Arte & Agenda

Espetáculo aborda o doloroso fim de um relacionamento

“Encerramento do Amor”, versão brasiliense de obra de Pascal Rambert, chega a Porto Alegre

Cena do espetáculo que traz o término de uma relação do ponto de vista das partes envolvidas.
Cena do espetáculo que traz o término de uma relação do ponto de vista das partes envolvidas. Foto : Henry dos Anjos / Divulgação / CP

Após passar por São Paulo, Belo Horizonte, Recife e Salvador, “Encerrramento do Amor”, versão da Companhia Setor de Áreas Isoladas, de Brasília, para “Clôture de l'Amour”. de Pascal Rambert, chega a Porto Alegre. Dirigida por Diego Bresani, a montagem tem apresentações de hoje até a próxima quinta-feira, às 20h, na Sala Álvaro Moreyra (Erico Verissimo, 307). 

Encenada pela primeira vez no Festival de Avignon em 2011, a peça recebeu o Grand Prix de Literature Dramatique em 2012 e os prêmios de melhores Atriz e Autor no Palmarés du Théâtre 2013. Após a temporada francesa surgiram diversas versões, em diferentes culturas e línguas. Nesta releitura, a atriz Ada Luana viu na ousadia do texto não somente um dos maiores desafios que enfrentaria como intérprete, mas também a potencialidade das relações humanas. Tratar o tema de um amor que vive seus últimos suspiros diante do público, por meio de um duelo de palavras, lhe pareceu uma boa maneira de colocar em questão a nossa capacidade de escuta, diálogo, compreensão e acolhimento do outro. Questão essa que achou eloquência perfeita nos tempos que estamos vivendo hoje, no atual contexto político-social do Brasil. Ela sobe ao palco com João Campos e Taís Felippe, no texto traduzido por Marcos Vinícius Borja. 

Dentro de uma grande sala, uma mulher e um homem se falam. É ele quem começa a conversa. Ela escuta, atenta, e lhe responde com um segundo monólogo. Eles evocam sua separação, falam do antes e do agora. O dramaurugo não traz uma resposta pronta à questão: “Quem amamos quando amamos?”. Ele circula pelas possibilidades. E não nega os clichês dos quais se utilizam, pelo menos uma vez, aqueles que se separam, que procuram uma razão para o desamor, que revivem suas memórias, as embelezando antes de destruir tudo com algumas frases assassinas. O rio ininterrupto de palavras, as questões-respostas que se ligam, a respiração contida em uma espécie de maratona entre o medo e a libertação: é aqui, no coração deste momento doloroso, que Rambert nos coloca. Na brutalidade de um verbo onipresente, no rigor inacreditável de uma escrita fria e mortal se manifesta um combate impiedoso. Ele ataca e Ela deve lutar contra o desaparecimento que ele quer lhe impor. Eles têm armas iguais, mas não as utilizam da mesma maneira. Há o masculino e o feminino. São dois olhares, dois silêncios, dois discursos para dizer a violência de um amor que morre.

A pesquisa do diretor, ator e fotógrafo Diego Bresani e dos atores Ada Luana e João Campos sobre a narrativa se debruça sobre o verbo e a escuta como elementos na construção da narrativa. O formato contemporâneo proposto - uma discussão que precede o fim de um relacionamento onde apenas uma pessoa fala ininterruptamente, em dois rounds separados por um breve número de sapateado – remete o espetáculo a uma intensa paisagem sonora. A distância entre os corpos em cena, a limpeza e simplicidade do figurino e cenografia e a iluminação fria reforçam e conduzem o foco ao trabalho dos atores, ao ato de falar e de ouvir. A estreia da peça ocorreu há cinco anos, no Festival Internacional de Brasília Cena Contemporânea e em 2019 participou do FTB - Festival do Teatro Brasileiro , em Recife. Recentemente iniciou turnê brasileira. 

 

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