A escritora Carolina Panta, natural de Porto Alegre, e vencedora de Narrativa Longa do Prêmio Açorianos de Literatura em 2024, com o seu romance “Falso Lago”, conquistou o primeiro lugar no Concurso Flip+Motiva, promovido em parceria com a Festa Literária Internacional de Paraty em sua 23ª edição. O evento foi iniciado na quarta-feira e segue até amanhã, dia 3 de agosto, tendo o poeta curitibano Paulo Leminski como o escritor homenageado.
Carolina foi selecionada entre 300 participantes de todo o Brasil e terá seu conto apresentado durante a programação da Casa Flip+Motiva, neste sábado, 2 de agosto, às 13h30, dentro da programação oficial da Festa, em Paraty.
Com o conto “Do lado de cá da fronteira”, Carolina transforma o luto pela perda do pai em uma travessia poética pela estrada e pela memória — uma história delicada e potente sobre como as ausências continuam a nos habitar. A narrativa é inspirada no verso “que toda viagem / é feita só de partida”, do poeta Paulo Leminski.
Carolina é autora de três romances, entre eles o mais recente “Falso Lago” (Editora Zouk, 2023), Também publicou “Dois Nós” (2019) e “Olivetti Lettera 32” (2022). Além disso, participou como escritora convidada em coletâneas de contos, como “Quebra-Ventres” (2023), Inveja (2024) e “Outono 19h” (2025), esta última com o conto “A Fome”, resultado da 40ª e última Oficina de Escrita Criativa do professor e escritor Luiz Antonio de Assis Brasil na PUCRS.
Carolina conta que descobriu o concurso quase por acaso, ao se deparar com o edital em uma rede social. “Como tantas coisas lindas da vida acontecem, foi passando os olhos por uma página literária em uma rede social que vi o anúncio e decidi enviar o conto. O sonho de estar na Flip como escritora me moveu nessa produção”, destacou Carolina.
“Os prêmios muitas vezes não reconhecem todos aqueles que produzem boa literatura, mas acredito que estes prêmios, tanto o Flip+Motiva quanto o Açorianos acabam alavancando a carreira que está bastante robusta em termos de produção. Eu me inscrevi neste concurso no último dia. Sou cria de editora independente de Porto Alegre e ir a Paraty é sempre muito difícil. Eu vi uma oportunidade e pensei porque nâo? Eu tinha um conto bastante desenvolvido para o meu novo livro “Lama Bruta”, que deve sair ainda este ano, em novembro, durante a 71ª Feira do Livro de Porto Alegre. E dei uma aproximada deste conto com aquilo que havia sido pedido. Quando entraram em contato para me falar do prêmio, eu achei que tinha sido mentira, que não podia ser”, rememora Carolina, lembrando que os prêmios dão o estímulo para continuar produzindo bastante a sua literatura.
Sobre a fronteira entre a vida e a morte e a transitoriedade da partida do pai e da fronteira com outro país, contidos em “Do Lado de Cá da Fronteira”, Carolina destaca que este conto é o mais próximo de autoficção que ela já fez. “Com este grande luto da perda do pai, eu pude estar em Paraty para falar de literatura
Segundo a autora, o conto fala sobre o que remanesce daqueles que partem. “Meu conto fala sobre a perda de um pai e sobre a maneira como os que partem continuam nos habitando. Uma presença que se espalha, silenciosa, pelos gestos de quem fica. No centro da história, um carro antigo percorre uma autoestrada em viagem sem volta, em um movimento irreversível de quem segue adiante, mesmo com o coração voltado para trás.” Para exemplificar o que a escritora tenta explicar, publicamos um pequeno trecho do conto:
“A autopista é uma cicatriz traçada entre os morros altos. Cicatriz como a que te dividiu o peito e por onde a mão do médico fez teu coração voltar por um instante a funcionar. Abriram teu corpo como se abriam estradas antigamente: na pressa, na urgência, no risco. Cortaram tua pele com bisturi feito pá, e tentaram reconstruir o que já não queria mais bater. Na emergência, vi teu pé balançar na maca de leve, como quem sonha com chão firme. E depois, nada. Teus dedos já estavam duros quando autorizaram minha entrada, e os lençóis, limpos demais. Me disseram, vai superar, mas não ficaram mais de dez minutos comigo na assinatura dos papéis ou na escolha entre pinus e mogno do teu receptáculo final. Me abraçaram mole, apertaram um pouco meus ombros e logo falaram da maré alta, das chuvas de maio”.