llian Hellman (1905 - 1984), uma das principais dramaturgas do século XX, explicita tanto em seus textos teatrais quanto em suas autobiografias uma crítica social e coragem que nada perderam em atualidade. A autora de "The Children''s Hour" (Infâmia, no Brasil) ou "Little Foxes", suas peças mais famosas, aborda livremente temas como mentira, exploração e lesbianismo numa América conservadora, controladora, preconceituosa e repleta de obscurantismos situada entre as décadas de 1930 e 1940 nos Estados Unidos.
Uma das peças que adaptou, "Candide", baseada na homônima de Voltaire, deixa claro, através do protagonista Cândide, que o otimismo cega e o quanto pode ser perigoso aceitar discursos - políticos ou religiosos. Perseguida pelo chamado macarthismo, referência ao Senador Joseph McCarthy, foi intimada pelo temível Comitê da Câmara contra Atividades Antiamericanas em 1952, onde negou qualquer delação.
Há anos relativamente esquecida, a autora retorna aos leitores brasileiros através de três autobiografias lançadas pela José Olympio (do grupo Record). A primeira chegou às livrarias em fevereiro. "Uma Mulher Inacabada" lançada nos EUA em 1969, versa sobre os amigos autores com os quais conviveu, como Dorothy Parker, e de sua relação com Dashiel Hammett.
Ao comentar a personagem Nora, a mulher do ex-detetive de "O Homem Magro", de Hammett, Hellman diz: "Era bom ser Nora, casada com Nick Charles, talvez um poucos casamentos na literatura moderna em que o homem e a mulher se apreciam mutuamente", numa clara celebração à igualdade que toma cara inclusive em uma relação amorosa.
A segunda autobiografia lançada pela Record é "Pentimento", escrita em 1973 e traduzida agora por Elsa Martins. Baseado em um conto desse livro, Fred Zinnemann dirigiu o filme "Júlia" em 1977, conquistando três prêmios Oscar. No enredo, Hellman faz o contrabando de uma considerável soma em dinheiro dos EUA para a Alemanha a fim de ajudar Julia, amiga de infância que se juntou ao movimento de resistência aos nazistas. Pesquisas posteriores comprovaram que a história não é literalmente verídica, o que permite alertar o leitor para que se atenha mais a essências do que detalhes reais narrados em "Pentimento", ideia que de alguma forma vem ao encontro do título.
Sobre ele, Jane Fonda lembra no filme o fato de quando linhas originais de um quadro são diferentes das definitivas, como um cachorro que substitui uma criança na pintura. "Isso se chama Pentimento, porque o pintor se arrependeu, mudou de ideia. Talvez se pudesse dizer que a antiga concepção, substituída por uma imagem anterior, é uma forma de ver e ver de novo, mais tarde". A próxima autobiografia de Hellman será "Caça às Bruxas", uma referência justamente ao contexto do macarthismo.
Editoras lançam autobiografias de llian Hellman
Autora americana foi uma das principais dramaturgas do século XX