"Náufrago”, filme de Robert Zemeckis, imaginou como seria a vida solitária em uma ilha no meio do oceano; “A Lagoa Azul”, de Randal Kleiser, emocionou diferentes gerações com a história de dois jovens igualmente perdidos; e “Socorro!”, agora nos cinemas, é a união violenta dessas duas histórias.
Dirigido por Sam Raimi, cineasta por trás de filmes como “A Morte do Demônio” e da primeira trilogia “Homem-Aranha”, o longa-metragem tem uma proposta ousada: falar sobre um chefe e uma funcionária presos numa ilha no meio do nada após a queda de um avião.
Ele é Bradley (vivido por Dylan O'Brien, de “Maze Runner”), o novo chefe de uma firma importante, que assume o cargo após a morte do pai. É a síntese de um machista no poder: gosta apenas dos amigos da fraternidade, passa o tempo no escritório jogando minigolfe e privilegia os funcionários do sexo masculino.
Quem sofre com isso é Linda (Rachel McAdams), diminuída o tempo todo. Mas acontece o acidente de avião. E só os dois sobrevivem.
Raimi, sempre astuto na maneira de dirigir suas histórias, nunca deixa “Socorro!” cair naquilo que já foi visto em “Náufrago” ou em “A Lagoa Azul”. Além de ser um filme de sobrevivência, sobre duas pessoas tentando se virar numa ilha deserta, o longa fala, principalmente, sobre relações de poder.
Bradley exerce um controle excessivo sobre Linda - manda e desmanda, dá ordens sem sentido, a diminui. Mas como fazer isso quando se está em uma situação assim? A ausência da sociedade, neste caso, não provoca loucura, amizades com bolas de vôlei ou romances inesperados. É uma completa inversão de papéis, com Linda sendo muito mais necessária para Bradley do que o contrário. O chefe simplesmente não consegue sobreviver sem ela.
Com roteiro de Damian Shannon e Mark Swift, ambos de “Baywatch: S.O.S. Malibu”, o filme se torna um exame curioso, e um tanto inesperado, sobre essas relações e como nada se mantém no ar fora da sociedade que criou tais padrões.
Olhar
Raimi ainda inclui uma boa dose de sadismo nessa dinâmica - violência, bastante inesperada em alguns momentos, e até mesmo cenas escatológicas. Tudo, porém, com sentido. Nada à toa: é sempre com o olhar afiado para a sociedade.
Tudo bem que “Socorro!” perde o fôlego lá pela metade, quando o jogo de gato e rato entre os dois protagonistas se torna cansativo e um pouco previsível. Dá para imaginar os próximos passos, as decisões, os erros. Mas Rachel McAdams e Dylan O'Brien ajudam a segurar a atenção, com atuações bem acima da média - ela, em especial, faz um papel totalmente diferente do visto em produções como “Diário de uma Paixão” e “Questão de Tempo”.
No geral, é mais um bom filme de Sam Raimi, que volta à boa forma após o apenas mediano “Doutor Estranho no Multiverso da Loucura”. Criativo, provocativo, engraçado: é um diretor que parece ser um refresco em tempos turbulentos.