Arte & Agenda

“Estas músicas são um baú de pepitas”, afirma Mônica Salmaso

Cantora paulistana apresenta o show "Corpo de Baile" nesta sexta e sábado, no Theatro São Pedro

Mônica Salmaso: dependendo de shows, artistas têm mais responsabilidade de formar e manter o seu público
Mônica Salmaso: dependendo de shows, artistas têm mais responsabilidade de formar e manter o seu público Foto : Dani Gurgel / Divulgação / CP
Para comemorar os 20 anos de carreira discográfica desde "Afro-Sambas" (1995), a cantora  paulistana Mônica Salmaso realiza turnê por seis capitais brasileiras que tem como tônica dominante as músicas do CD "Corpo de Baile", lançado em 2014. Definido por Mônica como uma dádiva, um baú de pepitas deixado pelos compositores Guinga e Paulo César Pinheiro, o CD rendeu à intérprete o troféu de Melhor Cantora de MPB (foram quatro indicações - cantora, CD, canção e arranjador) do 26º Prêmio de Música Brasileira, entregue no dia 10 de junho, o disco tem 14 canções compostas em parceria por Guinga e Paulo César Pinheiro – várias inéditas e muitas delas guardadas há 40 anos – reunindo uma gama variada de músicos e arranjadores.

E é este repertório que Mônica vai mostrar nos shows previstos para sexta, 24, às 21h, e sábado, 25 de julho, às 20h, no Theatro São Pedro (Praça da Matriz, s/nº), no Centro Histórico da Capital. O projeto aprovado na Lei Rouanet conta com o patrocínio do Bradesco e chega a Porto Alegre depois de passar por São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. Segue no dia 26 para Curitiba e em setembro para Belo Horizonte.

O disco, que foi bem recebido pela crítica, ficou 10 anos com Mônica como um projeto a ser concebido. As cores das composições foram dadas pela escolhas dos músicos, do naipe instrumental e também dos diferentes arranjadores. Dori Caymmi, TiagoCosta, Nailor Proveta, Teco Cardoso, Luca Raele, Nelson Ayres e Paulo Aragão assinaram os arranjos das 14 músicas. No repertório das duas noites em Porto Alegre, estão "Bolero de Satã, gravada por Elis Regina no disco "Essa Mulher", além das valsas "Nonsense", à moda francesa; "Corpo de Baile" (à brasileira); a marcha "Rancho das Sete Cores"; à moda de viola "Violada" e o fado moderno "Navegante' e a canção eivada de cultura indígena, chamada "Curimã".

Para o show, Mônica convidou o cineasta e fotógrafo Walter Carvalho para fazer um vídeo cenário e terá com nove músicos no palco: Teco Cardoso nos sopros e direção musical, Nailor Proveta(clarineta e saxofones), Paulo Aragão (violão), Nelson Ayres (piano e acordeon), Neymar Dias (contrabaixo e viola caipira); além do Quarteto de Cordas Carlos Gomes: Cláudio Cruz (violino), Adonhiran Reis (violino), Gabriel Marin (viola) e AlceuReis (cello). A projeção do vídeo cenário (que acontece em um tule transparenteentre a platéia e a cantora com os músicos), interage com a música. Ingressos para o show podem ser obtidos na bilheteria do TSP, pela tele-entrega 3231.4142 ou pelo Ingresso Rápido.

Em entrevista ao Correio do Povo, Mônica fala do disco, do show, dos projetos e de como ela vê o atual momento da música, no qual os shows são mais foco do que propriamente os discos e registros em estúdio.

CP - Como você explica a aura que gira em torno deste disco "Corpo de Baile"?
Mônica Salmaso - Este disco foi um presente que estava comigo há 10 anos, desde que eu recebi um CD reproduzindo o material de fita cassete da parceria entre o Guinga e o Paulo César Pinheiro. A dupla se desfez e este material estava por aí. Eu não sabia o que fazer com o material. Era um baú de pepitas, diamantes, uma dádiva, um tesouro no qual eu precisava colocar cores. Levei um susto, mas logo encontrei os arranjadores, muitos músicos que já trabalhavam comigo. Era como se eu estivesse esperando todo este tempo para gravá-lo, pois aí a densidade que eu queria veio com o Dori Caymmi, TiagoCosta, Nailor Proveta, Teco Cardoso, Luca Raele, Nelson Ayres e Paulo Aragão, que assinaram os arranjos. Fiz o disco mais recheado de instrumentos, arranjadores e músicos da minha carreira.

