O gaúcho Cesar Rodrigo dos Santos é mestre em biologia, taxidermista e especialista em aves. Entre 2002 e 2017, viajou em aviões da Força Aérea Brasileira (FAB) e navios de apoio à pesquisa para conhecer o continente mais frio e seco do planeta, a Antártica. Embarcado com uma equipe de mais três colegas, Cesar participava de um estudo, como pesquisador da Unisinos, sobre o comportamento das aves e os impactos das mudanças climáticas nas dinâmicas destes animais. O projeto era viabilizado por um edital de incentivo à pesquisa do Governo Federal, por meio do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Antártico de Pesquisas Ambientais (INCT APA), com o apoio da Marinha do Brasil.
Agora, os registros dessas aventuras se transformaram em um livro fotográfico. Intitulado “Expedições Antárticas”, o livro ganhou uma exposição fotográfica no Chalé da Praça XV, em Porto Alegre, com entrada aberta ao público de 1º a 20 de novembro. A visita é uma oportunidade válida para aqueles que têm curiosidade de conhecer a Antártica e saber mais sobre os desafios da pesquisa científica no continente.
No período das viagens, Cesar chegou a ficar quatro meses baseado na Ilha Elefante, um terreno montanhoso coberto de gelo, localizado ao largo da costa da Antártica, no oceano Antártico. Nesse pedaço de território britânico na Antártica, o Brasil possui dois refúgios, Goeldi e Wiltgen, cada um abrigando o trabalho de até seis pesquisadores durante o verão.
Os acampamentos não possuem sinal de internet ou de telefone. O sinal de internet só era possível no navio. “A única coisa que temos lá no acampamento é um gerador de energia que ligamos às 21h para passar um rádio para o navio. Se der algum problema ou um pesquisador estiver passando mal, o navio consegue mandar um resgate. Todo dia fazíamos contato com o navio e o navio passava as notícias do mundo inteiro para nós. Lembro quando morreu o papa João Paulo, foi algo marcante para mim”, conta.
Cesar dos Santos tem a fotografia como hobby e registrou diversos momentos dessas expedições ao longo dos anos. “A Antártica é um lugar bem difícil de trabalhar, quem manda é o clima. Se estivesse nevando muito forte, não podíamos ir (a campo). Tinha que ir de helicóptero, por exemplo, e o helicóptero não pode estar nevando muito para fazer pouso. Se estivéssemos em uma estação, podíamos ir a pé, mas se tivesse vento muito forte, não conseguíamos ir. Às vezes ficávamos 4 ou 5 dias dentro da estação, do navio ou do refúgio, porque não tinha como sair para fazer os estudos”, relembra Cesar.
Uma história atravessada pela falta de investimento em pesquisa
Cesar entrou na Unisinos em 1998 para cursar biologia, foi assistente de pesquisa, cursou mestrado e seguiu como professor dentro da universidade. Mas em meados de 2020, foi demitido junto com vários outros professores e funcionários, como parte de um corte de gastos da universidade. Dois anos depois, a Unisinos veio a encerrar quase metade dos seus programas de pós-graduação, incluindo o programa do curso de biologia.
Afastado da carreira acadêmica, Cesar precisou recomeçar. Depois de tentar, sem sucesso, ingressar em órgãos ambientais como o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) por meio de concursos públicos, surgiu a ideia de viver um sonho de infância e trabalhar como caminhoneiro, assim como o pai.
“Sempre gostei de dirigir, estou gostando, realizando um sonho praticamente”, conta o biólogo, que agora trabalha com transporte de cargas para estados como São Paulo, Rio de Janeiro e Mato Grosso. Sem se desconectar da biologia, Cesar leva uma bicicleta atrás do caminhão e, nos intervalos das viagens, faz passeios de campo para observar aves e animais das regiões por onde passa.
A nova realidade é desafiadora. “Estando no caminhão tu vê os perigos da estrada. Cada viagem é no mínimo dez acidentes que vejo. As pessoas também julgam o caminhoneiro como uma pessoa desprezível normalmente. Mas na verdade acredito que prestamos um grande trabalho”. Mesmo com as adversidades, Cesar se sente vivendo um sonho e quer procurar empresas que fazem rotas para o sul da América do Sul. “Eu sou um cara do frio, sou acostumado. Quero procurar uma empresa que faça Chile, Argentina, Uruguai. Gosto de neve, vai ser minha rota para o futuro”, salienta.
Expedições antárticas: biólogo compartilha viagens ao continente gelado em livro fotográfico
Como adquirir o livro
“Expedições Antárticas” está disponível para venda na Livraria No Pátio (Avenida São Borja, 97 – Rio Branco), em São Leopoldo; na Infinity Livros & Ideias (Feevale Campus II – Vila Nova), em Novo Hamburgo e na Livraria Taverna (R. dos Andradas, 736 – Centro Histórico), em Porto Alegre. Para tornar o projeto acessível e inclusivo a todos os públicos, o livro também está disponível no formato EPUB, para pessoas cegas ou com baixa visão. Basta enviar um e-mail para contato@simplesassim.art.br, solicitando o formato. Também é possível adquirir a obra através do site oficial.