Arte & Agenda

Festa celebra cultura cigana em Porto Alegre

'Djelem reunirá gastronomia, cinema e música neste domingo na Vila Flores

Baxtale é formado por Giovanni Martinez, Pedro Paiva, Ivan Andrade, Laura Backes e Edu Saffi
Baxtale é formado por Giovanni Martinez, Pedro Paiva, Ivan Andrade, Laura Backes e Edu Saffi Foto : Amarello Rodrigues / Divulgação / CP
A "Festa 'Djelem Djelem - Celebrando a Cultura Romani" reunirá neste domingo cinema, gastronomia e muita música para divulgar a beleza dessa cultura, no Vila Flores, em Porto Alegre. O programa é para toda a família também busca sensibilizar para a história de resistência desse povo, vítima de perseguição e preconceito ao longo dos tempos.  

Foi quando iniciou o Bacharelado em Violino na Faculdade de Música do Departamento de Artes da Ufrgs, em 2008, que Ivan Andrade se interessou pelo modo cigano de tocar o violino dos romanis húngaros e romenos, pela forma de lidar com os tempos e melodias e a riqueza dos ornamentos. Daí passou a estudar a cultura deste povo em sentido mais amplo: desde sua origem, na Índia, à diáspora, chamando sua atenção o sentido de unidade e idioma muito forte.

Da aproximação com a produtora Lívia Biasotto, o cantor e instrumentista criou, em abril último, o Baxtale, que significa “afortunados”, composto por Laura Backes (voz), Giovanni Martinez (percussão), Pedro Paiva (violão e onomatopeias) e Edu Saffi (contrabaixo). O coletivo lotou, por duas vezes a Biblioteca Pública do Estado, no show “Djelem Djelem” (“Caminhei Caminhei”) e agora alça um vôo maior ao convidar o público a conhecer a sonoridade contagiante dos Balcãs e Leste Europeu.

O termo faz alusão ao hino romani homônimo, escrito por um sérvio sobrevivente do Porrahmios — holocausto romani — e fala do momento áureo dos ciganos até a perseguição, na 2ª Guerra Mundial. O documentário francês “Latcho Drom” ou “Viagem Segura” do argelino Gatlif, de origem romani, aborda a jornada desta etnia, do noroeste da Índia até a Espanha, focando especialmente sua influência em vários estilos de dança e na música.

O filme ilustra as condições em que vive o povo cigano, descrevendo, ao longo de um ano, as migrações e manifestações artísticas de grupos da Índia, Egito, Turquia, Romênia, Hungria, Eslováquia, França e Espanha. As roupas coloridas, as joias, o fogo e o sustento são alguns aspectos abordados, assim como os valores: família, viagens, amor, separação e perseguição.

Sobre os costumes, Ivan destaca que o nomadismo não era uma opção e estava associado à economia e história de perseguição desse povo. “A polícia os proibia de se assentarem em determinados lugares. Como hoje na Hungria, em que os grupos de skinheads jogam coquetel molotov nas comunidades ciganas. Então eles ficavam em um lugar ou outro, vendendo cavalos e tocando”, explica.

Sobre o preconceito acerca dos ciganos, ele remete aos ciganos da Espanha, no século XVIII, quando havia leis que os puniam por ‘vagabundagem’, pela roupa que usavam e língua que falavam. E ao longo dos séculos foram se criando e perpetuando lendas depreciativas por este grupo fechado, com leis internas e orgulhoso de suas tradições, por não se adequar às regras sociais vigentes.

Com mestrado em Etnomusicologia, Ivan visa desmitificar os estereótipos: “Dentro do grupo reforçamos a ideia do romani, no sentido da identidade verdadeira, procurando eliminar o preconceito”. O pesquisador afirma que a ideia do cigano ladrão de crianças, no contexto do Brasil colonial, se formou quando os fazendeiros tinham filhos ilegítimos, com empregadas ou escravas, e os entregavam aos ciganos.

Para adentrar neste universo, tão controverso, Ivan fez questão de ir a fundo na questão do idioma: “Dizem que o verdadeiro romani é o que fala romani”, justifica. A respeito dos fluxos migratórios deste povo, ele menciona a diáspora, quando saiu de onde é hoje o Rajastão e chegou à Europa e depois, segundo alguns pesquisadores, na metade do século XIX, quando escravos na Romênia foram libertos e se espalharam.

Djelem Djelem

A abertura dos portões do Vila Flores (São Carlos, 753) será às 15h e o encerramento às 22h, na festa que prevê a exibição do filme “Latcho Drom” (Viagem Segura”) do argelino Tony Gatlif, de etnia romani, às 16h30min.

O Jazz Manoutchê, formado por Caetano M. Santos, Fernando Campos Caramori, André Mendonça e Eduardo Figueiredo toca jazz  cigano e canções autorais, às 18h. Os anfitriões, Baxtale! — Pesquisa Musical Romani, apresentam repertório Vlach Romani, da Hungria, às 19h.

O público poderá dançar e experimentar as delícias preparadas por Marcela Jung, cujos detalhes estão na página de Gastronomia desta edição.

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