É no terceiro andar do Clube do Comércio que a 14ª edição da Traçando Histórias, mostra bienal dedicada à Ilustração de Literatura Infantil e Juvenil, ganhou forma este ano na 71ª Feira do Livro de Porto Alegre. Nas paredes as ilustrações, e logo abaixo, os livros das quais são provenientes, formam a montagem que encanta quem passa por lá. Criado por Cristina Bianchetti e coordenado por Sônia Zanchetta, o projeto completa 25 anos em 2026, e segue consolidando-se como um espaço de referência e continuidade rara no cenário brasileiro.
Sônia participa da Traçando Histórias desde a 1ª edição e relembra os passos iniciais do projeto. “O Traçando teve algumas edições muito simplesinhas, na própria praça. Nós montávamos painéis e exibições na Alameda dos Ilustradores. Depois conquistamos um espaço maior, o Largo dos Ilustradores”, recorda. “Em 2004, foi no Museu de Arte do Rio Grande do Sul (Margs), nas Salas Negras [...]. Depois passou pelo Memorial do Rio Grande do Sul, pelo Cais do Porto, e na edição anterior, pelo Espaço Força e Luz.”, resume, com o cuidado de marcar cada etapa.
A ideia do projeto, conta Sônia, nasceu do encontro com a ilustradora Cristina Biazetto, “que tinha ido à Itália, a Sàrmede, o Paraíso das Fábulas, onde ocorrem eventos ligados à ilustração. Ela queria fazer algo assim por aqui. No primeiro ano, não tínhamos recursos. Mesmo assim criamos o Largo dos Ilustradores.”
Se a inspiração europeia deu o impulso inicial, foi a adaptação à realidade brasileira que consolidou o Traçando Histórias como referência. “Uma característica importante é a sua continuidade”, observa Sônia. “Ocorrem muitas mostras no Brasil, mas poucas conseguem várias edições. O Traçando ficou muito bem conceituado entre os ilustradores por isso.” O evento se destaca pela programação paralela, que desde 2017 tem status de curso de extensão do Instituto Federal do RS – Campus Viamão. Neste ano, “foram dois dias inteiros de atividades com vários ilustradores.”
À frente da curadoria da 14ª edição, Peter O’Sagae buscou compor retrato plural da produção contemporânea. “O propósito é apresentar panorama atual e diverso da produção brasileira”, conta. “Avaliamos o que tem sido produzido e publicado por grandes e pequenas editoras, tradicionais e independentes, que buscam trazer a arte de vários pontos do país.”
Com conhecimento na área, já que no doutorado pela USP, estudou as relações palavra e imagem nos livros para crianças, o curador convidou 20 ilustradores e selecionou outros 15 entre os inscritos, totalizando 35 artistas. Segundo ele, o processo de escolha segue critérios técnicos e de representatividade. “Procuramos contemplar uma porcentagem de autores gaúchos e de outras regiões, inclusive do Norte e Nordeste. Buscamos representar autores e ilustradores negros e estamos sempre em busca de artistas indígenas.” O’Sagae, que havia sido curador em 2023, observa tendências recorrentes na ilustração brasileira recente.
“Há preferência do mercado em trabalhar com obras que fortaleçam a identidade brasileira através da vegetação e da fauna. Também aparecem temas como hortas urbanas, o ritmo de trabalho, a necessidade de desacelerar, o lúdico em espaços urbanos. O tema da negritude se faz presente, não só entre artistas negros, mas em obras de outras origens, que buscam essa representatividade. E há muitos trabalhos ligados ao mar, peixes, pescadores — reflexos da nossa costa extensa.”
Embora as ilustrações estejam vinculadas a livros, a seleção, conta o curador, privilegia a força visual. “No meu método, analiso apenas a imagem. Tento ignorar a fonte do livro e o nome do escritor, observando composição, paleta de cores, equilíbrio dos personagens e acabamento. Só depois considero os parâmetros de representatividade.”
Peter também destaca a mudança técnica ao longo dos anos. “Tivemos edições que trabalhavam com originais. Hoje, o original quase não existe — a arte é editada no computador. O Traçando mostra esse bastidor também: o digital está misturado.”
Sônia lembra com carinho os espaços abertos aos ilustradores da mostra, que entre atividades de formação, também enviam catálogo para editoras de livros infantis. Além de vitrine artística, a mostra é espaço de formação. “Eu sou quase uma cria do Traçando Histórias”, reconhece O’Sagae. “Quando fazia doutorado, em 2006, pesquisava a mostra porque era onde os ilustradores se reuniam. A comissão sempre buscou contemplar cursos, oficinas, mesas de debate — formando o olhar das novas gerações.”
- Fundação Theatro São Pedro suspende atividades a partir de janeiro
- Ronda Cultural: fim de semana com festivais, teatro e grandes shows em Porto Alegre e região
Confira galeria de imagens: