O documentário "Pussy Riot - Uma Oração Punk", dirigido por Mike Lerner e Maxim Pozdorovkin, é um dos longas que concorrem no festival americano de cinema . O trio russo foi protagonista do escândalo provocado em uma manifestação contra Putin. Ainda que o protesto não tenha durado mais de 40 segundos, a prisão de Ekaterina Samutsevitch, de 30 anos; Maria Alejina, de 24; e Nadejda Tolokonnikova, de 23, e sua posterior condenação, comoveram o Ocidente e parte da sociedade russa.
A chanceler alemã, Angela Merkel, defendeu sua causa frente a Putin e cantores como Madonna, Paul McCartney e a banda de rock Red Hot Chili Peppers manifestaram publicamente seu apoio às artistas. "Estava muito interessado nesta história, onde se misturam o extremismo religioso, a política e o mundo da arte. Conta o que a sociedade está preparada para aceitar", declarou o diretor Maxim Pozdorovkin.
Usando imagens do processo judicial e arquivo do próprio grupo, os cineastas relatam a criação e os fatos mais relevantes da vida deste "coletivo feminista", nascido em março de 2012, data que coincidiu com a eleição de Putin como presidente para seu terceiro mandato. "Seu problema não é Putin em si. Para elas, ele simboliza todo um sistema de governo, jogo sujo e patriotismo", explicou Pozdorovkin. "Seu objetivo é muito mais amplo, elas querem uma revolução feminista na sociedade", acrescentou. "As pessoas pensam que as Pussy Riot são um grupo, mas elas são um coletivo feminista anônimo, sem líder nem estrutura organizada", contou o cineasta.
O filme rememora as primeiras performances das Pussy Riot, uma em um salão de beleza para protestar contra a imagem da mulher, e outra na Praça Vermelha de Moscou, para reafirmar seu compromisso político, antes da aparição na catedral do Cristo Salvador. As integrantes foram condenadas a dois anos de prisão pelo protesto contra Putin. Uma delas, Ekaterina Samutsevitch, foi posta em liberdade. "A história foi muito impactante na Rússia, como uma telenovela, todo mundo falava do assunto. Mas, no conjunto, a maioria dos russos é contrária ao que fizeram e pensa que provavelmente elas têm o que merecem", disse Pozdorovkin.
Para ele, as Pussy Riot são principalmente artistas de performance, que combinam diferentes formas de expressão, pretendem provocar e atuam com espontaneidade e improvisação, e deveriam ser tratadas como tais. "Um dos motivos deste escândalo, além do aspecto religioso da história, é que a Rússia nunca viveu sua época de punk rock, nunca teve seu ano 1977 nem seus Sex Pistols (grupo britânico a quem lhes atribui o nascimento do movimento punk no Reino Unido). E o país não conhece o que é a arte da performance", sublinhou.
No entanto, a "repressão" das Pussy Riot também é política. "A história é similar a de outros movimentos revolucionários do mundo", comparou Pozdorovkin. "Se olharmos o Occupy Wall Street dos Estados Unidos, eles foram tolerados pelo governo durante um tempo, mas logo depois foram reprimidos quando as autoridades foram tomadas pelas grandes empresas", explicou. "Na Rússia, o que aconteceu é que o governo se pôs do lado dos extremistas", sentenciou Pozdorovkin.