Aos 84 anos, o escritor Sergio Faraco é o patrono da 70ª Feira do Livro de Porto Alegre. Conhecido por sua artesania e reescritura ao escrever contos, o autor de livros como “Lágrimas na Chuva”, “Dançar Tango em Porto Alegre” e mais recentemente “Digno é o Cordeiro – Memória de um Ano Sombrio” (L&PM), concedeu entrevista ao Caderno de Sábado sobre a sua obra, as suas ideias, lembranças da Feira do Livro e até sobre um livro não tão conhecido da sua carreira, “Urartu”, lançado em 1978, sobre uma civilização perdida que ele descobriu quando visitou a Armênia soviética nos anos 1960. Confira a entrevista com Sérgio Faraco, que tem atividades no sábado, às 14h, e domingo, a partir das 16h30min, no Espaço Força e Luz (Andradas, 1223), com Léa Masina e Sergius Gonzaga e autógrafos a partir das 18h de domingo na Praça de Autógrafos Gerdau.
Correio do Povo - Antes de te fazer a primeira pergunta, preciso te dizer algo que te falei na nossa primeira conversa lá pelos idos de 2009 ou 2010 em uma Feira do Livro, que “Lágrimas na Chuva” foi meu livro de cabeceira em anos anteriores e que eu fiz um glossário das palavras russas, tamanho o meu amor por aquele país, que acabei visitando em 2012. Dito isto, preciso te perguntar o quão custoso foi escrever “Lágrimas na Chuva”, que representava o desconhecido para a maioria dos teus leitores gaúchos e brasileiros, e também algo bastante dolorido para ti?
Sergio Faraco - Custoso, sim, de início não conseguia reproduzir com mínima qualidade aquilo que vivera em Moscou, as emoções estavam muito próximas e desordenadas. Ao longo dos anos fiz muitas tentativas, sempre fracassava e só me achei em condições de tentar com mais confiança quase quatro décadas depois. Combinei com meu amigo Newton Alvim, então editor de A Notícia, de São Luiz Gonzaga, que publicaria um capítulo por sábado. Enviei o primeiro, prevenindo-o que era um projeto arriscado, ou seja, que eu podia me sentir incapaz de escrever os seguintes. Ele assumiu o risco. Foi um parto. Só pude aprontar o segundo capítulo quase na hora em que precisava remetê-lo. Na sequência, a história foi tomando corpo, como se fosse um romance narrado na primeira pessoa. Não incluí no livro 11 capítulos, do 34 ao 44, porque narravam acontecimentos de meu retorno ao país e os julguei despiciendos. De resto, muito ruins.
Correio do Povo - Feita a pergunta sobre o Lágrimas na Chuva, posso me atrever a te questionar sobre a falta de motivação, os dilemas, o hiato de tempo (quase 60 anos), para poderes escrever esta continuação da volta igualmente opressiva e sombria ao Brasil, em pleno segundo ano de ditadura militar, que resultou em “Digno é o Cordeiro”?
Sergio Faraco - Só pode ter sido mais complicado do que o outro, se contarmos o tempo desde o ano em que ocorreram os fatos temos um hiato de quase seis décadas. Acresce que, como disse, eu tinha 11 capítulos prontos que não me convenciam e é muito difícil refundir textos nos quais já admitimos o fracasso, fica-se com a impressão de estar lixando o ferro com uma lixa de unhas. De outra parte, havia pessoas de minha família que eu queria bem e eram personagens de minha história, eu tinha muita dificuldade de lidar com isto. Uma outra questão também se tornou um empecilho: os nomes das pessoas. Se não os citasse, o relato perderia verossimilhança. Se os citasse, comprometeria seus descendentes. Optei por citar apenas aqueles que seriam facilmente identificados.
Correio do Povo - Antes da publicação destes dois livros, a estada na União Soviética te resultou em outro livro admirável por teres descoberto e investigado sobre um mundo, uma civilização até então desconhecida para boa parte dos teus leitores, apagada dos registros mais loquazes da história, que foi Urartu (livro de 1978 pela Urgs e IEL/DAC/SEC-RS) e que gerou uma descoberta de tua parte no passeio que fizeste à Armênia soviética e nos presenteou com um conhecimento novo a partir da tua investigação. A pergunta é sobre a importância deste livro e quais desdobramentos ele teve desde que foi lançado?
