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Entrevista com José Milton Vieira: da infância humilde a prêmios internacionais

Em entrevista ao Caderno de Sábado, o músico reflete sobre sua trajetória

José Milton Vieira, o Miltinho,  é um dos maiores trombonistas do Brasil, com prêmios nacionais e internacionais
José Milton Vieira, o Miltinho, é um dos maiores trombonistas do Brasil, com prêmios nacionais e internacionais Foto : Paloma Fantini / Divulgação / CP

Hoje ele é um dos maiores trombonistas do Brasil, com prêmios nacionais e internacionais. A realidade atual, porém, não reflete a vivida durante a infância humilde de José Milton Vieira, o Miltinho, na periferia de Brasília.

Desde 2006 ele atua como trombone solista da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre (OSPA) e é, até hoje, o músico mais jovem a obter nota máxima de todo o júri. É, também, o mais jovem a ocupar este cargo.

Em sua carreira, coleciona inúmeros prêmios internacionais, em concursos como o 26° Concorso Internazionale Città di Porcia (Italia, 2015) e Lewis Van Haney Philharmonic Prize Competition (Paris - ITF 2012). Também foi premiado pela melhor interpretação na peça comissionada “Is My Shoe Still Blue”, de Christian Muthspiel, na 64. Internationaler Musikwettbewerb der ARD (Alemanha, 2015).

Quem é José Milton Vieira?

Sou pai, marido, cristão e que ama fazer música.

Você nasceu no Maranhão, mas cresceu em Brasília. Como foi essa mudança e a sua infância?

Eu nasci em Imperatriz-MA, mas minha família se mudou para Brasília quando eu tinha apenas um ano. Cresci em Gama, cidade-satélite do Distrito federal. Tenho lembranças ótimas da minha infância, que vão das inúmeras peripécias que eu e meu irmão aprontávamos e deixávamos tudo na conta da nossa irmã, ao simples futebol na rua.

Quando eu tinha mais ou menos 10 anos, meu pai decidiu me colocar na Brigada de Bombeiros Mirins do Gama, para, dentre outras coisas, gastar um pouco da minha energia. Aprendi muito sobre os bombeiros, pois recebemos noções de combate a incêndios, ordem unida (a formação habitual de marcha), fazer nós em cordas e, até mesmo, decidas de prédios usando o rapel. Aliás, esta era minha parte preferida além do futebol no final do dia.

Conte um pouco sobre a sua trajetória na música?

Minhas primeiras influências musicais foram, sem dúvidas, meus pais. Mesmo eles não sendo músicos profissionais, ambos cantavam no coral da igreja. Meu pai, principalmente, gostava de cantar hinos como solista e cresci com estas referências. Meu sonho quando pequeno era cantar com eles no coral da igreja. Posso dizer que a semente do amor à música foi plantada em casa.

Em 1998 fui apresentado à banda do Corpo de Bombeiros do DF. Fiquei tão encantado que, no outro dia, já queria fazer parte da banda Marcial da Brigada. Sempre quis o trombone, mas não tinha um disponível e o mestre da banda me deu o que tinha, que era a Flauta. Fiquei um tempinho, mas o que eu queria era o trombone e fui atrás. Perturbei a vida do mestre. Ele me deu um Bombardino (similar a uma tuba, só que menor), por ser próximo. Na hora eu fiquei um pouco chateado, mas agradeço a ele, pois este instrumento me ajudou a entender melhor a embocadura e o uso da coluna de ar, por exemplo. Além disso, o Bombardino balançou um pouco meu coração, por causa de sua sonoridade, mas como o mestre via que eu estava decidido a tocar trombone, ele me entregou um assim que pôde. O mais engraçado é que eu queria tocar trombone por causa do instrumento em si e porque eu achava que seria mais fácil. Descobri cedo que eu estava errado.

