Arte & Agenda

Discussões políticas antecipam a 79ª edição do Festival de Cannes

Entre acusações de "feminism washing" e debates sobre políticas de cotas, o festival começa nesta terça-feira, dia 12

O Festival de Cannes concluiu, nesta segunda-feira (11), os preparativos para a sua 79ª edição
O Festival de Cannes concluiu, nesta segunda-feira (11), os preparativos para a sua 79ª edição Foto : JULIEN DE ROSA / AFP

O Festival de Cannes concluiu, nesta segunda-feira (11), os preparativos para a sua 79ª edição, repleta de estrelas como Javier Bardem, Adam Driver e Scarlett Johansson e Pedro Almodóvar. O ator brasileiro Selton Mello estará em uma das obras apresentadas na mostra paralela "Quinzena dos Realizadores”.

La Croisette, o famoso calçadão à beira-mar da cidade francesa, ficará a partir de terça-feira repleto de grandes nomes do cinema, como o casal espanhol Javier Bardem e Penélope Cruz - que participam separadamente em dois filmes em competição -, ou as atrizes Cate Blanchett, que dará uma "masterclass", e Demi Moore, integrante do júri. Também vão brilhar no tapete vermelho do festival de cinema mais importante do mundo os americanos Adam Driver e Scarlett Johansson, protagonistas do thriller "Paper Tiger", de James Gray, um assíduo da competição.

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As equipes da organização já penduraram no domingo, no Palácio dos Festivais, o imenso cartaz oficial do certame, protagonizado por Thelma e Louise, as heroínas do "road movie" feminista de Ridley Scott interpretadas por Geena Davis e Susan Sarandon. O coletivo feminista 50/50, que milita por uma maior inclusão no cinema, criticou o cartaz e o considerou uma forma de "feminism washing", tendo em conta que apenas cinco realizadoras estão em competição, entre os 22 filmes em disputa.

Política de Cotas

"Em nenhum momento escolhemos Geena Davis ou Susan Sarandon ou o filme de Ridley Scott como cartaz para, supostamente e sem muito esforço, darmos uma imagem feminista", reagiu, nesta segunda-feira, o diretor-geral do festival, Thierry Frémaux. O coletivo 50/50 assinou em 2018 uma espécie de documento estatutário com a mostra, mas "em nenhum momento esta carta menciona a paridade na seleção. Em nenhum caso deve haver uma política de cotas", insistiu Frémaux, acrescentando que a paridade está "nos júris e nos órgãos".

Entre os filmes que concorrem ao prêmio máximo estão diretores habituais da mostra, como o japonês Hirokazu Kore-eda e o romeno Cristian Mungiu - ambos com Palmas de Ouro -, e o russo Andrey Zvyagintsev, premiado diversas vezes. Dez cineastas concorrem pela primeira vez na mostra frequentemente criticada por manter um círculo de favoritos.

O veterano espanhol Pedro Almodóvar disputa pela sétima vez a Palma de Ouro com "Amarga Navidad", sobre um diretor - seu alter ego - que perdeu a inspiração. Rodrigo Sorogoyen apresenta "El Ser Querido", com Bardem dando vida a um famoso cineasta que oferece um papel à filha atriz. "La Bola Negra", de Javier Ambrossi e Javier Calvo, entrelaça as histórias de três homens homossexuais em três épocas diferentes, a partir de uma obra inacabada de Federico García Lorca, com Penélope Cruz e Glenn Close no elenco. Essa participação histórica "reflete o bom momento que o cinema espanhol atravessa", disse Almodóvar após o anúncio das obras selecionadas.

O júri, presidido pelo sul-coreano Park Chan-wook, anunciará em 23 de maio a lista de premiados e o sucessor de "Foi Apenas Um Acidente", do iraniano Jafar Panahi. O cineasta sul-coreano disse, em entrevista à AFP, que gostaria de premiar filmes que "perdurem 50 ou 100 anos" e insistiu que uma obra deve ser julgada "por seus próprios méritos", sem levar em conta "fatores externos" como "a nacionalidade, o gênero, a ideologia política".

Artistas engajados

A atualidade geopolítica, especialmente os conflitos na Ucrânia e no Oriente Médio, voltará a ser refletida no dia a dia do festival, ainda mais neste ano, que conta com artistas tão engajados como Bardem ou o escocês Paul Laverty, roteirista de Ken Loach e membro do júri desta edição. "Cannes é político quando os filmes são políticos", declarou em abril Thierry Frémaux, respondendo às críticas a Berlinale, acusada este ano de não levantar a voz diante da guerra em Gaza.

Apesar de ausente na mostra competitiva, o cinema latino-americano estará presente em outras seções e especialmente em "Um Certo Olhar", a segunda mais importante, pelas mãos de duas diretoras: Valentina Maurel, da Costa Rica, com "Siempre Soy Tu Animal Materno", e a chilena Manuela Martelli, com "El Deshielo". Na Quinzena dos Realizadores, dedicada a novos talentos, destacam-se "La Muerte No Tiene Dueño", do venezuelano Jorge Thielen Armand, com Asia Argento no papel de uma herdeira de uma plantação que quer vender, e "La Perra", da chilena Dominga Sotomayor, cujo elenco inclui o ator brasileiro Selton Mello ("Ainda Estou Aqui").

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