Sergio Faraco - Naquela temporada na Armênia conheci muitas cidades, sobretudo sua bela capital, Erevan, cujos prédios são, ou eram, erguidos com uma pedra rósea vulcânica. Visitei o Museu Histórico da Armênia, o Matenadaram, museu dos velhos manuscritos, e o Observatório de Biurakan, na época considerado o terceiro do mundo, e muitas fábricas, muitas fazendas coletivas, os kolkhoses e os sovkhoses. No entanto, o que mais me impressionou foram as ruínas históricas de um povo que antecedeu geograficamente os armênios e era conhecido pelos assírios e babilônios como Urartu e pelos hebreus como Ararat. Naquele ano, ainda em Moscou, comecei a escrever sobre os urartas, que ou eram desconhecidos ou ignorados pela grande maioria dos livros de História ou às vezes mencionados ligeiramente como um reino conquistado pela Assíria. Já de volta ao Brasil, ao longo de 12 anos o ofereci a várias editoras e elas o recusaram, uma delas por entender que aquilo mais parecia uma obra de ficção. Consegui publicar, finalmente, pela Editora da URGS, em convênio com o Instituto Estadual do Livro, depois que o original foi avaliado e recebeu parecer favorável do professor Arno Kern, da URGS e da FAPA. Este livro tem uma trajetória esquisita: parte da edição foi comprada pelo Curso de Armênio da USP, o que restava sucumbiu durante uma grande chuva que alagou o depósito da editora. Em 2005, acrescentando novas pesquisas e melhorando bastante o texto, republiquei-o no volume Histórias dentro da História, pela L&PM.
Contudo, não cessou aí o inusitado. Pouco depois do lançamento, fui convidado pelo professor Yessai Ohannes Kerouzian, da USP, para fazer parte de uma banca que examinaria uma candidata à cadeira de História da Armênia. Infelizmente, tive de recusar, argumentando não possuir conhecimento suficiente, meu livro era exatamente sobre os armênios, embora os mencionasse. Comentei, no entanto, que teria muito prazer em conhecê-lo pessoalmente, pois em dois dias estaria viajando para Minas Gerais e haveria uma troca de avião em São Paulo. O que eu não sabia, tampouco desconfiava, era que o professor era um grande admirador de meu trabalho sobre os urartas – e os armênios, vejam só, costumam ser afetivamente calorosos com autores e estudiosos em geral que manifestam simpatia pela história do país, pela diáspora armênia, pelo genocídio que sofreram e em nome do sonho da Grande Armênia, que voltaria a incluir o monte Ararat e o Lago Van, anexados pelos turcos. Quando desembarquei, esperavam-me o professor Kerouzian e uma multidão de homens, mulheres e crianças, que abraçavam e beijavam um escritor estupefato. Creio que se pode dizer que é um momento inesquecível da trajetória desse livro.
Correio do Povo - Todo o escritor tem suas musas e com Sergio Faraco uma estrela apareceu resplandecente no auge dos seus 63 anos, Marlene Dietrich, em abril de 1964 em um teatro de Moscou, aquela que “despedaçaria o coração de um homem só com sua voz”, segundo Hemingway. Quais foram as estrelas da história da música, do cinema e do teatro que te inspiraram a escrever algo sobre elas ou até a compor alguma personagem com alguns traços delas?
Sergio Faraco - Olha, acho que foi tão só a Marlene, que ouvi de muito perto, cantando Lili Marleen com aquela voz grave que, nos agudos, parecia um suavíssimo violino, e deixando ver parte daquelas pernas tão lindas. Sempre que me lembro de Marlene sinto uma bem-vinda emoção. Escrevi duas crônicas sobre ela, estão em As noivas fantasmas & outros casos, que publiquei em 2022.
