O ditador, como é explicado no filme, foi forçado, por causa da pressão internacional, a convocar um referendo nacional, que aconteceu em 5 de outubro de 1988, para decidir se ele permaneceria no poder até 1997. O resultado foi de 44,01% para o "Sim" e 55,99% para o "Não".
Gael Garcia Bernal interpreta René Saavedra, que, após vencer a relutância dos colegas, coloca um toque de humor juvenil e festivo na campanha publicitária de 15 minutos, que um mês antes da votação, foi transmitida na televisão chilena. "Gael estava em mente desde o começo, desde que estávamos desenvolvendo o roteiro. Tivemos que ensinar algumas coisas sobre o Chile, mas ele trouxe imediatamente o equilíbrio e a ambiguidade que eram necessários para o papel", declarou Pablo Larrain, conhecido por seus filmes "Tony Manero" e "Post Mortem".
Bernal, que em nenhum momento do filme tenta imitar o sotaque chileno, explicou que para interpretar Saavedra precisou de uma preparação intensiva, já que não tinha muito tempo. "Eu obtive um monte de informações sobre a época. Tive, é claro, que entrar no ritmo chileno e trabalhar minha atuação, ajustando-me ao jogo e à equipe", afirmou o ator. "Gostei do fato de meu papel ser o de um exilado no México que regressa, isso fez com que tudo fluísse de maneira mais expansiva ", acrescentou.
Larrain explicou que o filme foi rodado em suporte de vídeo "U-matic 3/4", usado no final dos anos 1980, o que fez com que a textura e cores dos documentos exibidos na época pela televisão chilena se confundissem com as cenas gravadas para o longa de ficção. "Eu cresci na década de 1980, durante a ditadura. O que víamos na televisão, estas imagens de baixa resolução, era um imaginário sujo que não poderia ser gravado de maneira pura. A memória coletiva esta cheia de memórias obscuras, de impureza", conta. “Filmar em película ou com câmeras digitais de alta definição poderia gerar uma distância com o imaginário da época. Era importante esta fusão e agora, ao ver o resultado, não tenho certeza qual material é nosso e qual é da televisão", detalha o diretor.
O autor do roteiro de "Não", Pedro Peirano, explicou como trabalhou em "O plebiscito", a obra de Skarmeta, autor renomado e ex-embaixador chileno na Alemanha durante o governo de Ricardo Lagos, entre 2000 e 2003.
"Esta obra, que não é conhecida porque nunca foi lançada, foi o ponto de partida. Havia um personagem único. O que eu fiz foi desenvolver o texto, conversar com as pessoas que fizeram a campanha. Foi um processo muito interessante. As pessoas que estavam a favor do "não" falavam com facilidade e aqueles que votaram no "sim" sentiam vergonha", contou. "Além disso, o motor para a adaptação foi a minha própria curiosidade, saber como tinha sido feita a campanha na época. No filme, cada personagem realmente representa um grupo inteiro de pessoas da realidade. São como arquétipos", afinalizou.