A cineasta e escritora palestina radicada no Reino Unido, Hanan Kattan, está no Brasil para lançar seu bestseller “Palestina Revelada” (Carta Editora, 400 p.) em português. Autora convidada da 72ª Feira do Livro de Porto Alegre, ela terá um encontro com os leitores gaúchos no dia 2 de novembro, em uma mesa às 17h30min, no Auditório Alfredo Augusto Escobar Santos do Clube do Comércio, com participação de Mariana Dawas e mediação de Nanni Rios. Às 19h, ela autografa a obra na Praça de Autógrafos. Nesta entrevista por telefone concedida para o editor da Carta Editora, o jornalista Gilson Camargo, a autora fala sobre sua obra e a expectativa de participar do maior evento literário da América Latina.
O que o leitor descobrirá em “Palestina Revelada”?
Uma história real e honesta da Palestina; uma história que nossos governos e a mídia tradicional não estão inclinados a contar. Mas também o povo palestino, que por muito tempo foi desumanizado, a começar pela minha família – escritores, advogados, cineastas, empresários, artistas, que tiveram suas casas e depois as viram roubadas. O livro volta ao início do plano sionista traçado em 1897 e alcança o genocídio em Gaza, ainda em andamento hoje. Todas as afirmações possuem fontes, desde arquivos desclassificados até documentos judiciais e relatórios da ONU. O que eu gostaria que o leitor percebesse é que isso não foi um acidente ou providência divina. Foi um plano que se baseou em crueldade, assassinato e expulsão em massa. Essa não pode ser, na minha opinião, a melhor forma de os seres humanos se comportarem.
Quais suas expectativas em relação aos leitores brasileiros?
A edição brasileira significa muito para mim. O Brasil conhece a colonização por dentro: a terra declarada vazia, o roubo transformado em lei, os povos originários ordenados a desaparecer. Espero que os leitores brasileiros se conectem com o livro como algo que toca em elementos de sua própria história de resistência. E espero que o compartilhem, porque a injustiça contínua depende do silêncio e da cumplicidade.
E sobre a participação na Feira?
Estou honrada; significa muito para “Palestina Revelada” ser convidado para esta feira do livro e, para mim, poder falar sobre ele pessoalmente. Por décadas falou-se sobre os palestinos, e não com eles. Em Porto Alegre, estou ansiosa para discutir o livro e seus temas com o público ao vivo. É também um momento especial quando, como autora, você pode compartilhar com o mundo algo em que trabalhou em solidão por anos.
O que a motivou a escrever este livro?
Após o 7 de outubro de 2023, muitos amigos e conhecidos, incluindo pessoas que diziam se importar com os direitos humanos, não disseram nada ou disseram: “É complicado”. A história, para eles, começou em 7 de outubro. Eles nunca tinham ouvido falar da Nakba, ou que minha mãe sofreu limpeza étnica em Jerusalém em 1948, ou das dezenas de massacres que grupos terroristas sionistas (designados como grupos terroristas pelo Reino Unido e pelos EUA na época) cometeram na década de 1940 contra palestinos. Escrevi este livro para que ninguém mais possa dizer que “é complicado demais”.
De que forma a obra demonstra que a Palestina “não é uma abstração geográfica”, nem uma chamada “terra sem povo”?
A arqueologia mostra os natufianos, perto de Ramallah, assentando-se e cultivando lá há quinze mil anos, muito antes de o judaísmo, o cristianismo ou o islamismo existirem. Jericó tem mais de dez mil anos. Depois vêm as cidades, mercados, escolas, jornais, laranjais e igrejas de uma sociedade viva, na qual muçulmanos, cristãos e judeus palestinos viveram lado a lado por séculos. “Uma terra sem povo” nunca foi um engano. Foi propaganda para encobrir um roubo.
Serviço:
Livro: "Palestina Revelada” (Carta Editora, 2026, 400p.), de Hanan Kattan, com tradução de Nadejda Marques e prefácio de Breno Altman.
Lançamento em Porto Alegre na 72ª Feira do Livro (02/11, com mesa às 17h30min e autógrafos às 19h).