Correio do Povo - Para fechar as perguntas sobre União Soviética e Rússia, quero te perguntar como viste e analisaste em 1990 a queda da Cortina de Ferro e abertura política naquela região. Hoje em dia, tens alguma opinião crítica sobre o que acontece naquela nação do ponto vista político e também cultural? (Lembro que a impressão que tive ao visitar a Rússia em 2012 se coaduna com a citada por ti no livro Lágrimas na Chuva de que os soviéticos tinham uma vocação para ir a eventos culturais, tais quais concertos e ballets e o faziam com a roupa do trabalho.
Sergio Faraco - Hoje não sei, mas nos anos 60 o povo russo era considerado muito culto, era bem difícil obter entradas para óperas, concertos, espetáculos de balê ou de música, e eu conseguia com relativa facilidade porque era um estrangeiro que lá estava sob a proteção do PCUS. Esse acesso à cultura me parecia mais ou menos reservado para aqueles que, aqui, seriam partes das classes média e alta e também os funcionários mais graduados. Era o que eu sentia, mas não posso falar de cátedra e dizer que tal coisa era realmente assim ou assado. Era, sim, o que me parecia, minha convivência mais próxima, longe do Instituto e do alojamento, foi com uma família pobre, cujo cabeça era vigia do estádio do clube de futebol Dinâmo, e ali naquela casa, onde viviam também outras famílias, os mais velhos eram pessoas bem rudes.
As mudanças dos anos 80/90 eu não imaginava que ocorreriam, mas sempre desconfiei que o socialismo soviético não podia ser aquele que eu imaginara e me levara para lá, tanto é que um dos motivos, entre muitos outros, de minha internação na ala dos dementes do Hospital do Kremlin foi o meu costume de dizer que podia entender a corrupção em Cuba, cuja revolução ainda não completara cinco anos, mas não na Rússia, cuja revolução tinha quase 50. Outra coisa que eu costumava dizer era que a história da URSS mudava a cada vez que assumia o poder outro grupo dirigente. E era verdade. Eu estava lá quando, durante a noite, caiu Kruschov. De manhã bem cedo, quando os estudantes chegamos para as aulas, tinham já tirado todas as fotos dele das paredes. Foi um dia medonho, deu muita brica no Instituto. Os italianos não tinham medo de nada e gritavam pelos corredores, dizendo aquilo era um golpe e uma grande vergonha.
Correio do Povo - Alguns críticos e outros escritores já te definiram como um artesão, um escultor detalhista na construção dos teus contos, capaz de reescrever repetidas vezes um único conto para que ele tenha a narrativa mais próxima da idealizada pelo autor. Se instado a falar sobre o que significa a construção de um conto e a consequente leitura de um conto para ti, o que me dirias?
Sergio Faraco - Para mim é muito difícil falar sobre a construção de um conto, pois não disponho de nenhuma fórmula, cada conto que escrevi teve suas próprias etapas, seu próprio arcabouço. O que não difere é o meu modo de buscar intensamente uma linguagem que seja a ponte entre o que sinto e o que será capaz de fazer o leitor sentir, isto é, a forma literária. Sempre comento que, se Hemingway refez 40 vezes o final de Adeus às armas, não devo me contentar com menos.
Correio do Povo - O Rio Grande do Sul ainda é considerado um estado onde se lê muito, o último índice mais confiável foi o do Instituto Pró-Livro de 2019, que dava conta de que 51,7% dos gaúchos têm o hábito de ler e que a média de livros por ano é 7,6 livros ao ano, três vezes maior do que a média nacional. Como patrono da 70ª Feira do Livro de Porto Alegre, o que pretendes deixar marcado no teu discurso e nas conversas com os leitores e com as crianças e professores, que sempre são considerados o futuro da manutenção da leitura de livros em vez destas multitelas de celulares, aplicativos, tvs e games?
Sergio Faraco - Todos os recursos tecnológicos modernos serão substituídos por outros mais modernos, um dos componentes da pós-modernidade é o império do novo. Contudo, entendo que o livro sempre haverá de se impor. Os recursos tecnológicos sempre morrem para dar lugar aos sucedâneos. O livro nunca morre.
