À primeira vista, a leitura de “O regresso pela porta de marfim” (2025), de Ronald Augusto, parece sugerir – ao leitor menos atento – a recusa ao mundo exterior, sobretudo se considerarmos o título atribuído ao livro. Como os poetas de finais do séc. XIX, os narradores agustinos poderiam viver no castelo de Conde Axël (personagem de Villiers de L’Isle-Adam), distantes do que não lhes apraz ou não lhes traz fruição estética. Mas o jogo consiste nisto: o projeto desse escritor é sincrônico, ele se apropria da tradição, não para imitá-la, mas para reconfigurá-la estética, crítica e criativamente na contemporaneidade. Esse desvio do real, portanto, é um disfarce: o sentido está ali e deverá ser apreendido a partir das elipses da linguagem, das inscrições cifradas que surgem a cada nova página.
Trata-se da incursão inicial do autor pelo gênero narrativo: não lemos um romance (ou será uma quase-romance?), tão menos um conto tradicional, uma prosa poética ou um poema em prosa, embora deste se aproxime em alguns textos, como em “Uma pausa e outra”: “(...) o que se arrastava, suspiro de ideia após palavra aposta na superfície do fio, sem esbarrar na rasura, em que a feiura, ínsula lisura do calígrafo de punho duro, em que a troia tronchada desaba”. A alternância das sílabas tônicas impõe a cadência à frase (ou aos versos), além de outros apoios (aliterações, assonâncias e rimas, por exemplo) próprios de um ritmo mais solto, mais natural da prosa. A leitura, em voz alta, confere ao excerto o estado de poesia. Não resta dúvida.
Composto por 36 narrativas curtas, tem-se, inicialmente, o “Diálogo entre dois velhos” – Aires e Aguiar –, que discutem questões formais relacionadas à poética: ao verso livre, ao metrificado, à prosa, ao ritmo e à vida do poema (sem interpretações, segundo um dos personagens). Parece que estamos num cenário de debates entre modernistas, mas é Machado de Assis – e sua metáfora da “faca de raciocínio”, em Brás Cubas – quem surge ao final: o “bruxo era um cabralino avant-la-lettre”.
O regresso pela torre de marfim possui ainda certa estrutura espiralar, tendo em vista o caráter fragmentário e a instabilidade espaço-temporal que circunscrevem os escritos: além dos dois personagens machadianos, a figura de B aparece, ao menos, em cinco narrativas; ele é descrito de forma instável, é possivelmente um personagem-escritor, ilustre precursor, digno de imitação. No entanto, em “Para cinco ou seis pessoas que me leem”, a voz narrativa admite, de modo irônico, a sua incapacidade em superar B: “Minha formação transcorria assim: (...) convalescia da tristeza de jamais superá-lo convivendo com a felicidade de ter diluidores como confrades incapazes de me pôr em xeque”. Como é senso comum da fórmula poundiana, diluidores não conseguem superar os mestres, os inventores.
O que se nota, a meu ver, é um belo “cutucão” ao culto à personalidade, frequente na produção artística atual, em todas as instâncias. Na presença de B, instaura-se a tensão dos discursos centralizadores que, em aparência, estão munidos de uma assistência progressista, de uma diplomacia irrecusável. O autor, porém, não aponta os dedos: isso cabe justamente ao leitor. Pois é. Tudo é apenas indicativo, o sentido é escuso, não há compromisso com a realidade estabelecida ou com a verossimilhança, como também aponta Denise Freitas, em um dos posfácios ao livro. Não se trata também de um pensamento ostensivamente abstrato – ler, nessa via, “Incapaz de pensar abstratamente” –, como quem deseja desagradar o interlocutor, ante a carência de compreensão rápida por parte deste.
Ronald Augusto adota uma postura crítica diante do leitor, do produtor, do escritor, que só leem as linhas em busca de significado. Não é que o autor não dê relevância a isso, mas importa primeiro o significante, ou seja, o modo como a língua se modula para conduzir o leitor à função poética, existente, claro, também na prosa. Ao optar pela narração, pensa-se ainda que “O regresso’ marca outra coisa, fora e dentro dos textos: trata-se de uma camuflagem. Eu diria até que há a construção de uma teoria que reforça o direito à opacidade (Glissant, 2021): a linguagem assume o deslize temporal, expandindo a concepção de narrativização, que passa a estar associada a uma experiência do sujeito enquanto leitor, pesquisador, músico, criador e crítico literário, responsável por um modo de operar a escrita nada convencional.
Tal procedimento pode ser notado em “Las naves del infierno” – alusão à antologia organizada por Borges e Casares – em que o narrador, ao trazer à cena o mito compilado por esses dois autores, menciona os guerreiros sioux, da América do Norte, e os zulus, da África do Sul – estes impuseram a derrota aos exércitos americanos e britânicos. Em linhas posteriores, há a referência ao Benin e ao inferno da escravização: “o mar vomitava nas praias do Benin suas naves ínferas: os Negreiros”. Nesse ponto, atente-se para um possível diálogo do autor com Ana Maria Gonçalves, em seu “Um defeito de cor”, e Édouard Glissant, em seu ensaio “A barca aberta”, que integra o livro “Poética da relação” (2021): “Aterrador é o abismo, três vezes ligado ao desconhecido”. Já em Ronald Augusto, escreve-se: “(...) guerreiros atravessam o tombo das ondas estilhaçando-as. Dobram-se sobre si mesmas”. Nessa narrativa, aponta-se ainda o manifesto racismo praticado por Jorge Luis Borges.
Tem-se, então, a sintaxe tensionada nessa mistura de narradores, de personagens elusivos e, principalmente, de uma linguagem aguçada e consciente, que opera tais elementos, como se observa em “Excertos a Orestiano”: “A noção de que o assédio ao autor de sua eleição aos significados de sua signância as fraturas abertas pela fatura inventiva do objeto de estudo enfim nada disso lhe garantirá a compreensão”. Além do evidente ritmo, marcado também pela ausência das vírgulas, indica a objeção ao puro significado instituído.
É quase impossível não pensar que o autor de O regresso pela porta de marfim, Ronald Augusto, é também um dos mais importantes poetas da literatura brasileira atual. E isso não nega, de modo algum, a sua abertura ao gênero narrativo. O poeta não se esconde nessa prosa, no sentido mesmo de não pertencimento a um gênero específico. A suspensão dos sentidos, em todos os escritos, produz-se como crítica ou insistência na razão verossímil contra a “impermanência dos sentidos”. Esse gesto de iniciação à prosa ficcional – imaginativa, em vários aspectos – propõe ao leitor o desafio da lentidão, da demora, da procura insistente por aquilo que, talvez, não se consiga encontrar, nestes dias assoberbados em que não vemos a vida transcorrer. A leitura e o leitor não passam despercebidos pelo autor.