Arte & Agenda

Espetáculo “Água Redonda e Comprida” traz cosmovisão do povo Kaingang e sua relação com a água

Apresentação parte do Festival Palco Giratório deu voz e corpo ao movimento das águas

Projeto tem direção geral de Geórgia Macedo, que divide a cena e a criação das coreografias com a bailarina Nayane Gakre Domingos, adolescente indígena Kaingang
Projeto tem direção geral de Geórgia Macedo, que divide a cena e a criação das coreografias com a bailarina Nayane Gakre Domingos, adolescente indígena Kaingang Foto : Dani Berwanger / Divulgação / CP

O mundo já acabou uma vez. Foi quando a terra, entristecida com as atitudes dos mais antigos, deixou o céu desabar sobre suas cabeças vindo uma grande chuva, uma grande tempestade. Naquela época, os Kaingang já moravam em suas casas subterrâneas. E foi assim que dois deles se salvaram. Eles ficaram lá dentro e sobreviveram a essa grande enchente. Foi a terra quem guardou. Quem fortaleceu eles. Quando eles estavam prontos, saíram cada um para um lado. Onde o sol nasce, saiu Kamē. E onde o sol se põe, saiu o Kainhru. Foi assim que ganharam as marcas. Kamē ao lado do sol, que é a marca comprida. Kainhru ao lado da lua, que é a marca redonda. Quando eles saíram, o mundo já não era mais como antes.

O trecho da história contada acima abriu o espetáculo “Água Redonda e Comprida”, apresentado na última sexta-feira, dia 1º, no Sesc Alberto Bins, na programação do Festival Palco Giratório. O espetáculo carregou o mote de mergulhar no universo das águas na cosmovisão do povo Kaingang, etnia indígena no Rio Grande do Sul.

O projeto tem direção geral de Geórgia Macedo, bailarina contemporânea que divide a cena e a criação das coreografias com a bailarina Nayane Gakre Domingos. A adolescente indígena Kaingang de 11 anos é filha de Angélica Kaingang, que assina a orientação do espetáculo ao lado de Iracema Gãh Téh Nascimento.

O espetáculo buscou contar como surgiu a relação das águas para o povo Kaingang e essa complementaridade do elemento junto à etnia. Para o povo, a água é mais do que uma questão existencial, mas de espiritualidade. "A gente acredita que a água é uma existência, é uma vida. E a ela a gente precisa ter respeito e reciprocidade. Porque além dela nos proporcionar todo esse bem que ela nos traz, ela também pode trazer coisas ruins, consequências, principalmente relacionado a tudo que a gente fizer sobre ela", explica Angélica.

Esse mergulho acontece no universo das águas goj tej, denominadas águas compridas, que formam os rios e pertencem à metade Kamē; e das águas goj ror, que são as águas redondas, nascentes, à metade Kairu krē – as águas que brotam. “Elas precisam uma da outra para se complementarem”, ela sintetiza.

Ao longo de toda a apresentação, a sonorização era contemplada por barulhos de água e sons de animais. O jogo de luzes azuis neon simbolizava a água como um sagrado e parte da vida, com materiais e imagens coreográficas fluidas, redondas e compridas. Em narrativas de movimento, luz e som, o enredo da apresentação demonstrou a força e leveza das águas goj tej e goj ror, com base em histórias do povo Kaingang, muitas delas contadas pela cacica Iracema. Por meio de brincadeiras, jogos e dança, a dupla no palco fluia por todos os lados do palco com leveza, como as águas.

“Água Redonda e Comprida” foi idealizado por Geórgia Macedo, que, além de bailarina, é mestra em antropologia. A ideia, porém, é debatida desde 2015, quando Geórgia conheceu Angélica e fazia uma pesquisa em relação ao aos povos indígenas no ensino superior. Em 2022, Geórgia vinha fazendo trabalhos relacionados à cosmovisão e percepção dos Kaingang em relação à água. Em conversa, juntas aliaram a ideia de unir a dança junto ao universo das águas para o povo. Por meio de um edital organizado pelo Instituto Goethe, foi estreado o primeiro espetáculo naquele mesmo ano. A apresentação já passou também uma temporada no Rio de Janeiro, em junho deste ano, e ainda passará pelo Ceará em janeiro do ano que vem.

Apesar de elementos tradicionais dos povos Kaingang, a dança contemporânea perpassa o espetáculo. “A dança contemporânea vem em uma reatualização da nossa existência. Principalmente trazendo a nossa cosmovisão, a nossa cosmologia de vida relacionada à água”, diz Angélica. “Eu acho que é uma inovação para nós, para o mundo dos Kaingang, estar atualizando a nossa existência através da arte, da dança. Mas também é uma inovação propriamente para dança, para a arte, para o teatro, trazer uma outra forma de conhecimento”, reflete.

O espetáculo também traz a conscientização sobre a conservação, proteção e a importância da água, que tornou-se mais representativa para a sociedade em tempos que os desastres climáticos estão mais frequentes. “Será que a gente consegue estabelecer uma relação de respeito e reciprocidade com as águas?”, questionou Angélica em fala no final do espetáculo.

*Sob supervisão de Luiz Gonzaga Lopes

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