Do "cancelamento" à libertação

Do "cancelamento" à libertação

Em entrevista ao Correio do Povo, a atriz e youtuber Viih Tube conta detalhes sobre seu novo livro, que aborda a cultura do "cancelamento" e propõe uma reflexão sobre o discurso de ódio na Internet

Camila Souza*

A youtuber e atriz Vitória Moraes, a Viih Tube, reuniu suas experiências com o linchamento virtual no livro "Cancelada - O que a Internet não Mostra", abordando fake news, saúde mental e exposição em redes sociais

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No “tribunal da internet”, não precisa de muito para ser colocado no banco dos réus. Quem decide expor sua vida, suas opiniões e o seu trabalho na web está sujeito a sofrer o “cancelamento”. Basta uma fala ou atitude que contrarie a opinião do público e está feito. Em poucos minutos, ameaças e palavras de ódio contra se espalham pelo mundo virtual. E o que se deve fazer quando esse momento chega? A maioria das pessoas prefere se afastar das redes, esperar a “poeira baixar” para retornar e esquecer o episódio traumático. Mas, há quem fuja do esperado. Depois de ser cancelada diversas vezes pelos “juízes de Internet”, a youtuber e atriz Vitória Moraes, conhecida como Viih Tube, reuniu suas experiências com o linchamento virtual no livro “Cancelada - O que a Internet não Mostra”, abordando temas como fake news, saúde mental e exposição nas redes sociais.

“Eu já teria escrito esse livro há muito tempo, desde a primeira vez que senti na pele o que é ser ‘cancelada’, mas nunca tive coragem”, revela Viih Tube. A jovem influenciadora, hoje com 20 anos, começou sua carreira na internet em 2013, produzindo vídeos para o YouTube. Ela criou e protagonizou a websérie “Em Prova”, que ganhou sequência no filme “Amiga do Inimigo”, disponível na Netflix. Também é autora dos livros “Todo Amor Tem Segredos” e “Tudo tem uma Primeira vez”. Apesar de ter conquistado um grande público - já são quase 20 milhões de seguidores no Instagram e 11 milhões no YouTube -, a artista também foi alvo de muitos comentários de ódio. A coragem para expor suas dores e traumas veio somente depois da participação em um reality show televisivo, que foi marcada por duras críticas ao seu comportamento. “Eu já tinha mostrado todas as minhas versões, não havia mais o que esconder e nem por quê, então contei tudo. Comecei a escrever como um desabafo”, explica a influenciadora.

O livro, que já está em pré-venda e com lançamento marcado para outubro, propõe um diálogo com dois públicos: os influenciadores e os “canceladores”. “Se eu tivesse lido meu livro quando comecei, me ajudaria muito. Então, é legal pessoas que querem trabalhar com Internet lerem, mas também é focado em quem é ativo nas redes sociais e que muitas vezes é um cancelador e nem percebe”, comenta. A youtuber conta histórias pessoais e fala sobre sua vida antes da fama, capítulos que, segundo ela, foram os mais difíceis de escrever. “Eu conto coisas que nem meus amigos próximos sabem”, detalha. Abrir o coração nessas páginas é, para Vitória, um sinônimo de libertação. “A Vitória do passado duvidaria dessa coragem que tenho hoje. Tenho orgulho de quem eu sou e da forma como evoluí”, afirma. A influencer já pensou em desistir da carreira por conta dos julgamentos, mas explica que hoje sabe lidar melhor. “Eu amo criar conteúdo e vou fazer independentemente das críticas, porque mesmo com tudo que acontece, tem muita gente que gosta e me apoia. Comecei a valorizar essas pessoas e me valorizar também”, ressalta. 

Através de “Cancelada”, a influenciadora quer fazer o leitor refletir sobre seu comportamento no ambiente virtual. “Mesmo que poucas pessoas entendam o que eu quis dizer, meu objetivo é, além da minha própria libertação, tentar fazer o ambiente da internet ficar um pouco mais gostoso de conviver”, destaca, cheia de entusiasmo. Apaixonada pelo universo audiovisual, ela revela que seu sonho é levar as histórias do livro para as telas de cinema. Cada artista encontra uma forma de combater o ódio que enfrenta na web, afinal, não existe um manual de como lidar com o cancelamento. Continuar fazendo seu trabalho, tendo a convicção de quem se é, parece ser um bom caminho. Para Viih Tube, foi uma escolha que deu certo.

*Sob supervisão do editor Marcos Santuario


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