No palco, o drama das mulheres de Troia, entregues aos vencedores como escravas. Os gregos, vitoriosos, desejam partir de volta a sua pátria, mas as embarcações ficam retidas por falta de ventos favoráveis. Então aparece o fantasma de Aquiles aos gregos, clamando que seja sacrificada sobre seu túmulo a virgem Polixena, que prefere a morte à escravidão.
Ela é filha de Hécuba com o rei Príamo, com quem teve 50 descendentes, segundo o mito, número contestado por fontes. Ainda sofrendo a dor de perder sua filha, a rainha descobre nos preparativos de seu funeral que o outro filho, Polidoro — enviado a um reino vizinho para ser salvo — foi morto no mesmo dia. A partir de então, passa a tramar uma vingança sangrenta: atrai Polimestor à sua tenda, onde ela e suas companheiras de cativeiro matam os filhos do anfitrião traidor e arrancam seus olhos.
Cego e desesperado, ele revela que o oráculo de Dionísio previra a transformação de Hécuba numa cadela de olhos flamejantes, antes de morrer, lançada ao mar pelos ventos. “Eurípedes, em todas as peças que escreveu, sempre se posicionou contra o imperialismo grego, contra as guerras expansionistas nas quais os gregos estavam se envolvendo e que provocariam sua decadência. Ele não fala dos heróis da guerra de Troia, mas dos perdedores, das troianas que se tornaram escravas dos gregos.
Nesse sentido, Hécuba pode ser considerada um libelo contra as guerras, antigas e atuais. Sempre penso em todas as Hécubas perdedoras das nossas guerras modernas, como no Iraque ou no Afeganistão, por exemplo, que também perderam tudo numa guerra que não era delas”, diz Walderez. A atriz trabalhou com Vilella em “Fausto Zero”, de Göethe, que em suas direções sempre imprime forte marca pessoal, baseada na cultura popular brasileira,
presente nas cores do figurino usado pelo coro e demais personagens, com exceção da protagonista, que se encontra em luto.