A visão de dez artistas latino-americanos e europeus do bicentenário de Independência da América Hispânica pode ser conferida na exposição "Menos Tempo que Lugar", com abertura hoje, 19h, na Usina do Gasômetro (João Goulart, 551), em Porto Alegre. A seleção de videoinstalações ganhou curadoria-geral de Alfons Hug. Inspirada num poema de Mario Benedetti, a mostra reflete sobre a data celebrada em 2010 na Argentina, Colômbia, no México e Chile.
Segundo o curador, a exposição é, por um lado, uma cartografia que obedece a uma dramaturgia geográfica e permite que diferentes países do continente desfilem perante nós. "Por outro, é um raio de tempo que explora a história ano a ano. O que surge é um "cronotopo", ou seja, uma união indissolúvel de tempo e espaço", diz. O título da exposição significa que as pessoas têm menos tempo que espaço, que o tempo escapa das mãos enquanto se segue buscando um lugar para se estabelecer. "Ao final se tem onde permanecer, porém o tempo já se esgotou?"
A mostra também pode ser lida diante do pano de fundo das dramáticas transformações que a América do Sul tem sofrido nas últimas década. "Da noite para o dia, capitais bucólicas converteram-se em megalópoles de crescimento incontrolável, rodeada de favelas. Paisagens intocadas transformaram-se em devastada terra de ninguém. Os artistas também mostram a vitalidade inquebrável da população multiétnica do continente, sua espiritualidade e criatividade.
Dentre os participantes estão Fernando Gutiérrez (Peru), Leticia El Halli Obeid (Argentina), Marina Vassileva (Bulgária), Alexander Apóstol (Venezuela), Martin Sastre (Uruguai) e Neville D''Almeida (Brasil). Eles exploraram a América do Sul em todas as direções. Visitaram tranquilas cidades do interior e metrópoles pujantes, locais ligados ao passado e modernas cidades que apagaram até os últimos vestígios de história.
Fernando Gutiérrez convidou German Grau, descendente do lendário peruano Miguel María Grau Seminário a percorrer 4 mil quilômetros, de Lima até o Sul do Chile, a bordo de uma Kombi VW. Durante a jornada, a trupe viajante visitou o navio de guerra Huáscar, em Talcahuano, no Chile, e organizou performances nos vilarejos costeiros. Em seu vídeo "La Família", Mariana Vassileva reúne várias gerações de forma harmoniosa.
A despreocupada leveza do pitoresco álbum de família, que todo pai latino-americano tem em alta consideração, contrasta com a violência e os conflitos internos de suas sociedades. A boliviana Narda Alvarado em seu vídeo "Baile de Ideias" está deitada na cama, sonhando e elaborando mentalmente uma coreografia que integra objetos do cotidiano num espetáculo imaginário.
Leticia El Halli Obeide (Argentina) traz a história de volta ao viajar num trem suburbano em Buenos Aires. Ela transcreve à mão a Carta da Jamaica, enquanto pela janela passa uma deprimente paisagem.
Com seu manuscrito, a artista parece querer certificar-se da palavra escrita por Simón Bolívar. Neville D''Almeida documentou uma comunidade indígena do interior do Pará, mostrando a vida atual deles. Visitação até 21 de março, de terças a domingos, das 9h às 21h.
Exposição mostra bicentenário de Independência Hispânica
Videoinstalações estão reunidas em "Menos Tempo que Lugar", que acontece na Capital