Elza Soares é foda! Não se assuste com a palavra forte, é ela mesma quem diz. E a gente tem que concordar. Pense numa menina de 13 anos, pobre, negra enfrentando sozinha Ary Barroso e saindo vencedora com sua voz. Pense numa mulher que enfrentou uma nação por amor. Pense numa cantora admirada por Sylvia Telles, numa voz que já misturava jazz e samba antes da bossa nova e que fez isso sem referência alguma, por puro instinto.
Sua gravação de "Se Acaso Você Chegasse", de Lupicínio Rodrigues, é um clássico e um exemplo desse suingue peculiar. Elza Soares gravou com grandes nomes do samba, como Roberto Ribeiro e Wilson das Neves - com esse, grande baterista, fez um dueto inédito e raro pra sua época entre cantora e instrumentista. Com Miltinho, grande cantor famoso pelas divisões, fez álbuns históricos. Ronaldo Bôscoli inventou pra ela a alcunha de bossa negra, mas Elza sempre foi mais.
Nos anos 80, estreou na música pop com as bênçãos de Caetano Veloso no disco "Velô", arrasando na canção "Língua". Sempre contemporânea, qualidade de grandes artistas, hoje ela se apresenta com DJs no palco e já fez um álbum inteiro com música eletrônic,a mas cantando Zé Kéti. Ela passeia tranquila em qualquer território. É antológica a gravação que fez para Itamar Assumpção. Admiração recíproca, "Elza" Itamar fez pra ela. Como fez Chico Buarque com "Dura Na Queda", Caetano Veloso com "Dor de Cotovelo" e Zé Miguel Wisnik com "Flores Horizontais".
Seus shows mais recentes tem o nome de um samba que ela gravou em 66, "Deixa a Nega Gingar", de Luiz Cláudio. Mas, temos que dizer, mesmo com uma big band atrás, uma orquestra de gafieira, uma parafernália eletrônica, quando Elza Soares canta, tudo fica menor. Com esse timbre só dela, o balanço, a voz que soa como um instrumento. Acima de tudo, uma artista que vive o seu tempo e que por isso não envelhece. Uma mulher que já levantou e sacudiu a poeira tantas vezes que perdeu a conta. Elza Soares, meu amigo, é foda!