Correio do Povo - Eu gostaria de saber de quem te lembras quando falamos em Feira do Livro de Porto Alegre, dos amigos que se foram aos que estão aí ainda lançando livros, dos momentos de uma grande ágora na Praça de Autógrafos aos demais patronos e pessoas que fizeram parte deste imaginário de Feira que tens desde o teu primeiro contato com ela?
Sergio Faraco - Uma das mais antigas lembranças que tenho da Feira do Livro é a de ter encontrado Dyonelio Machado num banco da praça e ouvir dele que tinha inveja das minhas sandálias, pois não podia usar calçado aberto, apareceriam seus dedos sem unhas, lembranças da tortura. Lembro-me do querido Quintana: às vezes sentávamos nos bancos atrás das barracas, para podermos conversar sem que ele fosse interrompido pela multidão de seus admiradores. Lembro-me, por certo, de todos os amigos que perdi e, em particular, daquela criatura tão doce que foi o Laury Maciel, um amigo tão inesquecível como o não menos querido Julián Murguía, uruguaio que a Câmara do Livro homenageou nos anos 90, dando seu nome a um dos caminhos da feira.
Correio do Povo - Uma fase importante da tua vida e do teu início como escritor e tradutor foi as colaborações com o Caderno de Sábado, do Correio do Povo, que ora edito neste período atual. Queria que tu falasses deste período e da relação com o P.F. Gastal e com os demais colaboradores da época?
Sergio Faraco - Foram 15 intensos anos de prática literária no Caderno de Sábado, primeiramente editado por Oswaldo Goidanich e Paulo Fontoura Gastal, posteriormente só pelo Gastal. Eu era assíduo colaborador, assim como os contistas Moacyr Scliar, Carlos Carvalho, João Gilberto Noll, Laury Maciel, Arnaldo Campos, Tânia Faillace, Rubem Mauro Machado, Alcy Cheuiche, José Eduardo Degrazia, Charles Kiefer e outros que estou esquecendo. Foi naquele período que o Antônio Hohlfeldt passou a escrever sobre nossos livros, de modo que o Caderno de Sábado nos dava notícia das reações da crítica. Também escreviam sobre livros o Carlos Appel e, sobretudo, Paulo Hecker Filho. Além de publicar meus primeiros contos e artigos, eu mantinha uma coluna chamada Lugar do conto, em que comentava os originais encaminhados ao Caderno e informava os que seriam publicados. Não sei se todos recebiam pagamento por suas colaborações, mas eu sempre recebi, nunca escrevi de graça. O drama era efetivamente receber, pois entregava a lista de colaborações ao Gastal e ele costumava perdê-la no caos que era sua mesa. Quando queria aumento, tinha de falar diretamente com o Dr. Breno, no gabinete ao lado da redação. Foi um tempo lindo aquele em que todos nós publicávamos para crescer como escritores. Era importante publicar no jornal no começo da carreira. Quando nos compenetrávamos de que havia nas páginas impressas uma visão compartilhada de nossos escritos, apurava-se o nosso juízo crítico.
Correio do Povo - E não podia faltar uma pergunta sobre o Alegrete. Em que esta cidade te moldou como cidadão e como escritor?
Sergio Faraco - Robert Louis Stevenson, na introdução de O morgado de Ballantrae, afirma ter cometido dois erros imperdoáveis em sua vida: um, ter deixado a cidade natal; dois, ter voltado. Eu contabilizo dois acertos: deixei a cidade natal e não voltei. Ou, por outra, só voltei para servir a pátria, mas como soldado passei mais tempo na cadeia do que na cidade. De meus contos, a maior parte devo a Itaqui, em cujo município meu avô materno era fazendeiro e onde fui um guri feliz, a Uruguaiana, cidade em que vivi dois anos em minha mocidade, e ao Rio Uruguai.
Como autor, como contista, não reconheço definidas influências, É possível, contudo, que em meus diálogos eu tenha aprendido alguma coisa com Hemingway. Se é que aprendi mesmo…