Admirado pelos livros que escreve e respeitado pelas posições políticas que adota, o israelense Nir Baram foi uma das estrelas que passou pela 60ª Feira do Livro de Porto Alegre no início da semana. Filho e neto de políticos de destaque de governos passados de seu país, Baram encontrou na literatura uma forma de aproximar o cidadão do escritor com posicionamentos fortes em seus livros, como é o caso de "Boas Pessoas" (Alfaguara), autografado na Feira. O romance retrata a vida e as escolhas de homens e mulheres, personificados no alemã Thomas Heiselberg e na judia russa Aleksandra Vaisberg, que decidem sobreviver a qualquer preço na Europa durante a Segunda Guerra Mundial.
Nir Baram estudou literatura na Universidade de Tel Aviv, foi editor e escreve para jornais. Crítico do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, a quem acusa de levar Israel a um funil irracional, Baram denuncia mentiras, absurdos e contradições de políticos do seu país, que confundem invasão com tolerância e agressão com defesa. Em 2006, foi uma dos que exigiu o cessar-fogo na Guerra do Líbano.
Além de “Boas Pessoas”, Baram é autor de outros três livros: “Purple Love Story”, “The Remaker of Dreams” e “Mundial Sombra”, lançado em 2013. O jornal Frankfurter Allgemeine afirmou sobre o autor: “muito provavelmente, Dostoievski escreveria assim se vivesse hoje em dia em Israel”. Em entrevista, o autor afirma que acredita em mudanças radicais, no Holocausto pela perspectiva universal e que já leu João Gilberto Noll e Clarice Lispector:
Correio do Povo - Existiriam personagens como Aleksandra Vaisberg e Thomas Heiselberg, os dois resistentes do seu livro “Boas Pessoas” nos dias de hoje?
Nir Baram - Eu queria entender o mecanismo da colaboração, o mecanismo das pessoas que acreditam em uma coisa que está além das forças. É muito interessante que não somente a respeito da Segunda Guerra Mundial, mas também de nossa geração ao redor do mundo, porque eu vejo muitas pessoas que vendem forças, como é o caso do capitalismo. Eles não acreditam neles. Eles querem a riqueza das corporações. Não acreditam nesta premissa. Eu quero entender esta relação entre o individual e todas as forças burocráticas do governo. As pessoas vão ao redor do mundo e encontram diferentes forças. É um livro de encontro entre o indivíduo e as diferentes forças que sempre vão encontrar pelo mundo.
Correio do Povo - Os críticos chamam você de o Dostoiévski dos tempos modernos, por causa da sua profunda compreensão do ser humano? O que você acha disto?
Nir Baram - Um jornal de Frankfurt me chamou assim (Frankfurter Allgenmeine). Obviamente, eu li os livros de Dostoiévski e fui editor de uma de suas novelas in Hebreu, O Duplo. Eu não vejo nenhuma semelhança entre nós. Ele é um grande escritor e eu estou apenas começando em minha carreira literária, mas o tema principal de Dostoiévski sempre foi a condição humana de um modo psicológico, o encontro do indivíduo com as diferentes forças que eu lhe falava antes. Ele é um romancista que influenciou o modo como eu entendo os romances. Eu cresci em Israel e minha mãe tinha um amor devotado aos clássicos russos. Eu cresci em meio à literatura russa. Minhas primeiras experiências literárias foram os clássicos russos, de Dostoiévski, Varlam Shalamov, Platonov e outros do século XX.
Correio do Povo - Qual a sua posição em relação à política externa de Israel?
Nir Baram - Em Israel, eu escrevo artigos, demonstro minhas posições políticas também na TV, pois eu acho que é importante. Eu sou muito crítico do atual política de aproximação de Israel com os países vizinhos. Eu penso que os direitos devem ser iguais para israelenses e palestinos. É a coisa mais importantes que eu persigo. Todos os cidadãos são verdadeiramente iguais. Eu sou contra qualquer tendência de superioridade judia. Eu não acredito que o governo atual queira realmente os direitos iguais. Eu não acredito em uma paz. Eu penso que Israel precisa mudar urgentemente o regime. O governo eleito precisa criar um estado com igualdade para todos. E na última guerra em Gaza, eu fui muito crítico deste militarismo naquela faixa, porque eu sei que Israel usou a força militar e poder, ao invés de correr riscos para conquistar a paz. Eu estava muito envolvido nesta discussão. Na primeira vez em minha vida, eu até me senti ameaçado pela sociedade israelense, pela muito patriótica, que repete muito o modelo da sociedade americana. É muito difícil se opor a este militarismo. Era um sentimento que eu nunca tinha experimentado.
Correio do Povo - E sobre a queda do Muro de Berlim, que completou 25 anos e a Noite dos Cristais, que completou 76, o que você tem a dizer?
Nir Baram - O livro "Boas Pessoas" começa na Noite dos Cristais em 9 de novembro de 1938, quando os judeus começam a ser perseguidos e as sinagogas e lojas são destruídas na Alemanha. É importante lembrar o que aconteceu na Alemanha, não só para os judeus como para todas as pessoas. Eu não acredito em lições do Holocausto somente a partir dos judeus. Eu acredito em lições universais do Holocausto. A lição básica do Holocausto é dizer sempre não ao racismo. A queda do Muro de Berlim é um importante dia também em Israel. Inaugurou uma nova fase na Europa. As pessoas me perguntam como os israelenses e palestinos chegaram à paz, porque lutaram uns contra os outros durante muito tempo. Eu respondo: olhem os alemães e franceses, eles se mataram uns aos outros durante décadas, mais do que qualquer israelense e palestino poderá matar um ao outro nos próximos mil anos. Eles ainda estão criando uma nova sociedade na Europa. Grandes mudanças devem acontecer ao longo da histórias. Alguns não acreditam em mudanças radicais. Eu sempre acredito em mudanças radicais, porque grandes mudanças aconteceram no século XX.
Correio do Povo - Você conhece ou lê algum escritor brasileiro?
Nir Baram - Eu li recentemente João Gilberto Noll. “Bandoleiros”, em hebreu. Eu leio autores mais clássicos do Brasil, eu sempre leio Clarice Lispector. Eu dei dois seminários sobre Clarice Lispector na Universidade, mas atualmente estão sendo publicados em Israel vários autores da nova literatura brasileira, como Noll. Eu me interesso por muitos autores brasileiros. Eu leio muitos autores latino-americanos, da Argentina, Chile, México, como Jorge Volpi, Cesar Aira, Arturo Azuela, Roberto Bolaño, Julio Cortázar, Jorge Luis Borges. Eu leio muitos autores da boom generation. Eu editei o livro de Adolfo Bioy Casares em Israel, "A Invenção de Morel". Eu editei esta obra em e-book. Acho que a literatura latino-americana como um todo é muito interessante.
“Eu acredito em mudanças radicais”, afirma escritor israelense
Nir Baram passou pela 60ª Feira do Livro, lançou “Boas Pessoas” e falou com o Correio do Povo