Arte & Agenda

Da crítica à prosa ficcional

Doutora em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais, Giovanna Soalheiro Pinheiro, resenha o novo livro do escritor Ronald Augusto, “Regresso pela Porta de Marfim”.

Poeta, filósofo, ensaísta, doutorando em Letras pela Ufrgs, Ronald Augusto
Poeta, filósofo, ensaísta, doutorando em Letras pela Ufrgs, Ronald Augusto Foto : Diego Lopes / Feira do Livro de Porto Alegre / CP

À primeira vista, a leitura de “O regresso pela porta de marfim” (2025), de Ronald Augusto, parece sugerir – ao leitor menos atento – a recusa ao mundo exterior, sobretudo se considerarmos o título atribuído ao livro. Como os poetas de finais do séc. XIX, os narradores agustinos poderiam viver no castelo de Conde Axël (personagem de Villiers de L’Isle-Adam), distantes do que não lhes apraz ou não lhes traz fruição estética. Mas o jogo consiste nisto: o projeto desse escritor é sincrônico, ele se apropria da tradição, não para imitá-la, mas para reconfigurá-la estética, crítica e criativamente na contemporaneidade. Esse desvio do real, portanto, é um disfarce: o sentido está ali e deverá ser apreendido a partir das elipses da linguagem, das inscrições cifradas que surgem a cada nova página.

Trata-se da incursão inicial do autor pelo gênero narrativo: não lemos um romance (ou será uma quase-romance?), tão menos um conto tradicional, uma prosa poética ou um poema em prosa, embora deste se aproxime em alguns textos, como em “Uma pausa e outra”: “(...) o que se arrastava, suspiro de ideia após palavra aposta na superfície do fio, sem esbarrar na rasura, em que a feiura, ínsula lisura do calígrafo de punho duro, em que a troia tronchada desaba”. A alternância das sílabas tônicas impõe a cadência à frase (ou aos versos), além de outros apoios (aliterações, assonâncias e rimas, por exemplo) próprios de um ritmo mais solto, mais natural da prosa. A leitura, em voz alta, confere ao excerto o estado de poesia. Não resta dúvida.

Composto por 36 narrativas curtas, tem-se, inicialmente, o “Diálogo entre dois velhos” – Aires e Aguiar –, que discutem questões formais relacionadas à poética: ao verso livre, ao metrificado, à prosa, ao ritmo e à vida do poema (sem interpretações, segundo um dos personagens). Parece que estamos num cenário de debates entre modernistas, mas é Machado de Assis – e sua metáfora da “faca de raciocínio”, em Brás Cubas ­– quem surge ao final: o “bruxo era um cabralino avant-la-lettre”.

O regresso pela torre de marfim possui ainda certa estrutura espiralar, tendo em vista o caráter fragmentário e a instabilidade espaço-temporal que circunscrevem os escritos: além dos dois personagens machadianos, a figura de B aparece, ao menos, em cinco narrativas; ele é descrito de forma instável, é possivelmente um personagem-escritor, ilustre precursor, digno de imitação. No entanto, em “Para cinco ou seis pessoas que me leem”, a voz narrativa admite, de modo irônico, a sua incapacidade em superar B: “Minha formação transcorria assim: (...) convalescia da tristeza de jamais superá-lo convivendo com a felicidade de ter diluidores como confrades incapazes de me pôr em xeque”. Como é senso comum da fórmula poundiana, diluidores não conseguem superar os mestres, os inventores.

O que se nota, a meu ver, é um belo “cutucão” ao culto à personalidade, frequente na produção artística atual, em todas as instâncias. Na presença de B, instaura-se a tensão dos discursos centralizadores que, em aparência, estão munidos de uma assistência progressista, de uma diplomacia irrecusável. O autor, porém, não aponta os dedos: isso cabe justamente ao leitor. Pois é. Tudo é apenas indicativo, o sentido é escuso, não há compromisso com a realidade estabelecida ou com a verossimilhança, como também aponta Denise Freitas, em um dos posfácios ao livro. Não se trata também de um pensamento ostensivamente abstrato – ler, nessa via, “Incapaz de pensar abstratamente” –, como quem deseja desagradar o interlocutor, ante a carência de compreensão rápida por parte deste.

Ronald Augusto adota uma postura crítica diante do leitor, do produtor, do escritor, que só leem as linhas em busca de significado. Não é que o autor não dê relevância a isso, mas importa primeiro o significante, ou seja, o modo como a língua se modula para conduzir o leitor à função poética, existente, claro, também na prosa. Ao optar pela narração, pensa-se ainda que “O regresso’ marca outra coisa, fora e dentro dos textos: trata-se de uma camuflagem. Eu diria até que há a construção de uma teoria que reforça o direito à opacidade (Glissant, 2021): a linguagem assume o deslize temporal, expandindo a concepção de narrativização, que passa a estar associada a uma experiência do sujeito enquanto leitor, pesquisador, músico, criador e crítico literário, responsável por um modo de operar a escrita nada convencional.

Tal procedimento pode ser notado em “Las naves del infierno” – alusão à antologia organizada por Borges e Casares – em que o narrador, ao trazer à cena o mito compilado por esses dois autores, menciona os guerreiros sioux, da América do Norte, e os zulus, da África do Sul – estes impuseram a derrota aos exércitos americanos e britânicos. Em linhas posteriores, há a referência ao Benin e ao inferno da escravização: “o mar vomitava nas praias do Benin suas naves ínferas: os Negreiros”. Nesse ponto, atente-se para um possível diálogo do autor com Ana Maria Gonçalves, em seu “Um defeito de cor”, e Édouard Glissant, em seu ensaio “A barca aberta”, que integra o livro “Poética da relação” (2021): “Aterrador é o abismo, três vezes ligado ao desconhecido”. Já em Ronald Augusto, escreve-se: “(...) guerreiros atravessam o tombo das ondas estilhaçando-as. Dobram-se sobre si mesmas”. Nessa narrativa, aponta-se ainda o manifesto racismo praticado por Jorge Luis Borges.

Tem-se, então, a sintaxe tensionada nessa mistura de narradores, de personagens elusivos e, principalmente, de uma linguagem aguçada e consciente, que opera tais elementos, como se observa em “Excertos a Orestiano”: “A noção de que o assédio ao autor de sua eleição aos significados de sua signância as fraturas abertas pela fatura inventiva do objeto de estudo enfim nada disso lhe garantirá a compreensão”. Além do evidente ritmo, marcado também pela ausência das vírgulas, indica a objeção ao puro significado instituído.

É quase impossível não pensar que o autor de O regresso pela porta de marfim, Ronald Augusto, é também um dos mais importantes poetas da literatura brasileira atual. E isso não nega, de modo algum, a sua abertura ao gênero narrativo. O poeta não se esconde nessa prosa, no sentido mesmo de não pertencimento a um gênero específico. A suspensão dos sentidos, em todos os escritos, produz-se como crítica ou insistência na razão verossímil contra a “impermanência dos sentidos”. Esse gesto de iniciação à prosa ficcional – imaginativa, em vários aspectos – propõe ao leitor o desafio da lentidão, da demora, da procura insistente por aquilo que, talvez, não se consiga encontrar, nestes dias assoberbados em que não vemos a vida transcorrer. A leitura e o leitor não passam despercebidos pelo autor.

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