou, mas ela faliu, depois surgiu a Letramento, mas eu fui protelando, veio a pandemia e só agora conseguimos lançar", explica.
Embora não se importe de ser constantemente lembrada pelo papel de Juma Marruá, a atriz busca sempre deixar claro que sua carreira é muito maior. "Minha história é a partir dela, e tenho personagens que foram sucesso e outros que foram fracasso. São 33 anos de carreira, há uma história. Mas me sinto homenageada porque as pessoas surgem com um elogio e a Juma é atípica, é um ser de luz", finaliza.