Arte & Agenda

Feira do Livro começa com aposta no poder terapêutico da literatura para superar crise

Evento literário movimenta a Praça da Alfândega ocorre até o dia 19 de novembro

Evento começou nesta quarta, enquanto alguns expositores ainda faziam os ajustes finais nas bancas
Evento começou nesta quarta, enquanto alguns expositores ainda faziam os ajustes finais nas bancas Foto : Eric Raupp / Especial / CP
Em meio aos caminhantes diários do Centro de Porto Alegre, a Praça da Alfândega ganhou novos visitantes no começo da tarde desta quarta. As estruturas metálicas e de madeira que nas últimas semanas começaram a ser montadas na área verde da Capital ganharam vida e cor por volta das 12h30min, quando os expositores da 63ª Feira do Livro deram início ao evento literário abrindo suas bancas e colocando publicações de diferentes autores e anos à mostra. Já no primeiro dia, o estudante de engenharia Gabriel Passos visitou o local para comprar o livro “A Dança dos Dragões”, de George R.R.Martin. “Não quis perder tempo e deixar pra depois, porque o movimento certamente vai aumentar”, conta.

Essa é justamente a expectativa de Neiva Piccinini, da banca Província. Há 20 anos participando do evento, ela espera que este seja uma ano de boas vendas, apesar “da crise e do pessimismo generalizado. No ano passado, os organizadores anunciaram queda de 19% nas vendas em relação a 2015. “A leitura é um modo de lazer barato e um modo de viajar. Para muita gente é também uma terapia para fugir dos problemas da realidade e imaginar um mundo melhor, temos que ser positivos e otimistas. Quanto mais cultura houver, mais fácil será para superarmos essa crise e para vermos o que há de ruim no país”, diz.

Para ela, a mudança na data de início da Feira do Livro - nos outros anos, começava na última sexta-feira de outubro - será uma experiência nova. “Os feriados costumam ser muito bons, os nossos melhores dias. Vamos ver como será agora com a abertura na véspera dos Finados. Um balanço só poderá ser feito no final, mas vamos torcer para que seja algo positivo”, comenta. Para este primeiro de evento, Neiva divide suas funções entre atender os possíveis clientes e finalizar a organização da banca.

O mesmo é feito por Gisele Minato, da Arte & Liter, que trabalha com uma literatura voltada para questões de história, política, arte e filosofia. Ela não consegue prever nenhum best-seller, mas acredita que as obras do Nobel Literatura 2017, Kazuo Ishiguro pode ser um dos destaques. “Aqui, temos todos os livros dele editados em português. Há também outro grande autor, que estará na Feira, que é o Mia Couto”, destaca. Gisele ainda enfatiza “O Som e a Fúria”, de William Faulkner, que estava esgotado no mercado e recentemente ganhou nova edição pela Companhia das Letras.

Já na área infantil, que nesta edição está montada em frente e ao lado do Memorial do Rio Grande do Sul não apenas uma grande aposta para os mais vendidos, mas várias. “Sem dúvidas os livros de youtubers, não importa qual. As crianças querem ser que nem eles”, comenta Nair Barbosa, da Pró-Cultura. Ela também destaca a nova localização, que, segundo ela, oferece mais segurança e conforto para os visitantes. “Fica melhor porque fica mais centralizado, as crianças não precisam atravessar a avenida para ir lá. E isso é muito importante para já criar uma cultura de leitura para as crianças. Ler cura, ajudar a se comunicar melhor, é tudo de bom”, analisa.

O evento não é apenas uma oportunidade para grandes livrarias exporem as obras mais badaladas do momento, mas também para se resgatar a literatura do século passado, seja nas bancas de empresas tradicionais ou nos sebos, que exibem livros a partir de R$ 2. Nestes, há de tudo um pouco, desde os clássicos franceses em edições por R$ 5,99 até livros de auto-ajuda. “Eu gosto muitos desses saldos porque pra que não tem muito dinheiro e gosta de ler é ótimo”, diz a telefonista Melina Silva, que estava em horário de almoço quando resolveu visitar a Praça da Alfândega e acabou comprando três obras por menos de R$ 10.

Considerado referência no país por seu caráter democrático e pela consistência do trabalho que desenvolve na área da promoção da literatura, a Feira do Livro de Porto Alegre é uma atração mesmo para quem visita a Capital com outros propósitos. É o caso dos irmãos equatorianos Andres e Pablo Flores, que vieram ao Brasil para assistir ao segundo jogo da semifinal da Libertadores entre Grêmio e Barcelona de Guayaquil. Hospedados num hotel no centro, eles saíram para caminhar e se depararam com o evento. “Muito boa iniciativa, ler é muito necessário. E neste lugar cheio de árvores cria uma atmosfera muito convidativa”, comenta Andres.

Apesar das bancas já estarem funcionado, a abertura oficial ocorre nesta quarta, às 19h, na Praça de Autógrafos, com presença da patrona Valesca de Assis e organizadores. Até o dia 19 de novembro, a Praça da Alfândega abrigará 110 bancas de expositores (91 da área geral, 13 da área infantil e juvenil e seis da área internacional) e 746 sessões de autógrafos que reunirão cerca de 1410 autores. Dentre os destaques desta edição estão nomes como Amyr Klink, Conceição Evaristo, Djamila Ribeiro, Mia Couto, Monja Coen, Ondjaki e Wole Soyinka. A região homenageada, os Países Nórdicos, será representada por nomes como Aki Ollikainen, Christina Rickardsson, David Lagercrantz e Kim W. Andersson.

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