Algum tempo depois, meu tio me levou para estudar música em uma igreja e tive minhas primeiras aulas de trombone com o trombonista da banda desta igreja. Paralelo a isso, na escola onde eu cursei da 6ª a 8ª série, tinha banda marcial e um excelente professor chamado Daniel, que me ensinou fundamentos importantes de teoria da Música e do meu instrumento. Ele sabia muito sobre o trombone, pois ele era amigo do professor Paulo Roberto da Silva, que poucos anos depois se tornou meu professor de trombone quando ingressei na Escola de Música de Brasília.

O Paulinho foi o responsável por eu amar de vez este instrumento e por ser um aficionado pela música como todo. Estudei com ele de 2002 a 2006. Em 2005, ingressei na Universidade de Brasília e estudei trombone com o prof. Carlos Eduardo, que foi tão importante quanto na minha formação.

Como foi sua entrada na Orquestra Sinfônica de Porto Alegre e fale sobre sua trajetória como trombone solista?

Em 2006, resolvi prestar o concurso da OSPA para primeiro trombone para testar os conhecimentos. Não tinha grandes ambições, pois era o meu primeiro concurso. Quando cheguei na prova, me lembro que foi um choque ver grandes trombonistas aquecendo, mas estava contente de poder estar ali. Fui o primeiro colocado com apenas 19 anos e confesso que fiquei em choque, incrédulo, quando vi o resultado, mas contente por ser parte dessa orquestra incrível.

Em paralelo, desenvolvo uma carreira de solista. Sempre gostei de me apresentar em recitais e tocar o repertório escrito para o meu instrumento. Nos últimos anos, tenho intensificado algo que fui descobrindo com o tempo que eu gostava, que era trabalhar diretamente com compositores comissionando novas obras para o meu instrumento. Além de uma contribuição ao repertório brasileiro e mundial do trombone, existe também o desafio pessoal de estar se superando, pois, cada peça nova aprendida, é uma técnica nova e/ou um entendimento global sobre a música que vai se acrescentando ao conhecimento. Honestamente, o que me motiva tocar como solista hoje é justamente este processo de aprendizado que é contínuo e viciante.

Você teve duas experiências distintas no Festival Internacional Sesc de Música em Pelotas, tanto como aluno quanto como professor. Como foi retornar, relembrar o início e ver até onde você chegou?

Estar como professor de um festival onde você foi aluno é algo incrível, ainda mais em um festival como o Festival Sesc de Música de Pelotas, que tem uma tradição já estabelecida no cenário internacional e que sempre proporcionou uma troca incrível com grandes artistas mundialmente conhecidos.

Aliás, muito do meu desenvolvimento enquanto músico se deu pelos inúmeros festivais que eu participei. Logo, por ter tido essa vivência como aluno em festivais, tendo a moldar minha pedagogia para ser o mais direto e objetivo com as necessidades que eles procuram em um pouco espaço de tempo. Festival é uma injeção de energia, que atinge não só os alunos, mas os professores também. Neste ano de 2024, por exemplo, pude ministrar aulas para uma classe talentosíssima de trombonistas. Sai do festival encantado com muitos deles e tranquilos com o futuro do nível do trombone no Brasil, pois está definitivamente muito bem encaminhado.

Como você vê o papel da educação musical na formação dos jovens?

Algo de extrema importância que deveria ser aplicado nas escolas desde os primeiros anos de vida. Nem todo mundo será músico, mas conhecimento musical molda pontos como gostos e sensações. Além disso, a música estimula muito a criatividade, o senso de coletividade e um conhecimento global sobre artes, filosofia, matemática e por aí vai. O impacto disso nos jovens é considerável. As minhas próprias filhas são um exemplo disso, inclusive, pois percebo que ambas têm uma boa performance na escola só por este estímulo criativo que a música proporciona. Em um mundo tão corrido, a música serve como uma espécie de oásis de calmaria. Isso sendo aplicado desde cedo, vai trazer inúmeros benefícios a sociedade.

Em uma frase, o que representa a música na sua vida?

Um presente de Deus para humanidade.

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