Um dos mais prestigiados eventos do cinema internacional, o Festival de Cannes converteu-se, nos últimos anos, em uma vitrine brilhante para astros e estúdios de Hollywood: Tom Cruise levou ao festival “Top Gun: Maverick” em 2022, e voltou ano passado com a exibição especial de “Missão: Impossível - O Acerto Final”, último capítulo da saga do agente Ethan Hunt. “Indiana Jones e a Relíquia do Destino” e “Furiosa: Uma Saga Mad Max” também movimentaram a Croisette em 2023 e 2024, respectivamente. A situação, no entanto, não se repetirá na nova edição do festival, que começa nesta terça-feira, 12.
À exceção de uma exibição especial de “Velozes e Furiosos” (2001), com a presença de Vin Diesel e Michelle Rodriguez, nenhum dos grandes estúdios americanos levará blockbusters ao tradicional festival francês. Para analistas da imprensa internacional, o movimento é explicado, em parte, pelo risco de uma recepção morna ou negativa, que possa derrubar os desempenhos nas bilheterias - como aconteceu com o último Indiana Jones. Já Thierry Fremaux, diretor do evento, disse avaliar que os estúdios passam por um momento de transição. "Mas tenho certeza que eles voltarão", afirmou, à agência Associated Press.
De forma geral, a presença americana em Cannes é tímida este ano. Na competição oficial, há apenas dois títulos: “The Man I Love”, filme de Ira Sachs estrelado por Rami Malek, e “Paper Tiger”, dirigido por James Gray e protagonizado por Scarlett Johansson e Adam Driver. O longa tem produção de um brasileiro, Rodrigo Teixeira, por meio de sua empresa RT Features.
Nomes de Hollywood aparecem em outras seções do festival. O ator Andy Garcia exibirá fora da competição o filme Diamond, escrito, dirigido e estrelado por ele - caso muito similar ao de John Travolta, que leva a Cannes seu “Propeller One-Way Night Coach”, no qual também dirige, atua e escreve.
O cineasta Steven Soderbergh levará a Cannes uma exibição especial seu documentário John Lennon: “The Last Interview”, que exibe pela primeira vez a entrevista concedida pelo ex-Beatle horas antes de sua morte. Já o colega Ron Howard marcará presença com “Avedon”, documentário sobre o célebre fotógrafo americano Richard Avedon.
Na mostra Un Certain Regard, será exibido o terror “Teenage Sex and Death at Camp Miasma”, protagonizado por Gillian Anderson e Hannah Einbinder, e dirigido por Jane Schoenbrun, do cultuado “I Saw The TV Glow”.
E o Brasil?
Um ano após “O Agente Secreto” render prêmios a Kleber Mendonça Filho e a Wagner Moura, o Brasil também está com presença menor em Cannes, aparecendo principalmente nas coproduções - como a de “Paper Tiger”, mencionada acima.
Um dos destaques da Quinzena dos Realizadores, o chileno “La Perra”, baseado na obra de Pilar Quintana e dirigido por Dominga Sotomayor, também tem produção da RT Features - e conta com Selton Mello no elenco.
O longa nepalês “Elefantes na Névoa”, selecionado para a Un Certain Regard, tem entre suas coprodutoras as empresas brasileiras Bubbles Project e Enquadramento Produções. Escalado na Semana da Crítica, “Seis Meses no Edifício Rosa e Azul” também tem coprodução brasileira, por meio da Desvia Filmes.
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Entra ainda na cota de coproduções o documentário “Groundswell”, narrado por Demi Moore e Woody Harrelson. Tema de uma exibição especial, o longa sobre práticas de agricultura regenerativa teve cenas gravadas no País e, segundo o jornal O Globo, trará entrevistas com as ex-ministras Marina Silva e Sonia Guajajara.
Espaço para autores
Sem grandes nomes de Hollywood, os holofotes de Cannes estão direcionados para o cinema de autor. O filme de abertura do festival será a comédia romântica La Vénus Électrique, do francês Pierre Salvadori. Na competição pela Palma de Ouro, prêmio máximo do festival, estarão também o espanhol Pedro Almodóvar, com sua comédia dramática “Natal Amargo”, e o iraniano Asghar Farhadi (do premiado “A Separação”), com Parallel Tales, seu primeiro filme em cinco anos.
O japonês Ryusuke Hamaguchi, conhecido pelo vencedor do Oscar “Drive My Car”, retorna ao festival com “All of a Sudden”, drama que é também seu primeiro filme falado em francês. Seu conterrâneo Hirokazu Kore-eda leva à disputa “Sheep in a Box”, drama de ficção científica sobre um casal que adota um robô humanoide após a morte do filho.
O polonês Pawel Pawlikowski, de “Ida e Guerra Fria”, retorna com “Fatherland”, filme que acompanha o relacionamento do escritor Thomas Mann com sua filha, Erika, em uma viagem pela Alemanha. Já o romeno Cristian Mungiu, vencedor da Palma de 2007 por 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias, traz o drama Fjord, em que Sebastian Stan e Renate Reinsve interpretam um casal que enfrenta o escrutínio de uma pequena cidade norueguesa.
Termômetro para o Oscar?
O Festival de Cannes tem sido, nos últimos anos, um importante propulsor para a temporada de premiações americanas e, em particular, para o Oscar. “Anora”, vencedor da Palma de Ouro de 2024, saiu com o Oscar de Melhor Filme em 2025; no ano passado, três longas premiados no evento francês ganharam destaque na maior premiação do cinema - o brasileiro “O Agente Secreto”, que concorreu a quatro troféus, incluindo o de Melhor Filme; o norueguês “Valor Sentimental” e o iraniano (indicado pela França) “Foi Apenas um Acidente”.
É cedo para fazer previsões, mas é seguro dizer que um ou mais títulos de destaque devem, sim, seguir adiante na temporada, dada a importância do festival como vitrine do cinema internacional.
A distribuição dos prêmios da competição principal ficará a cargo do júri presidido por Park Chan-wook, cineasta sul-coreano responsável por “Oldboy” e “A Única Saída”. Estão entre os jurados Demi Moore, Stellan Skarsgard e a diretora Chloé Zhao, de “Nomadland” e “Hamnet - A Vida Antes de Hamlet”.
O festival ainda homenageará com uma Palma de Ouro honorária a atriz Barbra Streisand e o diretor Peter Jackson - conhecido por seu trabalho frente às adaptações de “O Senhor dos Anéis” e “O Hobbit”.