A comida é a lente pela qual a chef de cozinha, apresentadora e ativista Bela Gil enxerga o mundo. Ao girar essa lente para quem está atrás das panelas, a filha de Gilberto Gil conduz o nosso olhar para a realidade das cozinhas domésticas. Assim, ela consegue revelar aspectos centrais de nossa organização social.
Em “Caminhos Sustentáveis: Uma Conversa com Bela Gil na Feira”, o Teatro Petrobras Carlos Urbim, localizado entre Memorial RS e Margs na Praça da Alfândega, recebe hoje, às 17h30min, a chef Bela Gil com mediação de Elaine Maritza. Na conversa estará em discussão a mais recente obra de Bela Gil, “Quem vai fazer essa comida – mulheres, trabalho doméstico e alimentação saudável” (Editora Elefante), que discute caminhos para democratizar a alimentação saudável no Brasil. A sessão de autógrafos ocorre às 18h30min.
Hoje, depois de décadas de pesquisas científicas e questionamentos à indústria do fast-food, é sabido que os alimentos ultraprocessados são grandes promotores de doenças crônicas não transmissíveis, como diabetes e hipertensão, além de contribuírem para a destruição da natureza, já que se apoiam sobre monoculturas de commodities como soja, trigo, milho e cana-de-açúcar. Também sabemos que a comida de panela feita em casa com ingredientes frescos ou minimamente processados é a melhor opção para nutrir o corpo, fortalecer as culturas regionais e respeitar o meio ambiente.
Neste livro, Bela Gil questiona sobre quem vai fazer essa comida? A partir da pergunta, ela relaciona alimentação saudável, feminismo e trabalho doméstico, complexificando um debate ignorado pelos livros de receitas e programas de culinária.
É a dona de casa, a mãe, a avó, a esposa, a empregada doméstica migrante, a mulher pobre e preta da periferia que continuará pilotando o fogão? E quem fará a comida dela, da família dela? Na obra, Bela critica a histórica desvalorização do ato de cozinhar, com raízes escravocratas, e reivindica o pagamento de salários para o trabalho doméstico, tema da obra de pensadoras como Silvia Federici. “Será que é certo que, para alguns poucos terem comida fresca e serem saudáveis e livres para correr atrás de seus sonhos, outros muitos tenham que se contentar com produtos ultraprocessados, que fazem mal ao corpo e ao planeta — isso quando não passam fome?”
Na introdução da obra, Bela afirma: “Não basta apenas focar as receitas e os ingredientes; o conhecimento tradicional e científico já demonstrou à exaustão o tipo de alimento que faz bem e o tipo de alimento que faz mal à saúde. Portanto, é hora de voltar os olhos a quem faz a comida – e garantir que toda a sociedade possa trabalhar em prol de melhores condições para que escolhas saudáveis à mesa sejam não apenas um ideal, mas uma realidade acessível ao conjunto da população.