Cinema e literatura compartilham uma relação tão antiga quanto desafiadora. É justamente esse diálogo que volta ao centro das atenções com a retomada do ciclo “Filmes & Livros”, promovido pela Sala Redenção em parceria com a professora e pesquisadora Fatimarlei Lunardelli. No segundo semestre, o projeto reúne duas adaptações fundamentais para discutir como clássicos da literatura continuam ganhando novos significados no cinema.
Com sessões gratuitas e abertas ao público, seguidas de debates conduzidos por Fatimarlei, o ciclo propõe um mergulho nas especificidades das duas linguagens artísticas. Mais do que comparar livro e filme, a proposta é compreender como cada obra constrói a própria narrativa e como grandes adaptações conseguem preservar o espírito do texto original sem abrir mão de identidade cinematográfica.
A primeira sessão, nesta segunda-feira, apresenta “A Hora da Estrela” (1985), dirigido por Suzana Amaral e baseado no último romance publicado por Clarice Lispector. Lançado em 1977, poucos meses antes da morte da escritora, o livro tornou-se uma das obras mais importantes da literatura brasileira ao construir, por meio da personagem Macabéa, um retrato contundente da invisibilidade social. A jovem nordestina que tenta sobreviver em São Paulo representa milhares de brasileiros marginalizados, enquanto Clarice transforma sua aparente simplicidade em uma profunda reflexão sobre existência, linguagem e pertencimento.
Levar esse universo para o cinema parecia um desafio considerável. A força do romance está menos na ação do que na subjetividade de sua escrita. Suzana Amaral encontrou uma solução ao apostar em uma narrativa visual de enorme delicadeza, sem abrir mão do impacto emocional da obra. O resultado foi um dos filmes mais premiados da história do cinema brasileiro. Marcélia Cartaxo recebeu o Urso de Prata de Melhor Atriz no Festival de Berlim por sua interpretação de Macabéa, enquanto a breve participação de Fernanda Montenegro como a cartomante tornou-se uma das cenas mais marcantes da adaptação.
No dia 5 de outubro, o ciclo desloca o debate para um dos textos fundadores da cultura ocidental: “Fausto”, de Johann Wolfgang von Goethe. Publicada em duas partes ao longo de décadas, a obra sintetiza questões que atravessam séculos: o desejo ilimitado por conhecimento, a ambição humana, a busca pela juventude e os dilemas éticos provocados pelo célebre pacto com Mefistófeles. Sua influência alcançou a literatura, a música, o teatro e as artes visuais, tornando Fausto das personagens mais revisitadas da história.
A adaptação dirigida por*F. W. Murnau, lançada em 1926, permanece como uma referência incontornável do cinema expressionista alemão. Com cenários monumentais, fotografia marcada pelos contrastes entre luz e sombra e efeitos visuais surpreendentes para a época, o filme transformou a narrativa filosófica de Goethe em uma experiência cinematográfica de grande força imagética. Um século depois, continua sendo exemplo de como o cinema pode reinterpretar um clássico sem reduzir sua complexidade.