Tanto os indivíduos sociais quanto os sistemas políticos estão envolvidos no caminho por uma nova utopia, que seja democrática de fato. É o que defendeu o deputado do parlamento Europeu reeleito em 2009 e maior representante do partido político alemão Os Verdes, Daniel Cohn-Bendit, presente nesta segunda-feira em Porto Alegre no ciclo de palestras Fronteiras do Pensamento.
Ao apontar o colapso da utopia do neoliberalismo, representado pela crise que evidenciou a incapacidade do mercado econômico de controlar tudo, Cohn-Bendit lembrou que qualquer utopia que seja no sentido de dirigir a sociedade está fadada ao fracasso, assim como a dos maoístas, trotskistas, anarquistas ou libertários. “A crítica à atual política de desenvolvimento está correta, assim como a crítica contra a sociedade do consumo”, ressaltou ele, sem deixar de pontuar a impossibilidade de proibir por lei que as pessoas consumam. “A sociedade deve se transformar a ponto de mudar suas necessidades. Não pode surgir uma ditadura ecológica para combater as mudanças ecológicas. Mas é certo que é necessário uma transformação ecológica do capitalismo. Como conseguir isto democraticamente é a minha utopia.”
Um dos desafios atuais, segundo Cohn-Bendit, é lidar com o ressurgimento do nacionalismo econômico na Europa, realçado pela crise da Grécia. Ele questionou posturas nacionais a ponto de chegar ao debate por uma escolha: “Ou a Europa se entende como unidade e neste caso somos responsáveis por todos ou ela se volta para uma 'renacionalização'”.
Ainda sobre a Grécia, lembrou a pressão realizada por França e Alemanha para que os recursos a serem destinados ao país em falência sejam utilizados também para assegurar o cumprimento dos contratos de compra e venda de armas. “Se esta conta não for paga, o prejuízo é dos grandes bancos franceses e alemães. Mas também há a questão estrutural na Grécia, um país onde ninguém se identifica com a coletividade, nem os pobres nem os ricos. A desintegração é um problema, ninguém quer pagar impostos, em um país com 10 milhões de habitantes, que possui um exército de 260 mil soldados, ante 350 mil nos Estados Unidos e 300 mil na Alemanha. Eles têm uma ideologia nacionalista na qual acreditam que precisam se proteger de uma invasão turca, o que é um absurdo. O país não tem condições de lidar com um exército deste porte”, disse um dos principais líderes estudantil dos movimentos sociais de 1968 em Paris.
Quanto aquela época, diz ser difícil mensurar o que ocorreu, mas ressaltou que os anos 60 e 70 mudaram a sociedade, "o que não significa que não tenhamos contradições. Hoje, em tempos de crises econômicas, sociais e ecológicas há um sentimento de insegurança que pode gerar xenofobias ou hostilidade com as minorias. A insegurança causa medo, e ele pode ser utilizado para desviar a atenção do próprio governo que lida com fracassos. Isto acontece em toda a Europa".
Apenas visualizar e debater os problemas não é suficiente, para Cohn-Bendit. "Os problemas sociais não são resolvidos sem movimentos sociais. Mas sem mudanças estruturais de poder nas instituições democráticas a situação não vai se modificar. Há uma dialética entre movimento social e transformação política", indicou.
Maio de 1968
Referenciado como um dos principais líderes dos movimentos de 1968, Daniel Cohn-Bendit afirmou sentir-se um divã da época. "Às vezes sou uma projeção, quem viveu aquela época olha através de mim para o seu passado com nostalgia, ou, os jovens, com uma ânsia da revolta que vivemos. Mas 1968 passou, escrevi um livro que diz para esquecerem 1968. A nostalgia indica que seria mais bonito ou melhor na década de 1960. Foi bonito, não nego, éramos sonhadores e utópicos, mas tínhamos palhas e bobagens na cabeça. Eu inclusive passei a acreditar que as pessoas poderiam se gerir sozinhas sem alguma linha central, mas sem institucionalizar os debates, o que coletiva o pensamento e ações sobre o mundo, não é possível".
Para o político, hoje o choque da civilização centra-se na confrontação como islamismo radical, não com o islã. "Se seguirmos a linha de buscar o mesmo valor para todas as pessoas, de que homens e mulheres são iguais e livres, fica claro que a luta não é contra o Islã. Precisamos integrar a Turquia, Bósnia e Sérvia na União Europeia, para que ela não seja um clube cristão mas uma união pelos seres humanos".
A questão da utopia, para Cohn-Bendit, é que ela pode se tornar totalitária, como foi com o comunismo, fascismo ou nazismo. "Se as pessoas não tem condições de entender o mundo atual e saber o que é melhor, pelo totalitarismo, obrigaremos elas a seguirem o caminho e serem mais felizes. Esta imposição da felicidade pré-determinada geram utopias totalitárias", disse.
Daniel Cohn-Bendit: "Índividuos sociais e sistemas políticos caminham para uma nova utopia"
Político alemão participou de palestra no Fronteiras do Pensamento nesta segunda-feira