Arte & Agenda

Escritor finalista do Prêmio Jabuti lança livro que conecta Inquisição e Ditadura Militar

"A Dança da Serpente", de Paulo Stucchi, cria ficção contemporânea sobre a trajetória real de Luzia Pinta

“A Dança da Serpente” acompanha a história real de Luzia Pinta, mulher escravizada trazida de Angola, curandeira por meio dos rituais de calundu
“A Dança da Serpente” acompanha a história real de Luzia Pinta, mulher escravizada trazida de Angola, curandeira por meio dos rituais de calundu Foto : Editora Jangada / Divulgação / CP

O escritor e jornalista Paulo Stucchi, finalista do Prêmio Jabuti 2024 com “O Homem da Patagônia”, se prepara para lançar “A Dança da Serpente”, livro onde cria um romance histórico, com tons de ficção contemporânea, que entrelaça as vidas das gêmeas Cléo e Clarice e de Luzia. Tratam-se de duas narrativas separadas por quase dois séculos, ambas marcadas pela perseguição a mulheres com dons espirituais e de cura. A trama se passa em Sabará (MG) e conecta o Brasil colonial do século XVIII ao país sob o regime autoritário da Ditadura Militar em meados dos anos de 1970. A obra será lançada pela editora Jangada, a mesma pela qual o autor concorreu ao Jabuti há 2 anos.

Em uma das linhas temporais, “A Dança da Serpente” acompanha a história real de Luzia Pinta, mulher escravizada trazida de Angola, curandeira por meio dos rituais de calundu — um conjunto de cerimônias religiosas e de cura de origem centro-africana —, que conquistou a alforria em Sabará, mas foi deportada para Lisboa e condenada pela Inquisição Portuguesa. Na outra, ambientada em 1977, o foco recai sobre as irmãs gêmeas Cléo e Clarice, ligadas desde a infância por uma conexão espiritual incomum e estranhos dons.

Após uma tragédia, Cléo foge da cidade ainda jovem, tentando negar os dons herdados das mulheres de sua família. Onze anos depois, ela retorna a Sabará para reencontrar Clarice, que se tornara conhecida como a “Sacerdotisa de Sabará”, reunindo seguidores por Minas Gerais e despertando o temor das elites em plena Ditadura Militar. O reencontro força Cléo a confrontar seu passado traumático e buscar respostas para uma herança espiritual que atravessa gerações.

“A Dança da Serpente” investiga como o medo do desconhecido, em diferentes épocas, levou à marginalização e à punição de mulheres que desafiaram estruturas religiosas, políticas e sociais. Com uma narrativa crua, forte e comovente, Stucchi ilumina as vidas dessas mulheres, que se cruzam em um inevitável destino que as une através dos séculos em uma grande revelação. Intercalando ficção e fatos históricos com rara maestria, o autor descreve um mundo patriarcal que insiste em temer e punir mulheres fortes que são perseguidas por carregarem “a chama do sagrado” dentro de si, ao mesmo tempo que dialoga com a misoginia e o feminicídio dos tempos atuais.

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