Correio do Povo - Gostaria de saber como foi a gênese do Caderno de Sábado, nos depoimentos que tiveste do teu pai, Paulo Fontoura Gastal?
Ney Gastal - É uma história típica do velho Correião. Lá pelas tantas, ele e o Oswaldo Goidanich, resolveram propor ao Dr. Breno Caldas transformar a página literária semanal do jornal em um "suplemento literário". Dr. Breno
respondeu um "pode ser, vou pensar", e ficou por isso. O tempo passou, e as coisas foram caindo no esquecimento, até que, em uma noite de quarta- feira, ele (Dr. Breno) passou pelos dois no corredor da redação e avisou:
"vamos fazer aquele caderno a partir deste sábado". Eles tiveram dois dias para pensar, bolar, desenhar, produzir e lançar o auto-intitulado, pela circunstâncias, "Caderno de Sábado".
CP - Qual o seu testemunho sobre a importância do Caderno de Sábado para a difusão de literatura e temas da intelectualidade e também para a formação de leitores?
Gastal - Era uma época diferente, ainda havia muita gente que gostava de ler. O caderno tinha muito conteúdo, conteúdo publicado em letras pequenas (geralmente em corpo 8) das quais ninguém reclamava. Tinha gente que vinha buscar na boca da rotativa, um para guardar e encadernar, e outro para ler. Muita gente - muita gente mesmo, e de todas as classes sociais - o guardava para os filhos, quando crescessem. E ainda havia o índice geral,
publicado mais ou menos duas vezes por ano e minuciosamente organizado pelo Fernando G. Sampaio, que ajudava na consulta destas coleções. Era um produto absolutamente cultural, um presente do Correio do Povo aos seus leitores. Uma coisa única, de um tipo que hoje não existe mais. Era usado em aulas, do primário à Universidade, e publicar nele era uma honra disputada pela intelectualidade. Seus números monotemáticos eram
solicitados em grande quantidade por Universidades de todo mundo. Rodavam mais exemplares do "Caderno" do que do jornal, aos sábados, para fazer este tipo de encaminhamento.
CP – O senhor pode nos dar exemplos de temas e autores que não teriam vingado sem serem pautados ou publicados pelo Caderno de Sábado?
Gastal - Tanto o pai, P. F. Gastal, quanto o Goidanich, eram editores discretos e modestos. Granjearam alguns desafetos de autores "não publicados", mas nunca fizeram brilhatura na função. Gastal, principalmente, que era o "editor titular", apesar de ter enorme orgulho pelo Caderno, jamais diria que algum autor "não teria vingado" sem ser
pautado ou publicado por ele. Ambos vinham de um jornalismo fruto mais do entusiasmo do que da vaidade. Mas dá para dizer que todos os autores e intelectuais gaúchos (e boa parte dos brasileiros) daquela época, tinham
grande prazer em publicar no Caderno. Não esquecendo os artistas plásticos que a cada semana tinham uma obra publicada em sua capa. Cabe lembrar alguns dos outros editores que passaram pelo Caderno, nos números
monotemáticos (Sérgio Faraco, Maria da Glória Bordini, Guilhermino César, Regina Zilberman, entre outros) ou nas férias e ausências do P.F. (Antônio Hohlfeldt e eu, mais o Antônio do que eu, que também fizemos números monotemáticos).