Seja no TikTok, no Instagram ou no X, o hábito de rolar a tela infinitamente para baixo já está enraizado no nosso dia a dia. Entre os milhões de conteúdos disponíveis na palma da mão, um nicho específico vem chamando a atenção por incentivar uma prática que vai além das telas: a leitura. As resenhas, listas de indicações e debates sobre livros têm causado um impacto real, sendo reconhecidos pelo maior prêmio de literatura brasileira, o Jabuti, que criou neste ano uma nova categoria para “Incentivo à Leitura - Cultura Digital”.
“A gente chegou para ficar. A cada ano, temos mais relevância, e o mercado editorial precisa se adaptar para entender a gente como parte dessa grande cadeia, que não é só do mercado editorial”, destaca a porto-alegrense Tamirez Santos (@resenhandosonhos), que foi uma das finalistas na nova categoria do Prêmio Jabuti para criadores de conteúdo.
Publicado em fevereiro de 2026, o Panorama do Consumo de Livros no Brasil, da Câmara Brasileira do Livro (CBL), reforça o argumento de Tamirez, ao apontar que 22% dos leitores encontram lançamentos por meio de criadores de conteúdo. Além disso, 57% dos consumidores acompanham conteúdos sobre livros principalmente no Instagram e TikTok. O que se manifesta na decisão de compra: o levantamento revela que as recomendações digitais motivam 15% das aquisições de livros digitais feitas por meio de redes sociais e 9,8% das compras via YouTube.
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O fenômeno, que tem no “Booktok” seu maior exemplo de como comunidades podem ser criadas, pode ser observado em diferentes perfis, dos dedicados aos clássicos aos especializados em fantasia e horror, e até entre personalidades de outras áreas, como o jogador Gustavo Scarpa. O meio-campo do Atlético-MG passou a compartilhar resenhas e impressões de leitura no Instagram e no YouTube e logo a indicação do livro russo “A Morte de Ivan Ilitch”, de Liev Tolstói, chegou ao primeiro lugar entre os mais vendidos da Amazon.
“Criar conteúdo sobre livros vai muito além de dizer se gostou ou não da história”, explica Tamirez, que tem na relação entre conteúdo e comunidade o centro de seu trabalho. Criadora de conteúdo desde 2014, ela passou a se dedicar exclusivamente ao projeto em 2021 e construiu uma audiência especialmente interessada em fantasia. Para organizar a rotina, planeja pautas, registra as leituras e procura equilibrar os livros escolhidos para produzir conteúdo com aqueles que lê por prazer.
Há dez anos, Tamirez apresentou à Câmara Rio-Grandense do Livro — responsável pela organização da Feira do Livro de Porto Alegre — a ideia do Encontro de Influenciadores Literários e Leitores. Hoje, ao lado de Joi Cardoso (@estantediagonal), o evento chega à sua 9ª edição; nele, o público tem acesso a sorteio de livros, dinâmicas interativas e a oportunidade de escutar seus escritores brasileiros favoritos. “Aos poucos, o evento foi crescendo, e deixou de ser um momento só de encontro entre influenciadores, onde a gente tinha trocas, fazia painéis sobre criação de conteúdo, pra virar um espaço para os leitores”, explica a organizadora.
Tamirez considera que a autenticidade é essencial para se destacar em um ambiente com centenas de criadores. “Os números, eles são importantes, mas eles não são a coisa mais importante”, explica, ao destacar o valor da especialização e da construção de autoridade. A criadora também procura preservar a autonomia dos leitores. “A decisão de comprar ou não comprar um livro, de ler ou não ler um livro, ela precisa ser do leitor”, afirma. Por isso, mesmo quando não gosta de uma obra, procura indicar para quais públicos ela pode funcionar.
Influencers por todos os lados
Além de Tamirez, a Feira do Livro de Porto Alegre comporta outros influencers em sua programação. O Festival Fantástico recebe Nilton Rodrigues (@qdiaboeisso), Juliana Agne (@julianaragne) e Vinício Souza (@paginasdemisterio) para apresentar mesas entre a sexta-feira e o domingo – confira a programação aqui.
Para Vinício, a aproximação entre livros e leitores é um dos principais objetivos do trabalho. Criado em 2021 como um diário de leituras, o Páginas de Mistério cresceu e passou a reunir mais de 170 mil seguidores. Jornalista de formação, ele busca contextualizar as obras e relacioná-las ao cinema, à história, à filosofia e à cultura pop.
“A ideia, claro, sempre é mostrar que o livro não precisa ser um objeto distante ou apenas um canal de aprendizado – ele pode ser tão atrativo quanto um filme, uma série ou qualquer outro tipo de entretenimento que já faz parte da nossa rotina”, afirma.
Ele acredita que tornar a literatura acessível também significa afastar a ideia de que os clássicos são exclusivos de quem possui grande bagagem intelectual.
O influenciador destaca, ainda, a responsabilidade envolvida nas indicações. “Ler que alguém voltou a se aproximar dos livros por causa do meu trabalho, tem coisa melhor?”, questiona. Ao mesmo tempo, ressalta a importância de fundamentar as opiniões, já que o público investe dinheiro nas obras recomendadas.
Já Juliana Agne, que começou a produzir conteúdo em 2024, encontrou nas redes sociais uma comunidade para compartilhar seu interesse por livros escritos por mulheres. A iniciativa evoluiu para o Âmago, clube de leitura que promove encontros mensais para discutir essas obras. “Quando alguém me diz que voltou a ler por minha causa, eu sinto que tudo que faço valeu a pena”, diz a criadora, que também destaca uma preocupação com o desinteresse da população pela leitura.
“Acredito que seja mais fácil se posicionar em nichos relacionados a assuntos que ganham maior atenção. No entanto, vejo que temos papéis importantes nesse meio, construindo essa conexão entre não-leitores e os livros, então acredito muito no nosso trabalho”, comenta.
No perfil Que Diabo é Isso?, Nilton Rodrigues explora a literatura de horror e suas conexões com outras manifestações culturais. Criado durante a pandemia, em 2020, o projeto transformou a paixão pelo gênero em um espaço de troca constante. “É um pacto de confiança de que tenho muito orgulho”, afirma, sobre a responsabilidade de saber que alguém pode comprar um livro por sua indicação. Ele explica como indicar livros pode ser um processo complexo:
“A análise pessoal é um balizador, mas é importante ter em mente que existem milhares de pessoas com bagagens e experiências de vida diferentes, que podem ou não se conectar com a sua visão”.