Arte & Agenda

Em seus 50 anos, Grupo Corpo apresenta sua “Piracema” na Capital

A companhia mineira estreia na capital gaúcha o seu novo balé, em curtíssima temporada, nos dias 13 e 14 de setembro, no Teatro Fiergs.

Em seus 50 anos, Grupo Corpo apresenta a sua “Piracema” em curtíssima temporada, nos dias 13 e 14 de setembro, no Teatro Fiergs, em Porto Alegre
Em seus 50 anos, Grupo Corpo apresenta a sua “Piracema” em curtíssima temporada, nos dias 13 e 14 de setembro, no Teatro Fiergs, em Porto Alegre Foto : José Luiz Pederneiras / Divulgação / CP

O peixe sobe a correnteza do rio, numa jornada para chegar ao local da desova. Contra a força da corrente e os obstáculos, ele vence a urgência de criar e recomeçar o ciclo da vida. No ano de seu cinquentenário, o Grupo Corpo escolheu o fenômeno da piracema como símbolo de sua trajetória. Com trilha inédita composta por Clarice Assad, “Piracema” inaugura a parceria coreográfica de Rodrigo Pederneiras com Cassi Abranches, que passa a ser coreógrafa residente do grupo. Este espetáculo com 22 bailarinos em cena será apresentado neste sábado, 13 de setembro, às 20h30min, e domingo, às 19h, no Teatro Fiergs (Assis Brasil, 8787, bairro Sarandi), em Porto Alegre. Ingressos no Sympla. Completando o programa, o Corpo traz de volta “Parabelo”, de 1997, a peça de inspiração sertaneja com música de Tom Zé e Zé Miguel Wisnik. A retrospectiva dos 50 anos também será feita em forma de documentário (direção de Janaína Patrocínio) e livro (elaborado pelo Estúdio Campo e publicado pela editora BEI, que reúne as fotos de José Luiz Pederneiras.

Para este espetáculo, houve uma inovação radical no método de trabalho dos dois criadores – Rodrigo Pederneiras e Cassi Abranches. Um desafio e tanto, a partir da proposta do diretor artístico Paulo Pederneiras. Com a companhia dividida em dois grupos de 11 bailarinos, cada um dos coreógrafos criou e ensaiou independentemente todo o balé, para depois reunir e combinar as duas versões. “Quando o Paulo propôs esta maneira de se criar, eu fiquei bem apreensivo. Eu não conhecia nenhuma situação igual no mundo da dança. Tínhamos duas obras prontas com a mesma trilha. Quando apresentamos, houve um tanto de momentos que se encaixavam. Uma coisa completava a outra e em outros momentos os trabalhos se chocavam. Havia uma terceira versão e até uma quarta coisa, até que se ficasse satisfeito com o resultado. Foi uma experiência riquíssima, um exercício de desprendimento meu e da Cassi”, destaca Rodrigo Pederneiras sobre o processo de criação. “Não podíamos nem circular na área em que o outro grupo estava ensaiando”, revela Cassi Abranches. “Deu um frio na barriga, mas topamos a proposta do Paulo e a dança cumpriu seu papel integrador”, completa.

O balé “Piracema” traduz a música de Clarice Assad que, dividida em três grandes movimentos, traça um arco que se inicia no tribal, no ambiente natural intocado, passa pela polifonia sinfônica do clássico e termina no eletrônico, urbano, contemporâneo. Primeira mulher a compor uma trilha para a companhia, Assad encarou, em suas palavras, “uma maratona”. “Foi minha primeira trilha, e logo com o gigantesco Grupo Corpo, de quem sou absolutamente fã”, conta a compositora, que trabalhou com o percussionista Keita Ogawa, a orquestra de cordas New Century Chamber, de São Francisco, e com participações especiais como a de seu pai, o violonista e compositor Sérgio Assad.

