Arte & Agenda

Feira do Livro celebra os 109 anos do poeta Carlos Drummond

Em clima de "Halloween", patrona do evento leu o poema "A Bruxa" do autor

Feira do Livro celebra os 109 anos do poeta Carlos Drummond
Feira do Livro celebra os 109 anos do poeta Carlos Drummond Foto : Luis Ventura/Divulgação/CP
O Dia das Bruxas e o "Dia D" se encontraram, nesta segunda-feira, na 57ª Feira do Livro, durante uma homenagem a Carlos Drummond de Andrade, morto em 1987 no Rio de Janeiro. Em torno da estátua do escritor, localizada ao lado da de Mario Quintana, na Praça da Alfândega, leitores apaixonados deram vozes aos poemas do autor mineiro, que hoje comemoraria 109 anos de seu nascimento.

O agradecimento do legado do poeta também foi comemorado pelo "Dia D", (Dia D Drummond), proposto pelo Instituto Moreira Sales, que detém o acervo do escritor. No site DiaDrummond.com.br, podem ser vistas e ouvidas leituras de poesias dele gravadas por quem quiser enviar e por ilustres como Chico Buarque, Caetano Veloso e Adriana Calcanhotto.

Na Feira do Livro, a celebridade local, patrona do evento, Jane Tutikian, também cedeu sua voz e reverência ao poeta, e realizou a leitura de "A Bruxa", bem no clima de Haloween e terror, tema do dia na Feira. Carlos Drummond de Andrade (1902 - 1987), nascido em Itabira do Mato Dentro, Minas Gerais, é considerado um dos mais importantes poetas brasileiros.

Entre suas primeiras obras, estão os antológicos "Sentimento do Mundo" (1940), em "José" (1942) e "A Rosa do Povo" (1945). Entre o primeiro livro, "Alguma poesia" (1930), publicado em Belo Horizonte pela Pindorama em 1930, ao "Amar Se Aprende Amando" publicado pela Record em 1985, o poeta da paixão se deleita com as paixões e a vida.

Abaixo, o poema "A Bruxa":

Nesta cidade do Rio
De dois milhões de habitantes
Estou sozinho no quarto
Estou sozinho na América.
Estarei mesmo sozinho?
Ainda há pouco um ruído
Anunciou vida a meu lado.
Certo não é vida humana,
Mas é vida. E sinto a Bruxa
Presa na zona de luz.
De dois milhões de habitantes!
E nem precisava tanto...
Precisava de um amigo,
Desses calados, distantes,
Que lêem verso de Horácio
Mas secretamente influem
Na vida, no amor, na carne.
Estou só, não tenho amigo,
E a essa hora tardia
Como procurar amigo?
E nem precisava tanto.
Precisava de mulher
Que entrasse nesse minuto,
Recebesse esse carinho
Salvasse do aniquilamento
Um minuto e um carinho loucos
Que tenho para oferecer.
Em dois milhões de habitantes
Quantas mulheres prováveis
Interrogam-se no espelho
Medindo o tempo perdido
Até que venha a manhã
Trazer leite, jornal, calma.
Porém a essa hora vazia
Como descobrir mulher?
Esta cidade do Rio!
Tenho tanta palavra meiga,
Conheço vozes de bichos,
Sei os beijos mais violentos,
Viajei, briguei, aprendi
Estou cercado de olhos,
de mãos, afetos, procuras
Mas se tento comunicar-me,
O que há é apenas a noite
E uma espantosa solidão
Companheiros, escutai-me!
Essa presença agitada
Querendo romper a noite
Não é simplesmente a Bruxa.
É antes a confidência
Exalando-se de um homem.



Bookmark and Share

Guia de Programação: a grade dos canais da TV aberta desta sexta-feira, dia 16 de outubro de 2026

As informações são repassadas pelas emissoras de televisão e podem sofrer alteração sem aviso prévio