Quem pensava que Elis Regina era cantora técnica demais, elitizada demais para um espetáculo em ginásio como o Gigantinho, se enganou. A cantora mostrou na sua apresentação sábado à noite que sabe crescer em termos cênicos, na proporção exata ao local onde atua. Para ela não há necessariamente o espaço limitado de um palco e na frente um público bem comportado, bem acomodado nas poltronas. No seu show, aqui, ela foi tão grande para o pessoal das arquibancadas quanto para o das cadeiras de pista.
Ela não lotou o Gigantinho. Ficaram terríveis espaços cinza nas laterais. Seu público foi de umas cinco mil pessoas. Mas nada disso tirou o entusiasmo de Elis. Entrou em cena com toda a garra e já iniciando um pique incrível, um fôlego invejável, que só teria fim uma hora e meia depois. Melhor que ninguém Elis tinha consciência de que estava na sua terra, o local onde os verdadeiros valores são julgados muito duramente. Sabia também que as cinco mil pessoas que estavam no ginásio, crianças e adultos, tinham ampla informação sobre seu trabalho e que foram para vê-la. Aí a qualidade em relação ao público compensou com sobras a quantidade.
Nunca vimos no Gigantinho um público tão educado, tão atento. Nos momentos tensos do espetáculo, alguma vez só a voz da cantora e o violão de Luizão, o silêncio era o de uma sala de concertos. Terminada a música. a explosão dos aplausos fazia com que o Gigantinho vê-se apanhado o dobro de sua lotação Este foi o clima, este foi o calor que o público de Porto Alegre recebeu sua cantora: aplaudindo-a de pé, em várias músicas.
E a reação deste público foi um elemento vital para que Elis realizasse show histórico que realizou sábado. A partir de "Trem Azul" (Lô Borges e Ronaldo Bastos), o desempenho da cantora, ritmo do espetáculo, atuação dos músicos, tudo foi num crescendo só, até o final. E o final não foi bem o final, pois Elis foi exigida novamente no palco e terminou fazendo o público cantar com ela "Maria, Maria" (Milton Nascimento e Fernando Brandt).
Em relação aos espetáculos anteriores, "Falso Brilhante", "Transversal do Tempo" e "Saudades do Brasil', este "Trem Azul' é o mais direto, mais simples. Dos espetáculos anteriores até este último, a utilização cada vez menor de elementos cênicos, e as montagens foram ficando mais despojadas, crescendo a cada um deles a figura da cantora, sua voz sem precedentes, sua capacidade quase mágica de tornar pessoalíssima qualquer música que cante.
Neste "Trem Azul" então ela chega a um degrau importante de sua carreira, em que pode se dar o luxo, praticamente, de dispensar qualquer programação visual, porque por maior que seja o espaço, por mais limpo que seja, quem brilha mais e sempre é a cantora. A direção de Fernando Faro foi inteligente por ter dado espaço para Elis gingar, pular, agitar-se o tempo todo. Nenhuma economia de gestos. Chega ao ponto de jogar os braços à vontade, como fazia no tempo de "O Fino da Bossa"
O repertório de "Trem Azul" dá exata dimensão do grau de maturidade atingido por Elis cantando desde Rita Lee, Roberto Carlos (Amante à Moda Antiga), passando por Caetano Veloso, Guilherme Arantes, Beto Guedes, Lô e Marcio Borges chegando a Gilberto Gil e Milton Nascimento. Sua interpretação do 'blue' "Se eu Quiser Falar com Deus" (Gil), foi um dos grandes momentos do espetáculo. No final desta música foi aplaudida de pé, durante cinco minutos. Outro grande momento foi em "Maria Maria" , que ela posteriormente teve que repetir. Para quem não foi ao Gigantinho sábado, fica o aviso: perdeu o melhor espetáculo musical da atual temporada e talvez dos próximos anos