A sombra do grande escritor Mark Twain e de seus heróis, Tom Sawyer e Huckleberry Finn, aparecem sobre o belo filme, que mostra o encontro de um homem misterioso, Mud (em excelente performance de Matthew McConnaughey), com dois adolescentes de 14 anos, Ellis e Neckbone, em uma ilha do grande rio Mississippi. O filme de Nichols é repleto de mitos e personagens de dimensão lendária, como o próprio Mud, que vive em uma barca, Sam Shepard, na pele de um atirador de elite, e Reese Witherspoon, o primeiro e eterno amor do protagonista. "É um filme sobre o amor romântico, incondicional, mas visto pelos olhos de um menino, Ellis, que precisa desesperadamente entender e acreditar no amor", explicou na entrevista coletiva Nichols, o diretor mais jovem a disputar a Palma de Ouro.
Ellis (Tye Sheridan) está buscando "uma versão do amor que funcione, porque os adultos que o cercam estão fazendo isto de maneira ruim", destacou o cineasta, que ficou conhecido no ano passado com "O Abrigo", que conquistou o prêmio da Semana da Crítica, a mostra paralela mais antiga do festival.
O filme se passa na região em que Nichols nasceu e cresceu, o sul dos Estados Unidos, que o diretor filma de maneira tão romântica quanto a própria história, captando o som dos insetos, o ruído das aves ao voar e o lento correr do mítico rio, que marca todo o longa-metragem. "Filmar o rio Mississippi me permitiu, como a Mark Twain, sentir toda sua vitalidade. O rio marcou profundamente todo o filme, ele é como o centro de toda a história", afirmou Nichols, antes de ressaltar a inspiração e a influência de Mark Twain no filme. "Ele é um dos meus escritores favoritos. Twain soube captar o universo de um menino crescendo no rio Mississippi, com toda a sua magia. Foi mais que uma influência direta", disse o diretor, que utilizou uma câmera de 35 milímetros para retratar uma região do mundo que, segundo ele, "está desaparecendo".
O sul dos Estados Unidos também é a região na qual foram criados Matthew McConnaughey e Reese Witherspoon, vencedora do Oscar de 2006 pela interpretação em "Johnny e June". "Eu cresci no Tennessee e quando li o roteiro, senti que falava da minha casa, o sul, de uma maneira verídica, como poucos filmes já fizeram", disse a estrela. "Precisava de uma atriz que pudesse tornar crível este amor sem limites que inspira ao personagem. Mud passa o dia todo falando dela, assim tinha que ser alguém especial", explicou o diretor.
Os adolescentes do filme, Tye Sheridan e Jacob Lofland, também nasceram nesta região do sul dos Estados Unidos. Eles são responsáveis por boa parte do filme."Neckbone sou eu", disse Lofland. Nichols e toda a equipe do filme tiveram uma das recepções mais favoráveis da imprensa. O filme foi o último dos 22 longas-metragens a ser exibido. O americano tem grandes chances de conquistar o principal prêmio, depois de 12 dias de muitas mortes, sexo, sangue e violência em Cannes, com poucos sorrisos. "Ainda estou buscando meu próprio estilo", afirmou o diretor, que concorre ao prêmio principal com obras de cineastas veteranos como o austríaco Michael Haneke, o iraniano Abbas Kiarostami, o brasileiro Walter Salles, o romeno Christian Mungiu e o canadense David Cronenberg.
O jovem diretor já é considerado um artista com uma visão muito pessoal do cinema. Seu primeiro filme, "O Abrigo", um thriller apocalíptico, mostra a vida tranquila de Curtis LaForche (Michael Shannon) com a mulher, Samantha (Jessica Chastain), e a filha, até o dia que ele passa a sofrer com pesadelos violentos, dominados pela ameaça de um tornado e outras visões terríveis. Ele decide então construir um abrigo subterrâneo para salvar a família e entra em um processo deterioração psicológica que afeta radicalmente a vida de sua família.