O diretor artístico Paulo Pederneiras foi buscar, para a cenografia, um material que se alinha à ideia dos cardumes da piracema. Recobriu o fundo (de 16m x 7m) e as pernas (laterais do cenário) com nada menos que 82 mil tampas de latas de sardinha. Paulo assina também a iluminação ao lado de Gabriel Pederneiras, diretor técnico do grupo. A criação dos figurinos ficou a cargo da dupla de designers Alva, os irmãos Susana Bastos, artista e estilista, e Marcelo Alvarenga, arquiteto. É a primeira vez que os dois criam para a dança. “De acordo com a atmosfera da música e o desenvolvimento do balé, trabalhamos com os conceitos de natureza e tecnologia, ora em conflito, ora em harmonia”, explica Marcelo, que trabalhou como arquiteto com Freusa Zechmeister, falecida em 2024. Ela assinou os figurinos do grupo de 1981 a 2022. “O que eu sinto é que dentro desta equipe do Grupo Corpo sempre existiu uma confiança muito grande das pessoas umas nas outras tanto no lado artístico quanto na questão técnica. Ninguém alivia ninguém na hora de falar algo significativo, a gente aponta os defeitos também e isto fez a coisa crescer nestes 50 anos”, ressalta Rodrigo Pederneiras.

Fundado em 1975, ocupando num primeiro momento a casa onde os irmãos Pederneiras – Paulo, Zé Luiz, Miriam, Rodrigo, Pedro e Marisa – foram criados, o Grupo Corpo chega aos 50 anos de atividades como o mais importante grupo de dança contemporânea do país. “Quando nós pensamos em fazer a dança como profissão, nós participamos dos Festivais de Inverno de Ouro Preto, no início dos anos 1970. Neste festival, conhecemos o bailarino e coreógrafo argentino Oscar Araiz, que fez o nosso primeiro trabalho “Maria Maria”. O festival fervilhava. Lá existia uma criatividade incrível na área de dança, de teatro e da música. E realmente deu muitos frutos, pois o Grupo Corpo e o Grupo Galpão começaram com este festival da Universidade Federal de Minas Gerais”, lembra Rodrigo Pederneiras.

Nas cinco décadas da companhia, somam-se 43 obras criadas e montadas, com apresentações em 261 cidades de 41 países, além do Brasil. Ao longo da sua trajetória, encomendaram música original a duas dezenas de compositores, e dançaram obras do popular e do clássico. E não há dúvidas de que o Grupo Corpo mudou o panorama da dança no Brasil e tornou-se um embaixador cultural do país nos quatro cantos do planeta, da Tailândia aos EUA, da Rússia ao Canadá.

Ao longo destes 50 anos, o Grupo Corpo também foi sinônimo de resistência ao período da ditadura militar. “O início foi uma coisa estranha. Nós estreamos o Maria Maria, em 1976, em plena ditadura. A gente precisava fazer o espetáculo antes para os censores. Eles queriam cortar aqui e ali, era sempre uma dificuldade enorme. A gente lutava pela ideia de um Brasil melhor. Foi de importância vital para o Grupo Corpo a ideia de convidar músicos brasileiros como Gilberto Gil, Caetano Veloso, Lenine, Arnaldo Antunes, Marco Antônio Guimarães (Uakti) e José Miguel Wisnik, para compor para a dança. Nenhum deles havia composto para a dança. Acabava sempre sendo uma via de mão dupla. A ideia de se deixar influenciar é sempre mais rico. Foi fundamental para que a gente pudesse sedimentar uma arte brasileira e também universal. É um Brasil que fala para si e para o mundo”, finaliza Rodrigo Pederneiras.

SERVIÇO

  • O QUÊ: “Piracema” – 50 anos do Grupo Corpo. O programa traz “Parabelo”.
  • QUEM: Grupo Corpo
  • QUANDO: 13 e 14 de setembro, sábado às 20h30min e domingo às 19h.
  • ONDE: Teatro Fiergs (avenida Assis Brasil, 8787, bairro Sarandi, em Porto Alegre
  • COMO: Ingressos pela plataforma Sympla pelo www.sympla.com.br
  • DESCRIÇÃO DAS COREOGRAFIAS:

“PARABELO” [1997]

Duração: 42 min

Coreografia: Rodrigo Pederneiras
Música: Tom Zé e Zé Miguel Wisnik
Cenografia: Fernando Velloso e Paulo Pederneiras
Figurino: Freusa Zechmeister

Iluminação: Paulo Pederneiras

“PIRACEMA” [estreia]

Duração: 37 min

Coreografia: Rodrigo Pederneiras e Cassi Abranches
música: Clarice Assad
Cenografia: Paulo Pederneiras
Figurino: Marcelo Alvarenga e Susana Bastos
Iluminação: Paulo Pederneiras e Gabriel Pederneiras


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