CP - E sobre as canções. São tantos arranjos inspiradíssimos. O que destacar?
Mônica - Achei que era o caso de regravar o "Bolero de Satã", pois não era inédita, foi conhecida com a Elis Regina, mas havia músicas que eram de 40 anos como "Fim dos Tempos", que o Guinga e o Paulinho compuseram quando tinham uns 18 anos. "Navegante" era um fado moderno. Não sei a história da música, mas parece estou vendo o Guinga tocando o violão como um bandolim e o Paulinho fazendo a letra: Canoa / a paixão é uma canoa / Com meu coração na proa / A serviço da coroa / Da minha alma que é Lisboa, ai / Navegador". E tem também "Nonsense", cuja letra em português fala de suicídio, mas conseguimos dar um tom sem sentido, afrancesando foneticamente as estrofes, conseguindo coisas como "Um verso em mim que geme", que vira "Une verse ami que j´aime", algo como um "um amigo em verso que eu amo". A Miucha que sabe muito francês me ajudou a encontrar o tom desta interpretação.


CP - Você parece sempre querer se desafiar. Quando parece que a carreira segue tranquila, surgem um baú de 40 anos. O que é isto que te move a mudar sempre?
Mônica -
É o desafio, não se acomodar. Quando me deparei com as músicas do Guinga e do Paulinho, eu pensei que absurdo isto, este tesouro, e agora? Mas aí deixei o tempo passar, pensei nos arranjadores, nos músicos. O meu brinquedo é a autoria de intérprete. Eu não componho, mas o meu estímulo está na forma de conceber os arranjos, em trabalhar a minha autoria de cantora, na forma de apresentá-las. E parece que mais este desafio deu certo. Isto é o que me diverte. Tive 10 anos para chegar a este resultado e acredito que conseguimos algo especial.

CP - E esta turnê vai se ater a estas seis cidades ou segue pelo Brasil e Europa?
Mônica -
A intenção é ampliar o número de cidades. Estou totalmente envolvida na turnê. Por isso, não tenho nenhum projeto novo. Conseguimos patrocínio pela Lei Rouanet e assim garantimos ingressos de 40 reais. Só que é uma empreitada grande. São 16 pessoas viajando, nove músicos, além de mim. Tem muita coisa de escritório, notas, relatórios, estas coisas que consomem também tempo e energia. Mas queremos levar para todo o Brasil e também para fora do país.

CP - E sobre o Rio Grande do Sul?
Mônica -
O Rio Grande do Sul tem um mercado próprio. Muitas coisas deste estado não chegam lá em São Paulo. O Brasil é grande demais. Eu tenho grandes amigos no Sul e algum acesso aos seus novos trabalhos. Uma pessoa que convidei especialmente para o show foi o Luis Fernando Verissimo, que além de grande escritor, é também um belo saxofonista.

CP - Como você analisa esta volta dos músicos a apostar mais no ao vivo, nos shows em detrimento do registro em CD, das gravações?
Mônica -
Agora a gente vive basicamente dos shows. A primeira metade da minha carreira ainda foi de investir nas gravações, nos CDs e DVDs, parcerias. Depois ocorreu a queda, a pirataria e aí as músicas começaram a ser vendidas, downloads, streaming. Nossas músicas são bem baixadas. Infelizmente, o CD está em crise, pois o disco tem todo o projeto gráfico, as letras, o livreto, os agradecimentos, o material fotográfico, é um produto que é uma obra de arte e isto acaba se perdendo pelos meios virtuais. Atualmente, os cantores, cantoras, músicos viraram vulneráveis a ser coletâneas. Para mim, não é ideal, mas por outro lado o artista tem mais responsabilidade pela criação de um vínculo, formar e manter o seu público, que é o que eu faço desde que comecei a cantar. Quem não conquistou o seu público, está numa situação difícil, pois depende de rádios, de colocar música em novela ou de um esquema para ter público em larga escala, mas de forma que pode ser descartável.

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