Modernizar o passado é uma evolução musical. No primeiro verso, Da Lama ao Caos diz a que veio e traça a grande contribuição do movimento Mangue Beat: a ponte entre tradicional e contemporâneo, que desorganizou para reorganizar a música brasileira. Na noite dessa quinta-feira, Porto Alegre celebrou a turnê de 30 anos do álbum de estreia da Nação Zumbi.
Em um Opinião lotado, a banda apresentou o disco, faixa a faixa, e brindou o público com um bloco de bis, que incluiu clássicos como Quando a Maré Encher, Foi de Amor e Manguetown. O público retribuiu cantando as letras, dançando e formando grandes rodas punk em frente ao palco.
Lançado em 1994, Da Lama ao Caos é uma espécie de disco-manifesto do movimento Mangue Beat. A obra quebrou paradigmas ao fundir samples gringos e guitarras distorcidas com maracatu, coco, ciranda, batuque de terreiro e outras manifestações populares. Em uma formação, até então, sem bateria, apenas com bombos (alfaias), caixa e outros instrumentos percussivos.
A primeira faixa - Monólogo ao Pé do Ouvido - escancara também o caráter revolucionário da obra, saudando Emiliano Zapata, Zumbi dos Palmares, Augusto César Sandino, Antônio Conselheiro, os Panteras Negras e o Rei do Cangaço, Virgulino Lampião - “sua imagem e semelhança”.
O movimento Mangue Beat - tendo Chico Science como figura central e Da Lama ao Caos como disco-manifesto - cantou para o mundo a cidade do Recife, seus rios, pontes e overdrives - mas também suas contradições sociais e os problemas urbanos da “quarta pior cidade do mundo”.
O show de Porto Alegre contou com a participação de Maciel Salú, músico pernambucano, rabequeiro e nascido no berço da cultura pernambucana. Maciel é filho do falecido Mestre Salustiano, personagem importante para o maracatu rural, o cavalo marinho e outras manifestações culturais, tido como mestre pela geração Mangue Beat e um dos grandes representantes da rabeca. Além de Salú, subiu ao palco um caboclo de lança, figura típica do maracatu rural, da Zona da Mata pernambucana.
O Mangue Beat se consolidou como um dos maiores e mais relevantes movimentos da música brasileira nas últimas décadas. Um de seus principais legados foi abrir para o resto do mundo a riqueza da cultura popular de Pernambuco. Um dos efeitos visíveis é que, a partir da década de 1990, essas manifestações culturais regionais espalham-se pelo Brasil - e depois mundo afora.
Mestres de maracatu são chamados a palestrar e ministrar oficinas pela Europa, Selma do Coco gravou em Berlim e hoje não é raro ver japoneses curtindo o carnaval recifense ou subindo e descendo ladeiras em Olinda.
Esse legado também pode ser visto no Rio Grande do Sul, destino frequente de batuqueiros e mestres de cultura popular, que realizam um intercâmbio cultural com os grupos percussivos de maracatu e coco daqui.
Francisco de Assis França morreu em 1997, aos 30 anos, em um acidente de carro em 1997. Com a Nação, lançou Da Lama ao Caos e Afrociberdelia. A banda se reinventou, com Jorge Du Peixe no vocal e trocou outros integrantes ao longo do tempo. Lançou outros sete discos de estúdio e dois ao vivo.
Após mais de trinta anos, o Mangue Beat segue vivo, influenciando gerações e - com os pés no mangue e um satélite na cabeça - irradiando mundo afora o que a cultura brasileira tem de melhor.
Viva Chico Science! Viva Luís de França! Viva Mestre Salustiano! Viva Guitinho da Xambá! Pernambuco, sua imagem e semelhança: eu tenho certeza que todos eles cantaram um dia.