Promover o contato grupal para enaltecer a arte e a cultura em um espaço público. Em tempos em que tecnologia parece introduzir uma forma individualista de relacionamento, é curioso notar que os eventos de rua, cada vez mais comuns nos parques, praças ou avenidas de Porto Alegre, estejam atraindo tantos adeptos nos últimos meses.
Em abril, por exemplo, a “Serenata Iluminada”, que aconteceu no parque da Redenção com números teatrais e musicais de artistas independentes, atraiu cerca de dez mil pessoas no local, em pleno sábado à noite. As feirinhas diversas ao ar livre oferecendo desde brechós a ambientes dedicados à outra sensação, os food trucks, também conquistaram seu espaço (ou espaços, no plural mesmo, já que elas podem ocorrer em qualquer lugar) e entraram na rotina da agenda cultural da cidade.
A “Me Gusta” é uma dessas opções que se apropriou do formato oferecendo mensalmente barraquinhas de roupas, vinil, livros, artesanato, tudo na rua. A feira já está chegando na sua sétima edição e pulou de 600 para sete mil visitantes desde a sua estreia.
“A nossa cidade está passando por um momento único de efervescência cultural e artística, que resulta nessa vontade de troca de experiências e, consequentemente, em uma mudança no comportamento das pessoas”, afirma Pamela Morrison, uma das idealizadoras da feira, que também credita à falta de espaços democráticos e acessíveis na Capital para despertar o interesse pelos eventos ao ar livre.
E, de fato, esse pode ser um dos motivos pelos quais esses movimentos acabaram caindo no gosto de muita gente. “A noite em Porto Alegre está cada vez mais cara e eu estava cansada das mesmices das festas. Se reunir na rua é de graça, é uma forma original de se divertir e tem gente de todas as idades”, conta a estudante Nathalia Kurtz, que há dois anos trocou as baladas fechadas pelo clima livre dos parques e calçadas. Pelo Facebook, a jovem de 24 anos acompanha a programação e busca as opções, que chegam até cinco por final de semana, e vão de festivais de hambúrgueres a feiras de artesanato.
A microempresária Sônia Moraes, 42 anos, é outra que já está bastante acostumada com a agenda sempre cheia de eventos deste porte e, de quebra, aproveita para levar os dois filhos, de 7 e 10 anos. “Me identifico muito com a ideia, é uma forma de valorizar os espaços públicos da cidade e trocar experiências com os frequentadores”, afirma. Para os próximos dias inclusive, tanto a agenda da Nathalia, como a da Sônia, estarão repleta de alternativas: neste sábado elas poderão conferir a estreia do “SideWalk Market”, evento inspirado na contracultura californiana que está programado para acontecer no bairro Moinhos de Vento. No domingo, uma dupla: mais uma edição da “Me Gusta” ou o evento gastronômico “Food Party”, ambos na Cidade Baixa.
Para a jornalista Katia Suman, que participa ativamente dessas ações, o momento se configura como uma retomada aos hábitos dos porto-alegrenses das décadas de 60 e 70, quando Porto Alegre tinha uma relação e estrutura amigáveis com o pedestre e muita coisa acontecia na rua. “Morei a minha infância inteira na Cidade Baixa, onde os vizinhos se conheciam, conversavam, um visitava o outro. Na minha adolescência eu e meus amigos atravessávamos a cidade caminhando, fazíamos tudo a pé”, recorda.
Se nas décadas seguintes, como a jornalista avalia, o desenvolvimento das ruas cada vez mais pensadas para os carros e a chegada dos shopping centers à Capital acabaram embaçando o hábito das pessoas de olharem o lado de fora de casa com outros olhos, o que se nota hoje é justamente o oposto. “Esses movimentos, me parece, buscam recuperar o espaço público da cidade, transformá-lo de novo em ambiente de encontro, de trocas sociais, de convívio. Os jovens de hoje não querem mais viver intramuros”, analisa Katia.
Mas por que as pessoas estão voltando para as ruas justamente no auge desse momento tecnológico, onde a interação é muito forte através de redes sociais? Para o sociólogo Thales Speroni, o antagonismo entre as duas formas de relação, na verdade, se complementam. “A internet não significa, necessariamente, um fechamento ao outro, antes disso ela garante a possibilidade de se estar em contato permanente com um grande grupo de pessoas”, afirma. Para ele, o formato desses eventos e como eles se organizam, se assemelham muito ao caráter aberto das comunidades e grupos virtuais, procurando quebrar esse círculo vicioso de interação digital por meio da ocupação das ruas. “Neste sentido, me parece que esse movimento representa uma transferência da lógica aberta do virtual para o cotidiano real”, conclui.
Abaixo, os próximos eventos de rua programados em Porto Alegre (todos com acesso gratuito):
Sábado, dia 16, das 14h às 21h:
SideWalk Market – Inspirado nos elementos circenses da contracultura californiana, a estreia do evento, que será itinerante, vai promover intervenções artísticas, exposições e moda, além do show da banda de folk Acústico Gelpi.
Onde? Pátio Ivo Rizzo, esq. das ruas Padre Chagas e Félix da Cunha.
Domingo, dia 17, das 15h às 22h:
Me Gusta – Sétima edição da feira ao livre que oferece roupas de marcas independentes, acessórios, brechós, LPs, livros e food trucks. Desta vez, os números musicais ficarão por conta de Júlia Franz, Malik, Maestro Sujo e o Sanatório Gotham e Os Palas.
Onde? Travessa do Carmo, entre a José do Patrocínio e a João Alfredo.
Domingo, dia 17, das 12h às 22h:
Food Party – Sexta edição do evento promovido pelo Comida de Rua, que oferece diversas opções gastronômicas além de bebidas artesanais, música e arte na rua.
Onde? Rua da República.
Domingo, dia 24, das 14h às 21h:
Festival da Boa Vizinhança – A terceira edição do festival, que promove a celebração da cultura e da relação das pessoas com o espaço publico, vai contar com apresentações artísticas, música, moda e fotografia. Além disso, no local será colocada uma grande mesa onde todos poderão levar os seus quitutes para compartilhar.
Onde? Rua Gonçalo de Carvalho.
Eventos de rua se consolidam e entram na rotina de Porto Alegre
Com cada vez mais adeptos, feiras mesclam moda, arte e gastronomia ao ar livre